O Extra é um Gênio!?

Capítulo 191

O Extra é um Gênio!?

A residência da Charlotte não tinha nada a ver com a do Noel.

Enquanto o espaço dele era mínimo, quase utilitário, o dela era cheio de pequenos detalhes: luzes de fada que flutuavam suavemente acima da cama, lírios encantados em vasinhos que se balançavam com emoção, um tapete felpudo em formato de crescente e uma prateleira repleta de quinquilharias e latas de chá. Feminina? Talvez. Mas, com certeza, era dela.

Ela estava na frente do espelho do banheiro, escovando lentamente o cabelo comprido — rosa e luminoso sob a suave luz mágica. O Véu Sagrado estava desligado por enquanto, deixando suas feições naturais refletirem com clareza.

Olhos dourados encontraram seu reflexo no espelho.

"Prefiro esse visual," pensou ela, admirando o modo como seu cabelo verdadeiro brilhava com uma luz que nenhuma ilusão conseguia replicar.

"Mas não posso ficar andando pela academia assim. A menos que queira levar uma bronca dos anciãos ou ser arrastada de volta para a Capital Sagrada."

Fazia exatamente um mês desde que ela tinha chegado.

Ela fez amizades — algumas até espalhafatosas demais. Clara sempre a convidava para explorar Valon, mas Charlotte recusava toda vez com alguma desculpa.

"Porque quero que seja ele quem me mostre tudo," ela admitiu a si mesma, formando um pequeno sorriso nos lábios.

"Um passeio, uma caminhada... qualquer coisa que pareça um encontro. Apenas um dia normal, como qualquer garota da minha idade. Na Capital Sagrada, isso nem chegava a ser uma opção. Não tinha meninos da minha idade... e os que tinham não se interessavam por nada além de rezar ou política."

As coisas mudaram no dia em que a nomearam Santa.

Enquanto continuava escovando o cabelo, memórias surgiram na cabeça dela — momentos de caos, fogo e… Noel.

"Ainda lembro quando aquele pervertido traidor me deixou sozinha com os leões."

"Ele me traiu. Fiquei tão irritada que quase o amaldiçoei em voz alta."

Ela soltou uma risada suave.

"Mas alguma coisa nele… grudou."

Ela passou os dedos pelos fios sedosos do cabelo uma última vez.

"Ele também cheira bem. Não ‘cheiro bom’ como alguém em quem dá pra confiar, mas… ‘cheiro bem’ de algo que fica na lembrança. Nunca contei pra ele, mas é verdade."

"Ninguém mais cheira assim. Nem Orthran, nem Marcus, nem Garron ou Laziel, nem qualquer rapaz da Capital Sagrada. Nem Deus, pelo amor de Deus. Só ele."

O pincel parou. Ela fixou o olhar no reflexo.

Talvez fosse hora.

Hora de parar de fingir que não era nada demais. Hora de conversar com as meninas que, sem dúvida, já faziam parte da vida dele.

Desligou a luz e saiu do banheiro. Amanhã seria complicado. Mas, naquela noite, ela se prepararia.

Porque Charlotte era muitas coisas — Santa, travessa, andarilha.

Mas acima de tudo… ela era honesta.

A fumaça ainda pairava no ar enquanto Charlotte voltava para seu quarto. O calor grudava na pele nua, mas ela não se apressou. Havia algo ritualístico na maneira como ela se movia, secando-se com uma toalha macia bordada com pequenas estrelas, e depois pegando suas roupas, uma peça por vez.

Primeiro, as roupas íntimas — brancas e simples.

Depois, a saia azul escura do uniforme da academia, plissada e afiada, seguiu-se a blusa de colarinho e o blazer. Ela abotoava cada um lentamente, com dedos cuidadosos e firmes.

Por fim, ela pegou o Véu Sagrado.

No instante em que o colocou sobre a cabeça, seu corpo brilhou um pouco. O cabelo rosa desapareceu, tornando-se um vermelho profundo, e seus olhos dourados viraram hazel. Sua disfarce habitual — Charlotte Santa, estudante da Academia Imperial.

Ela olhou novamente para o reflexo, agora uma estranha para si mesma.

"Sempre fico tão séria assim… Quase misteriosa, também."

Ela estreitou os olhos ao ajustar as dobras da saia.

Hoje à noite não era hora de provocação ou de sair para comprar pão à meia-noite. Era uma noite importante.

"Acho que é hora de ter aquela conversa," sussurrou para si mesma, ficando ereta.

Não com Noel.

Com elas.

Ela pegou uma pequena escova encantada na penteadeira, colocou no bolso e saiu do quarto.

A luz da lua banhava os corredores da academia de prata. Estava silencioso, quase sagrado.

Os passos de suas botas ecoaram suavemente no mármore enquanto ela caminhava — passando por aulas vazias, jardins silenciosos e corredores escuros — procurando. Ela sabia onde eles estariam. No mesmo lugar de sempre, quando precisavam de paz: no pátio leste, onde as rosas floresciam mesmo no inverno.

"As duas meninas que já têm pedaços dele. Elena… Elyra…"

Charlotte apertou a mandíbula.

"Só quero saber onde eu me encaixo."


O pátio estava tão tranquilo quanto de costume.

Sebes bem aparadas cercavam um amplo caminho circular pavimentado com pedra branca. Uma fonte borbulhava tranquilamente no centro, e ao redor, bancos pareciam sentinelas silenciosas sob a luz da lua.

E, em um desses bancos, estavam as duas garotas que Charlotte procurava.

Elyra von Estermont — cabelo preto trançado até as costas, olhos tão afiados quanto aço invernal.

Elena — cabelo platinado reluzindo como geada sob as estrelas, seu olhar âmbar mais suave, mas não menos perspicaz.

Ambas vestiam os uniformes cinza e vermelho da sociedade estudantil. Ambas pareciam pertencer ali — compostas, calmas, poderosas.

Charlotte se aproximou lentamente. Seus passos eram deliberados, o coração batendo alto e irritantemente audível em seus ouvidos.

"Provavelmente, elas me notaram assim que eu entrei no pátio."

Elena foi a primeira a virar a cabeça, com expressão curiosa.

"Charlotte?" ela perguntou. "Aconteceu alguma coisa?"

Elyra olhou a seguir. Seus olhos estreitaram levemente, não com hostilidade — apenas análise. "Já é tarde."

Charlotte parou a alguns passos delas. Seu sorriso habitual apareceu nos lábios, mas ela se esforçou para manter a expressão controlada.

"Sem emergência," disse com tom leve. "Só queria conversar."

"Conosco?" Elena inclinou a cabeça. "Agora?"

Charlotte deu de ombros. "Não podia esperar."

As duas garotas trocaram um olhar, depois abriram espaço no banco. Charlotte sentou-se, com as costas retas, o olhar fixo na frente.

Houve um momento de silêncio. A brisa carregava o aroma sutil de roses.

Charlotte quebrou o silêncio primeiro.

"Sei que vocês têm uma ligação forte com Noel," ela começou. "Mais do que qualquer outra aqui."

Nunca interromperam.

"E sei que provavelmente pareço… Não sei. A garota irritante que apareceu do nada. Que chama ele de nomes, quebrar coisas, causar confusão."

Desta vez, Elena sorriu levemente. Elyra não.

"Realmente não me importo com o título que vocês me dão. Santa. Transferida. Marrenta. Eu só…" Charlotte respirou fundo. "Queria ser honesta com vocês duas."

Elena se inclinou um pouco para frente. "Sobre o quê?"

A voz de Charlotte deu uma leve abaixada.

"Gosto dele."

As palavras saíram, carregadas na noite.

Sintou suas mãos cerrando ligeiramente no colo. Mas ela não desviou o olhar.

"Não sei se é amor. Talvez seja, talvez seja só a primeira vez que encontro alguém que me faz me sentir eu mesma sem fingimentos. Mas eu gosto de estar perto dele. Gosto de irritá-lo. Gosto de como ele não recua comigo. Gosto de como cheira."

Isso fez Elena piscar. Elyra levantou uma sobrancelha.

Charlotte tossiu na mão fechada. "Esquece a última parte."

Nenhuma delas falou nada.

Ela continuou.

"Não quero tirar nada de vocês. Não quero criar confusão. Só… quero saber se tenho um lugar. Mesmo que pequeno."

O silêncio se prolongou novamente.

Charlotte permaneceu quieta.

"Talvez tenha sido idiota. Talvez eu devesse ficar calada, só sorrindo."

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