O Extra é um Gênio!?

Capítulo 210

O Extra é um Gênio!?

Elyra levantou a mão enquanto o garçom se aproximava. Seus cabelos pretos estavam trançados de maneira elaborada até as costas, e o vermelho profundo de seu traje nobre — símbolo da Casa Estermont — combinava com a postura sutil de poder que exibia.

"Trazer uma garrafa de Vale Carmesim," ela disse, com uma voz afiada e decidida. "Da colheita de 208. Casa Estermont, reserva particular."

Os olhos do garçom se arregalaram levemente, mas ele assentiu e saiu rapidamente.

Charlotte piscou. "Isso... é sua marca, né? Pensei que esse vinho fosse servido só a reis e arcebispos visitantes."

Sorriso de Elyra foi quase carregado de confiança. "É. Mas achei que essa noite merecia."

Noel estreitou os olhos. "Você quer nos embebedar."

"Exatamente," ela respondeu sem hesitar. "Todos vocês três."

Elena inclinou a cabeça. "Por quê, exatamente?"

"Porque amanhã enfrentaremos pressão, formalidades e, provavelmente, perigo," disse Elyra enquanto o garçom retornava com o vinho numa garrafa escura de cristal. "Hoje, a ideia é relaxar. E quero ver quem se derruba primeiro."

O garçom despejou o líquido em quatro copos gravados — um líquido de cor rubi que brilhava de forma quase sobrenatural, refletindo a luz como gemas dasfocadas.

Charlotte suspirou enquanto pegava seu copo.

"Vai acabar horrivelmente."

"Só se você for fraca," Elyra respondeu, já degustando o próprio.

Noel, com o copo na mão, mas sem ter começado a beber, virou-se para Elena ao seu lado. "Ei... antes de partirmos para Elarith, quer que eu corte meu cabelo?"

Elena piscou. "Quer que eu...?"

"Sim. Está ficando uma bagunça de novo," ele disse, sorrisinho no rosto. "E gostei do jeito que ficou da última vez. Então, pode ficar tranquila — confio em você."

Ela olhou para baixo, um pouco envergonhada, com um sorriso tímido nos lábios. "Tudo bem. Vou deixar do jeitinho que ficar perfeito."

Elyra sorriu por trás do copo. "Ah, eu pagaria pra ver ele com franja todos tortos."

Charlotte levantou o copo. "Ao corte de cabelo do Noel, que logo será perfeito."

As taças batiam suavemente. O garrafa de Vale Carmesim já quase no fim da metade.

Noel recostou na cadeira, com um sorriso preguiçoso no rosto, enquanto o calor do vinho se espalhava pelo peito. Seu copo girava lentamente na mão, embora ele tivesse tomado cuidado para não exagerar — ainda não, pelo menos.

Charlotte ficou um pouco corada. Elena, ainda composta, bebia devagar, embora sua postura estivesse mais relaxada com a tranquilidade da noite. Elyra, como esperado, segurava sua bebida com postura aristocrática, mas com um brilho de travessura nos olhos.

"Então," começou Elyra, colocando o copo com um leve tilintar, "todo mundo ouviu falar do Marcus e da Clara, né?"

Charlotte assentiu imediatamente. "Sim! O Marcus finalmente confessou o que sente. Já tava na hora."

Os olhos âmbar de Elena se arregalaram um pouco. "Ele fez? Não tinha ouvido. Quando?"

"Uns dias atrás," respondeu Elyra, cruzando uma perna sobre a outra. "Ele convidou ela pra dar uma volta no conservatório à noite e saiu de boca aberta antes mesmo das rosas. Ela topou."

Noel deu uma risada. "Sabia que ele ia ceder. Parecia um cachorrinho perdido toda vez que ela passava."

Charlotte riu baixinho. "E agora eles agem como um casal de verdade. Clara fica pedindo pra ele arrumar o colarinho e beber mais água."

"Isso parece ela mesmo," disse Elena, soltando uma risada suave.

Elyra levantou uma sobrancelha para Charlotte. "Sabe o que isso quer dizer, né? Do grupo S, só o Laziel ainda não está comprometido."

Noel deu um toque na taça. "Na teoria, sim. Mas..."

Charlotte se inclinou. "Mas?"

"Ele tem andado... diferente ultimamente," disse Noel, batendo os dedos na mesa. "Passa muito tempo sozinho. Some depois da aula. Até pulou um treino uma vez."

"Vi ele conversando com alguém atrás do conservatório semana passada," acrescentou Elena, com a voz baixa. "Estava escuro, não consegui ver quem era."

Charlotte piscou surpresa. "O que? Quem ele estaria conversando—?"

Elyra fez um gesto para acalmar. "Calma. Pode ser nada. Ou pode ser algo interessante. De qualquer forma, logo vamos descobrir."

"Aposto que é algo interessante," disse Noel, sorrindo. "Com nossa sorte? Provavelmente, muito interessante."

Finalmente, os pratos chegaram — um pato assado suculento com batatas ao alho douradas, uma cesta de pães com manteiga e uma travessa de legumes aromatizados, fresquinhos do mercado matinal. Os quatro se acomodaram nas cadeiras enquanto a mesa se enchia de aromas e calor.

"Cheira demais," murmurou Elena, cortando cuidadosamente o pato.

"É do Mirae," disse Elyra, orgulhosa, enquanto servia a última dose de vinho Estermont na taça. "Só o melhor pra hoje."

Charlotte deu uma mordida e soltou um suspiro de aprovação. "Humm... o molho é doce. Gosto."

Noel já quase tinha terminado o prato. "Tô feliz que não seja outro ensopado da cantina. Acho que me esqueci de como é o sabor de comida de verdade."

Elyra arqueou uma sobrancelha. "Quer dizer que eu tenho gastado meu ouro alugando esse lugar o tempo todo?"

"Não, não," respondeu Noel rapidamente, sorrindo. "Tô dizendo que vocês estão salvando nossas vidas."

Elena sorriu com isso, olhos dourados calorosos. "Devíamos fazer isso mais vezes. Só nós."

Charlotte assentiu. "Especialmente antes da viagem. Tá... tranquilo hoje."

"Pessoas demais me deixam desconfiada," disse Elyra, fingindo franzir o rosto. "Já tô esperando alguém cair pela janela e começar um duelo."

Noel riu. "Não vamos atrair azar. Estou gostando disso."

O ambiente era suave, com o tilintar silencioso dos talheres e o crepitar delicado das lanternas acima. Lá fora, a brisa nocturna entrava pelas portas do balcão, trazendo o aroma de pedra e mar da cidade.

Charlotte se recostou, apoiando o queixo nas mãos. "Que horas a gente sai amanhã?"

"Não de imediato," respondeu Elyra, degustando o restante do vinho. "De manhã, fazem o anúncio oficial na academia. Depois disso, temos aproximadamente dois dias até a partida."

"Dois dias?" Charlotte piscou surpresa. "Isso é pouco."

"Sempre assim," acrescentou Elena suavemente. "Eles não querem dar muito tempo pra boatos ou dramas se espalharem. Mas vamos dar conta."

Noel soltou um suspiro e se recostou um pouco. "Então, vamos ter que fazer as malas rápido... e resolver tudo que precisa antes de partir."

As meninas assentiram em silêncio, cada uma perdida em seus pensamentos por um breve momento. Os últimos pratos principais permaneciam aquecidos na mesa, ainda intocados, enquanto as luzes da cidade de Valon lançavam padrões suaves através do vidro polido.

O luar escurecia lá fora, mas a janta continuava.

Comentários