
Capítulo 184
O Extra é um Gênio!?
A primeira sessão com Rauk havia terminado. O treinamento físico havia acabado por enquanto, e era hora da segunda parte do dia—as aulas de magia com Daemar.
Noel caminhava afastando-se do campo de treinamento, enxugando o suor do pescoço quando uma presença familiar se aproximou.
“Pervertido,” Charlotte sussurrou no ouvido dele por trás, na medida certa para que só ele pudesse ouvir.
Noel nem se assustou. “Ainda vai com esse apelido? Você não consegue me chamar assim na faculdade?”
“Então você não está negando, hein,” ela disse, lançando um sorriso malicioso.
“Não foi isso que eu quis dizer…” Noel respirou fundo.
Charlotte inclinou a cabeça inocentemente. “Bem, a culpa é sua. Você me atacou quando eu estava indefesa.”
“…O quê?”
“Eu lembro claramente. Você colocou a mão em mim.”
“É que você estava quase gritando e ia acordar todo mundo do orfanato. Muito inteligente da minha parte, não acha… Santo?”
“Shhh! Ninguém pode ouvir isso,” ela cuspiu, abafando.
Noel sorriu de lado. “Então comporta-se. Ainda tenho essa jogada na manga, e não tenho medo de usá-la.”
Charlotte revirou os olhos, depois sorriu de canto. “Deveria ser agradecida. A maioria das pessoas não começa o dia conversando com alguém tão encantadora quanto eu.”
Noel suspirou. “Você é impossível.”
Charlotte virou-se e acenou enquanto se afastava na direção da saída. “Até mais, pervertido.”
Noel murmurou para si mesmo, “Será que vale a pena…”
Marcus, que estava perto, levantou uma sobrancelha enquanto Noel se aproximava dele.
“…Que tipo de coisa é essa, afinal?” murmurou Marcus consigo mesmo.
Noel chegou ao lado dele.
“Vocês estão bem?”
“Defina bem,” Noel respondeu de jeito.
Marcus deu risada. “Vamos comer. Depois, treino de magia.”
“Certo. Vamos lá.”
Noel e Marcus caminharam lado a lado pelos largos corredores de pedra da academia, em direção à cantina. A luz do sol entrava pelas altas janelas em arcos, projetando sombras longas pelo piso de mármore.
“Como está indo o seu treino?” Marcus perguntou, mexendo o ombro e fazendo uma leve careta.
Noel deu de ombros. “Nada demais, pra falar a verdade.”
Marcus olhou para ele. “Sério? Mal consigo mexer os braços agora.”
“Achava que você estava acostumado a treinar o tempo todo?”
Marcus levantou uma sobrancelha. “E quem foi que te falou isso?”
“Ouvi você conversando com os outros. Algo sobre treinar desde criança.”
Marcus sorriu de canto. “É, é verdade. Sempre treinei pra proteger quem gosto.”
Noel assentiu. “Justamente por isso é um bom motivo.”
'Quase entregue demais,' pensou. 'Quase disse demais. Marcus é amigo, mas ainda não me contou tudo.'
Ao se aproximarem da cantina, Noel avistou Clara sentada sozinha numa mesa, visivelmente exausta. Ela estava um pouco inclinada para frente, mexendo nas têmporas com os dedos, seu prato mal tocado.
Noel cutucou Marcus com o cotovelo. “Olha só, quem está aí sentado sozinho. Será que ela precisa de uma companhia?”
Marcus ficou tenso instantaneamente. “Y-Yep… Boa ideia."
Noel sorriu de leve, mas logo se lembrou de como às vezes as coisas tinham sido difíceis para ele. 'Ok, talvez eu não deva rir. Já passei por isso também. Ainda estou, de certa forma.'
A cantina fervilhava de atividade. Estudantes saíam e entravam, a maioria carregando bandejas empilhadas de comida. Em outra mesa, Elyra e Seraphina conversavam e aproveitavam um almoço leve. Noel virou-se na direção delas e seguiu em sua direção. Faziam alguns meses desde a última vez que vira Seraphina—e, embora tivesse visto Elyra recentemente, sempre era bom conferir como elas estavam.
Quando Noel chegou à mesa, Seraphina foi a primeira a notá-lo.
“Olha só quem vem aí, seu namorado,” ela disse brincando, cutucando Elyra com o cotovelo.
Elyra sorriu e olhou para cima. “Ah, oi Noel. Como vai o treino?”
Noel sentou-se na ponta da mesa. “Está ok por enquanto. Tô com o Daemar essa tarde. E vocês? Como está a carga de trabalho do conselho?”
Elyra suspirou. “Como esperado, bastante ocupado.”
Seraphina se inclinou um pouco para frente, sorrindo com uma expressão maliciosa. “Na honestidade, vocês deveriam ajudar mais. Vocês têm a posição, sabe?”
Noel levantou uma sobrancelha. “Sua Alteza, acho que combinamos que eu seria mais uma… figura simbólica.”
“Verdade,” Seraphina deu uma sonra. “Mas ajudar suas namoradas queridas não faria mal, né?”
Noel piscou surpreso. “Você falou dela também?”
Elyra balançou a cabeça. “Não, ela se expôs hoje sozinha.”
Seraphina concordou. “Estávamos conversando e ela ficou tão vermelha que deu pra ver. Ela está no banheiro agora tentando se controlar.”
“Bem, acho que isso confirma,” Noel comentou baixinho. “E eu achando que era bom em guardar segredo.”
Elyra lhe lançou um olhar cúmplice. “Não quando as pessoas te conhecem bem.”
Seraphina recostou-se na cadeira. “De qualquer forma, agora que terminamos de trabalhar de manhã, vamos participar do treino com o Daemar à tarde.”
Noel concordou. “Entendi. A propósito, como está seu irmão?” Ele olhou diretamente para Seraphina. “Pareceu… diferente.”
Seu sorriso diminuiu um pouco. “Sim. Depois daquela confusão toda com a eleição, meu pai—o rei Alveron—ficou furioso. Dior humilhou a família imperial e, com tudo o que aconteceu, meu pai tem estado... menos paciente do que o normal. Pode apostar que Dior se deu jeito.”
“Compreensível,” respondeu Noel. “Teve o mesmo com meus irmãos. Vamos ver como eles se saem na caça deste ano.”
Elyra animou-se. “Posso ir também desta vez?”
Noel deu uma risada. “Sim. Ainda não sei qual família vai sediar, mas, como não é a minha, provavelmente é outra. E acho que os Estermont não participam, né?”
“Não mesmo. Nunca participaram,” Elyra respondeu. “Só quero estar lá para te apoiar.”
“Então vocês vão conhecer minha família,” acrescentou Noel.
Seraphina gemeu. “Vocês dois estão mesmo flertando na minha frente? A princesa imperial está aqui do meu lado.”
Noel fez uma reverência zombando. “Minhas desculpas, Sua Alteza Imperial. E futura rainha.”
Seraphina acenou com a mão. “A desculpa é aceita.”
Naquele momento, Elena voltou do banheiro, com o rosto levemente vermelho, mas tranquila. Ela sentou-se silenciosamente e começou a comer o restante da refeição. Os quatro terminaram o almoço juntos, um momento raro de calma antes da tempestade do treinamento à tarde.
Depois do almoço, o grupo seguiu para o espaço de treinamento construído sob os campos exteriores. O ar ainda estava quente, o sol de verão iluminando dorado o caminho de pedra que levava para fora dos muros da academia.
Elyra caminhava ao lado de Noel, segurando um pequeno caderno. “Vou pegar a Seraphina mais tarde. Quero observar a aula do Daemar de modo mais direto desta vez.”
Seraphina, que ia alguns passos na frente, não se virou. “Ele pode nos juntar, sabe. Melhor preparar seus feitiços.”
“Estou sempre preparado,” respondeu Elyra com confiança.
Elena, silenciosa como sempre, caminhava ao lado deles, com o olhar focado, mas tranquilo. Olhou para Noel. “Você acha que o Daemar vai separar a gente de novo?”
“Provavelmente,” disse Noel. “Ele não parece do tipo de passar a mão na cabeça, nem mesmo no primeiro dia.”
À medida que desciam para as salas de treino reforçadas sob a academia, o ar ficava mais frio. As paredes de pedra tinham runas brilhantes que pulsavam suavemente com mana, e o piso era de aço cinza, impecável mesmo com o movimento intenso de estudantes.
Daemar estava no final da sala, com os braços cruzados, observando os alunos voltando.
Noel reconheceu a maioria das pessoas de antes: Clara e Laziel já estavam lá dentro, conversando discretamente. Selene, como sempre, sozinha, com seus olhos cian em alta atenção, varrendo o ambiente. Até Dior tinha voltado, apoiado um pouco à margem.
A voz forte de Daemar cortou o silêncio. “As sessões da tarde começam agora. Quem fez treinamento de combate de manhã vai passar para o treino mágico. Vamos rotacionar conforme suas afinidades.”
Todos rapidamente se organizaram.
Daemar prosseguiu. “Hoje serão exercícios individuais. Quero ver quanto vocês retiveram, a eficiência dos seus feitiços e como se adaptam ao fluxo de mana em mudança.”
Ele olhou direto para Noel. “Você. Fica mais um instante atrás.”
Noel avançou sem hesitar. Sentiu Elyra e Elena olharem para ele, mas não reagiu.
Os olhos de Daemar se estreitaram. “Nicolas me informou antes de sair que eu deveria te orientar pessoalmente na magia de relâmpagos. É isso?”
“Sim,” respondeu Noel. “Ele falou disso antes de partir.”
“Ótimo. Veremos como você se sai. Não sou um professor fácil, e não vou diminuir o ritmo só porque você prometeu.”
“Não quero que seja de outro jeito,” respondeu Noel com firmeza.
Daemar assentiu. “Então se prepare. Isso não vai ser como os feitiços de fogo e gelo que você costuma usar.”
Enquanto Noel se juntava aos demais no início da aula, ele respirou fundo e focou.