
Capítulo 188
O Extra é um Gênio!?
A seção da taverna do Martelo Bêbado fervia com uma quieta tensão. Uma mesa redonda de madeira no canto recebia cinco jogadores — quatro forasteiros encapuzados, com gotas de suor na testa, e um anão sorriso de canto, casualmente girando uma caneca de prata com cerveja temperada.
Balthor.
Noel apoiou-se a uma coluna de pedra polida perto da entrada, com os braços cruzados, observando o jogo se desenrolar. O brilho de sigilos mágicos dançava no ar entre os jogadores, iluminando um conjunto flutuante de cartas rúnicas. O jogo era o mesmo de antes, pôquer mágico.
Um dos forasteiros pronunciou uma expressão de raiva ao perceber que seu mana escorria e suas cartas se transformaram em cinzas. Outro bateu na mesa e rosnou de raiva. Balthor, por sua vez, ria alto.
"Senhores, senhores," disse o anão, recolhendo uma pequena pilha de fichas de ouro brilhantes. "Vocês jogam como fazendeiros que acabaram de tocar mana pela primeira vez."
Noel levantou uma sobrancelha e caminhou em direção à mesa. "Deveriam ser mais gentis com os novatos. Assim vão assustar metade dos clientes."
Balthor virou a cabeça e, ao ver Noel, seu sorriso se alargou. "Heh. Você pode estar certo, garoto. Pode estar certo."
Porém, um dos jogadores, um homem corpulento de dentes irregulares e olhos estreitos, levantou-se com uma carranca. "Que diabo você tá dizendo, garoto? Essa mesa não é sua."
Antes que Noel pudesse responder, Balthor bateu com força na caneca, surpreendendo todos. Uma onda de mana se espalhou, silenciando o local por um breve momento.
"Sente-se, Orem," falou o anão, com um tom pesado e definitivo. "Ele não é só algum garotinho. É um convidado especial. Isso quer dizer que você tem que respeitar — ou eu te tiro daqui."
O homem bufou e foi se sentar lentamente, evitando o olhar de Noel.
Noel não disse nada, apenas sorriu de leve. Gostou de como Balthor rapidamente colocou o homem no seu lugar.
As últimas jogadas foram rápidas. Um a um, os desafiante restantes foldaram, com o mana esgotado e as faces pálidas. Balthor terminou sua bebida de um só gole, levantou-se e ajustou o avental.
"Bom, rapazes, como sempre, um prazer," disse com uma reverência zombeteira. "Vocês podem tentar de novo semana que vem… depois que suas carteiras se recuperarem."
Virou-se para Noel e sorriu de canto. "Agora, acho que temos um acordo, não é mesmo?"
Balthor levou Noel até o fundo da taverna, empurrando uma porta escondida atrás de uma pilha de barris vazios. Entraram em um corredor estreito que logo se abriu para uma câmara espaçosa, de iluminação fraca: o verdadeiro Martelo Bêbado.
Estantes transbordavam de tralhas, orbes brilhantes flutuavam preguiçosamente no ar, rolos estavam empilhados em cada canto, e várias armas penduravam em paredes reforçadas. O cheiro de ferro, óleo e poeira de mana impregnava o ambiente.
"Isso nunca muda," murmurou Noel, contemplando a loucura organizada da loja.
Balthor riu e seguiu até o balcão principal. "Vamos ver o que você trouxe, garoto."
Noel saiu sua bolsa dimensional e colocou duas presas afiadas e irregulares sobre o balcão. O ar frio ao redor delas intensificou-se assim que tocaram a madeira — restos da aura natural da criatura.
"Presas de dragão-voo do gelo, filhote," falou casualmente Noel.
Os olhos de Balthor se arregalaram. "Pelo Forjão… Você realmente trouxe elas."
"Falei que ia trazer," respondeu Noel. "Embora tenha tido alguma ajuda."
"Bem, essas valem muito mais do que as bombas de sono que te dei," admitiu Balthor, examinando as presas de perto. "Estrutura forte, densidade boa e imbuídas com propriedades elementais naturais. Gostei."
"Então… posso escolher algo da loja?"
Balthor passou a mão na barba. "Você ganha um crédito — de 100 ouro."
"Tch. Pirralho pão dura. Sabe que isso vale pelo menos o triplo."
"Beleza, 150. Mas não abuse, garoto."
"Mais justo assim."
Balthor sorriu. "Vou levar essas ao ferreiro e fazer uma análise adequada. Você dá uma olhada por aí — vê se algo chama sua atenção."
Com isso, o anão desapareceu pela porta de metal atrás do balcão.
Noel se virou para encarar a loja caótica. "Certo… vamos encontrar algo que ajude a derrubar um maldito Pilar."
Noel avançou lentamente pelos corredores do verdadeiro Martelo Bêbado, olhos atentos ao passar por estantes cheias de armas, poções e aberrações mágicas. O ar tinha cheiro de óleo, poeira e uma discreta ozonização — artefatos imbuidos de mana zumbiam suavemente ao seu redor.
Ele não buscava força bruta.
O Quinto Pilar não era um lutador. Não precisava ser. Era do tipo que deixava outros lutarem por ele — manipulador, estrategista, cobra. Alguém assim nunca enfrentaria Noel de frente. Ele armaria armadilhas. Usaria os outros. Talvez até esperasse escondido com algo mais traiçoeiro.
O que Noel precisava era de uma vantagem — algo raro, tático.
Ele passou por lâminas encantadas e anéis mágicos, um par de botas rotuladas "Velocidade III — Explode após 1 hora", e uma caveira de cristal selada irradiando energia sombria. Nada parecia certo.
Seus olhos percorriam o labirinto caótico de engenhocas mágicas, trinkets encantados e velhos tomos. A iluminação era desigual, oscilando entre tons quentes e faíscas repentinas — provavelmente pra desencorajar ladrões. Passou por racks de botas encantadas, bombas de fumaça, rolos selados em cera e até uma forma de tótem-mímico engasgado, em silêncio.
Mas então, algo atraiu sua atenção.
Não fisicamente — mas uma força, um peso no ar. Sutil, mas preciso.
Noel se virou e percebeu: um objeto compacto, elegante, envolto em veludo vermelho escuro, dentro de uma vitrine rachada.
Era uma braçadeira metálica, toda preta, com um núcleo roxo profundo embutido no centro. Algo nela gritava perigo, mas também… confiabilidade.
Ele estendeu a mão.
Quando seus dedos tocaram o vidro, o sistema acendeu:
[Item Identificado]
Nome: Bobina do Presságio
Tipo: Artefato – Acessório
Nível: Raro
Descrição: Relíquia forjada para proteger contra interferências mentais e melhorar reflexos cognitivos. Originalmente usada por assassinos e negociantes de informações.
Habilidade: Laço Mental — Concede resistência a controle mental, ilusões e magias de medo.
A expressão de Noel se aguçou.
"Isso… isso pode ser o que eu preciso."
Não era um item para sobrepujar um inimigo com força bruta. Não. Era sutil. Inteligente.
Perfeito para alguém como o irmão mais novo de Balthor — do tipo que não lutava, mas controlava situações com influência, truques e manipulação.
Uma defesa contra manipulação — e uma arma de timing calculado.
Noel fechou a mão com força.
"Exatamente o que eu preciso."
Olhou para a porta da sala de ferreiro. "Vamos torcer para que não ultrapasse muito o orçamento…"
Balthor voltou da forja, enxugando o rosto com um pano manchado de fuligem. Em uma mão, segurava um esboço grosso das medições das presas de dragão-voo, e na outra, uma caneca com cheiro fortíssimo.
"Então," resmungou, observando Noel, "encontrou alguma coisa?"
Noel apontou para a braçadeira preta dentro da vitrine empoeirada.
"Aquele ali."
Balthor piscou, seguido de um assobio baixo.
"Que diabo esse troço tá fazendo aqui...? Pensei que tivesse vendido há anos."
Ele se aproximou, abriu a vitrine e pegou a Bobina do Presságio, mexendo nela entre os dedos com expressão visivelmente confusa.
"Você tem certeza? Não explode, não brilha, não grita ‘Sou poderoso’ como aqueles garotos exibidos gostam. Parece que está escolhendo uma adaga enferrujada numa sala cheia de espadas."
"Tenho sim," respondeu Noel. "Não é uma questão de parecer forte. É estar preparado."
Balthor o olhou longamente com atenção... e, então, deu de ombros.
"Beleza. Você é esquisito, mas inteligente. Então leva. Vou marcar por 90 ouro." Jogou a coil para Noel, que a pegou no ar. "Ainda tenho algum orçamento. Escolha outro trinket antes que eu mude de ideia."
Noel passou os olhos ao redor mais uma vez, mas nada lhe chamou atenção. Até que —
Ele percebeu algo atrás de uma estante bagunçada: um par de brincos rosa clarinho, em forma de delicadas florzinhas, brilhando suavemente. Não era exatamente seu estilo. Mas lembrou alguém.
Pegou-os.
[Item Identificado]
Nome: Cantelizes do Silêncio
Tipo: Acessório — Brincos
Nível: Incomum
Descrição: Feitos como presentes cerimoniais, melhoram a agilidade e resistência básicas da usuário em uma pequena porcentagem. Popular entre curandeiros e magos de apoio para treinamento.
Noel sorriu de leve.
'Provavelmente ela vai reclamar… mas mesmo assim.'
Pensou no cabelo rosa suave de Charlotte, na maneira como ela resmungava sempre que ele a incomodava — e como fora ela quem o guidou pela Capital Santa.
'Acho que ela nunca ganhou presente de um amigo. Vou dar para ela durante o passeio pela cidade. É o mínimo que posso fazer… depois de usar ela como desculpa minha.'
Fez um gesto para Balthor.
"Vou levar esses também."
Balthor sorriu largo.
"Ficando sentimental comigo, garoto?"
"De jeito nenhum. Só sendo prático."