O Extra é um Gênio!?

Capítulo 189

O Extra é um Gênio!?

A sala dos fundos do Martelo Embriagado estava tão caótica quanto sempre. Estantes transbordavam de ferramentas, utensílios encantados e sucata empilhada como relíquias antigas esperando para renascer. Noel encostou-se ao lado do balcão, ainda segurando a pequena caixa com os brincos cor de rosa.

Balthor, polindo um anel de prata atrás do balcão, lançou um olhar de relance.

"Então," disse, com uma voz brincalhona. "O presente é para a garota da última vez? A séria, com olhos como âmbar?"

Noel levantou uma sobrancelha. "Elena? Não. É para… outra amiga. Me ajudou bastante recentemente. Achei que era hora de retribuir de verdade."

Balthor deu uma risada profunda e calorosa. "Você é um bom rapaz, sabia?" Ele levantou os brincos para inspecioná-los, depois colocou de lado. "A maioria dos meninos da sua idade estão ocupados demais atrás de glória ou dinheiro. Você? Está aqui comprando joias para as garotas que ajudaram você."

Noel não respondeu imediatamente. Manteve o olhar fixo nas paredes cheias de tralha da loja. Tantas coisas aconteceram nos últimos meses — parecia surreal estar aqui de novo.

Mas agora, sentia um peso no peito. Algo que precisava dizer.

Noel virou-se novamente para Balthor, mais sério agora.

"Balthor… posso te perguntar uma coisa? É uma questão pessoal."

O anão olhou para cima, com um lampejo de curiosidade nos olhos. "Claro, garoto. Pode perguntar."

A voz de Noel foi baixa. "Você já teve um irmão?"

Com a pergunta de Noel, o clima mudou. A centelha habitual nos olhos de Balthor escureceu, como uma vela apagada por uma brisa gelada.

Ele recostou-se na banqueta, com os dedos distraidamente tocando a borda da caneca.

"Ah… então é isso," murmurou Balthor. "Problemas com seus próprios irmãos, é? Procurando alguma sabedoria ancestral dos anões?"

Noel deu uma leve encolhida de ombros. "Pode-se dizer isso. Eles… mudaram recentemente. Não sei mais como agir ao redor deles."

Balthor soltou uma risada seca, embora não houvesse humor na voz.

"Bom, eu tinha um irmão. Mais novo. Torwan, esse era o nome dele." Sua voz diminuiu um tom, carregada de emoção antiga. "Ele era astuto. Inteligente o bastante para enganar um nobre e pegar sua fortuna, saindo com uma carta de agradecimento. Corajoso também, embora preferisse conversar do que lutar."

Noel ouviu em silêncio.

Balthor continuou, "Ele ia herdar a forja comigo. Queria transformar a ferraria da família em algo maior — algo moderno. Mas aí veio a última guerra." Ele fez uma pausa, os olhos fixos no longe. "Ele foi para as linhas de frente, disse que não podíamos ficar de braços cruzados enquanto o mundo queimava. Eu não concordei, mas ele foi mesmo assim."

Um silêncio longo.

"Ele morreu lá fora," disse Balthor simplesmente. "Ou foi o que nos disseram. Nunca encontramos o corpo. Apenas um capacete… e sua velha botija."

Noel abaixou o rosto. "Desculpe. Não quis trouxe isso à tona."

Balthor balançou a cabeça. "Tudo bem, garoto. Algumas histórias valem a pena ser lembradas, mesmo que doam."

O silêncio se prolongou.

Noel respirou fundo, depois falou com convicção tranquila.

"Ele está vivo, Balthor."

O anão não respondeu imediatamente. Seus olhos mudaram para Noel, agora estreitos e cautelosos.

"Noel… isso não é algo que se brinca por drama."

"Eu sei. Mas eu o vi com meus próprios olhos."

'Bem, na verdade, não exatamente, mas vale quando tenho a informação certinha dele, né?'

Balthor ergueu uma sobrancelha, sem se convencer.

"Ele é do seu tamanho," tentou continuar Noel, "cabelos vermelhos fogo, barba longa vermelha. E uma tatuagem — no ombro esquerdo. Um barril de cerveja e uma martelada de ferreiro."

Isso fez Balthor piscar. Sua expressão escureceu levemente.

"Muitos anões têm esse tipo de tatuagem."

"Não esse," disse Noel. "Era feita sob medida. Um par de tatuagens iguais, né? Uma para cada irmão. O barril era símbolo do Torwan, e o martelo era seu. Você usava o seu no ombro direito. Ele tinha o dele no esquerdo."

Agora Balthor congelou.

"…Isso não é de conhecimento público."

"Acho que sim."

O anão recostou-se, sua alegria agora completamente sumida.

"E você está dizendo que ele está vivo. Que fingiu a própria morte todos esses anos."

"Ele não fingiu," respondeu Noel. "Ele simplesmente sobreviveu. E agora tá trabalhando para alguém — alguém perigoso. Não porque seja mau, mas… perdido em algo maior."

Balthor soltou uma respiração como pedras, sardonicamente. "Então você me diz que meu irmãozinho está vivo… e envolvido nessa loucura toda que anda acontecendo nos bastidores?"

Noel assentiu. "Ele é inteligente. Mais inteligente que a maioria das pessoas que já conheci. Por isso, preciso da sua ajuda. Encontrá-lo não vai ser fácil."

Balthor se virou sem falar nada, pegou uma pequena botija atrás do balcão e quebrou a tampinha. Não ofereceu nenhum para Noel. Apenas bebeu, devagar e silencioso.

Depois de um momento, falou através da barba.

"E como posso saber que isso não é uma piada doentia?"

Os olhos de Noel se estreitaram. Seu tom foi claro, calmo, firme.

"Se eu quisesse algo de você, não mencionaria o Torwan. Diria que tenho uma pista, pediria pagamento. Mas não fiz isso. Só contei o que sei — de graça."

Ele fez uma pausa.

"Porque quero evitar o que está por vir. Antes que seja tarde demais."

Balthor permaneceu quieto, segurando a botija meio cheia no ombro. Seus olhos estavam perdidos na luz tênue das lanternas flutuantes da loja, e por um bom tempo, ele não falou uma palavra.

Então, numa voz baixa e rústica, murmurou:

"Entrei com minhas próprias mãos naquele idiota. Ou pelo menos… achei que tinha enterrado. Fechei seu caixão, lamentei com o nosso clã. Queimei as velhas bandeiras de guerra e bebi até passar mal por três dias seguidos."

Noel não interrompeu.

"Torwan era o cérebro entre nós dois," continuou Balthor. "Sempre cinco passos à frente. Sempre tinha um truque na manga. Se alguém pudesse enganar a morte, acho que seria ele."

Ele limpou a boca com as costas da mão, depois olhou para Noel.

"Tem certeza de que é ele?"

"Tenho quase certeza," respondeu Noel.

Noel deu um passo à frente.

"Olha… não estou pedindo que lute contra ele. Isso é comigo. Mas preciso da sua ajuda para encontrá-lo. Ele é inteligente, como você falou. E tem gente perigosa ao redor dele."

Balthor estreitou os olhos. "Um tipo de perigo que faz reinos sangrarem?"

Noel deu um meio sorriso. "Quase isso. Por isso, quero toda a vantagem possível."

Balthor se inclinou para frente, com os braços apoiados no balcão.

"Vou ajudar você a encontrá-lo. E se ele realmente caiu na loucura… aí decido o que fazer com ele. Eu mesmo."

"É só isso que estou pedindo."

Eles ficaram olhando um para o outro por um longo momento. Então, pela primeira vez na conversa, Balthor sorriu.

"Você tem coragem, garoto. Me lembra alguém que eu costumava conhecer."

Noel levantou uma sobrancelha. "Deixe-me adivinhar. Você?"

"Não," disse Balthor, batendo na botija. "Torwan."

Noel saiu do Martelo Embriagado com ambos os objetos guardados na bolsa dimensional — a relíquia esculpida com o traço desconhecido e os simples brincos cor de rosa. O ar lá fora ainda estava quente, o sol se tinha posto, mas o calor do dia permanecia nas pedras da rua. A cidade de Valon viva, vibrando com energia, risos e conversas nos tavernas e comércios.

Ele ajustou levemente a capa enquanto seguia pelo caminho principal de volta à Academia. Noir não estava com ele desta vez — tinha deixado ela descansando confortavelmente no quarto, deitada na lajota encantada próxima à janela.

'Vou entregar os brincos para Charlotte quando mostrar a cidade… isso é o mínimo que posso fazer depois de usar ela como desculpa.'

Seus passos eram leves, a mente divagando entre memórias e estratégias. Mas então, ele parou.

Havia uma tensão no ar — algo que não combinava com o tom da noite. Ele percebeu primeiro: uma voz aguda, cheia de raiva, seguida por outra mais assustadora. Depois, silêncio. E então um grito abafado.

Noel virou a cabeça em direção a um beco estreito que se ramificava da rua principal. As sombras entre os prédios pareciam maiores do que deviam. Curioso—and alerto—ele se aproximou silenciosamente.

Lá estavam eles.

Dois homens assumiam uma postura ameaçadora, encurralando uma jovem mulher de costas contra a parede. Ela segurava algo contra o peito — talvez uma bolsa ou uma sacola — e tremia. Um dos homens estendeu a mão em direção a ela enquanto o outro sussurrava algo, mas Noel não conseguiu ouvir as palavras.

Ele estreitou os olhos.

'Sério? Bem aqui no meio de Valon?'

Respirou fundo, fazendo barulho suficiente para que eles ouvissem seus passos enquanto se aproximava pelo lado.

Os homens pararam e viraram levemente a cabeça.

A voz de Noel foi calma, mas fria.

"Tem algum problema aqui?"

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