O Extra é um Gênio!?

Capítulo 182

O Extra é um Gênio!?

As ruas de Valon estavam tranquilas, iluminadas pelo dourado briefando do início da tarde. As lojas estavam vivas, com os sons de conversascasuais, e o aroma de carne grelhada impregnava o ar quente do verão.

Noel e Selene caminhavam lado a lado, mantendo um ritmo constante. O silêncio entre eles não era estranho—apenas natural. Ainda assim, foi Selene quem quebrou o silêncio primeiro.

“…Você está andando mais devagar do que eu esperava.”

Noel a olhou, um pouco surpreso por ela ter iniciado uma conversa. "Talvez esteja apenas curtindo o sol."

Selene olhou para a frente. "Muito quente."

Noel sorriu de leve. "Não achei que alguém que manipula gravidade e gelo se importasse com o calor."

"…Eu não me importo. É só irritante."

'Faz sentido vindo de onde ela é.'

Eles dobraram uma esquina para uma rua mais tranquila perto do mercado oeste, e Selene parou em frente a um prédio modesto com uma placa de madeira polida: A Grelha da Brasa. Pela janela de cristal limpinho, podia-se ver o interior acolhedor—mesas de carvalho, cadeiras de couro e pequenas lanternas mágicas pairando suavemente acima de cada mesa.

Selene abriu a porta e entrou sem hesitar. Noel a seguiu.

Dentro, o ar era mais fresco, e o som de carne assando e conversas suaves se misturava ao fundo. O lugar era limpo, bem iluminado e claramente frequentado por quem tinha dinheiro razoável.

Selene parou por um momento antes de escolher uma mesa no canto perto da janela. Noel se acomodou na cadeira em frente a ela.

"Você já veio aqui antes?" ele perguntou, levantando uma sobrancelha.

Selene balançou a cabeça uma vez. "Não. Nunca tive dinheiro suficiente."

Seu tom era simples.

"Mas agora tenho," ela acrescentou enquanto pegava o cardápio. "Então quero algo bom."

Noel recostou-se, observando-a folhear as páginas com atenção concentrada.

'Ela realmente não esconde suas prioridades. Bastante refrescante, honestamente.'

"Tem certeza de que quer gastar tudo com comida?" ele perguntou de forma casual.

Selene não ergueu o rosto. "Sim."

A garçonete apareceu—a jovem com cabelo castanho-avermelhado preso em um coque, usando um avental marrom escuro. Ela sorriu educadamente, os olhos passando brevemente entre Selene e Noel.

"Prontos para pedir?"

Selene não hesitou.

"Costelas grelhadas. Porção dupla. Tiras de bife apimentadas. Coxas de frango assadas. Uma tigela de arroz temperado. Legumes grelhados. E… uma porção de pão com manteiga."

A garçonete piscou, surpresa. "…Tudo isso pra você?"

Selene encarou-a sem piscar. "Sim. Vou acabar com tudo."

"…Claro." A garçonete anotou rapidamente e virou-se para Noel.

Ele refez sua escolha no cardápio e entregou-o novamente. "Só um sanduíche de porco. E um café com suco."

A garçonete olhou para cima. "Juntos?"

"Sim," respondeu Noel, balançando a cabeça de forma casual.

Enquanto ela se afastava, ele recostou na cadeira e murmurou para si próprio,

'Segunda vez… será que é tão estranho assim? Lereus realmente teve efeito em mim.'

Selene ficou quieta por um tempo, com os olhos fixos na janela. Então, sem se virar para ele, falou suavemente.

"…Você nunca perguntou sobre aquele dia."

Noel a olhou calmamente. "Não achei que fosse necessário."

Outra breve pausa. Seus dedos brincavam levemente na borda da mesa.

"…Obrigada," ela disse.

"Por quê?"

"Por não ter dito nada. Sobre o que você viu. A maior parte das pessoas diria algo."

Noel deu uma curta sacudida de cabeça. "Você não parecia querer falar sobre isso. Isso já foi suficiente para mim."

Selene finalmente o encarou—apenas por um instante. Seu rosto era neutro, mas sua voz estava mais baixa que o normal.

"Ainda assim… obrigada."

Noel recostou-se e olhou para a janela.

"Não há de quê."

A comida não demorou a chegar. Uma dupla de garçons saiu com bandejas, um deles visivelmente lutando sob o peso do pedido enorme que Selene tinha feito.

Prato após prato foi colocado na mesa na frente dela. Costelas grelhadas com um glaze dourado. Tiras de bife suculentas, ainda faiscando. Coxas de frango assadas na perfeição. Uma tigela generosa de arroz temperado. Legumes com manteiga, vaporizando em uma travessa separada. E finalmente, uma cesta de pão quente.

Selene pegou seu garfo sem hesitar.

Noel observou enquanto ela mordia uma costela, silenciosa, mas claramente gostando. Ela não era uma comedora barulhenta—apenas metódica, concentrada.

"…Você não estava brincando mesmo," ele murmurou, olhando para a pilha crescente de pratos vazios de experiências anteriores.

Selene engoliu e falou enquanto pegava outro pedaço.

"É uma das poucas coisas que consigo aproveitar completamente, sem precisar pensar."

Noel bebeu um pouco de sua xícara.

"Uma boa comida é um motivo razoável para relaxar."

Outro pedaço. Então:

"Conversei com ela."

Ele levantou o olhar. "Sua mãe?"

Selene assentiu, ainda mastigando.

Noel esperou. Não pressionou. Eventualmente, ela continuou.

"Depois que você me disse que eu devia... Eu fui. Foi difícil. Mas escutei."

Seus olhos não saíam do prato, mas sua voz ficou mais baixa.

"Ela não pediu perdão. Só... disse que quer tentar novamente. Devagar."

Noel se inclinou à frente, com os cotovelos apoiados na mesa. "E o que você quer?"

Selene fez uma pausa.

"Ainda não sei."

Ela deixou os utensílios por um momento e recostou-se na cadeira.

"Ela me machucou. Por anos. Mas ouvir ela admitir isso, ver ela tentando—faz ficar mais difícil odiá-la como antes."

Seu tom não mudou, mas o peso em suas palavras ficou evidente.

"Eu não confio nela. Ainda que parcialmente. Mas talvez um dia."

Noel assentiu lentamente.

"Acho que é um bom primeiro passo."

Selene olhou para ele novamente, por um pouco mais de tempo desta vez. Então pegou outra costela.

"…Quem sabe."

Selene continuou comendo, agora na parte de coxas de frango assadas. Apesar da quantidade de comida, seu ritmo nunca diminuiu—preciso e eficiente, como tudo o que fazia. Noel simplesmente observava em silêncio, saboreando o último gole de sua bebida.

Eventualmente, ela falou novamente, com um tom mais baixo.

"Quando eu era mais jovem… as refeições eram limitadas."

Noel a olhou, sem dizer nada.

"Minha mãe controlava tudo. As porções. Os horários. As calorias. Ela chamava de disciplina. Disseram que ia me ajudar a me tornar alguém 'digna' do nosso nome."

Seus olhos cianos e se voltaram para a janela. O sol da tarde iluminou a ponta do seu cabelo azul curto, agora um pouco bagunçado pela caminhada.

"Nunca senti que fosse disciplina. Era mais como uma punição."

Noel se inclinou um pouco para frente, apoiando os antebraços na mesa. "E agora?"

Selene olhou para o prato.

"Agora eu como o que quero. Não é fome. É sobre escolher algo por mim mesma."

Não havia emoção em sua voz, como de costume. Mas, desta vez, não soava vazia—soava firme.

"Não luto por vingança. Ou orgulho da família. Luto porque quero ser mais forte. Para que ninguém mais controle minha vida de novo."

Os olhos de Noel se estreitaram levemente, não por julgamento—mas porque ele compreendia.

"…Você já está indo bem nisso."

Selene não respondeu imediatamente. Então:

"…Ainda não sei exatamente o que quero. Mas toda vez que como assim… lembro que sobrevivi a ela."

Noel assentiu.

"Isso já é motivo suficiente."

Selene terminou a última mordida de pão e colocou o garfo com precisão. A mesa estava cheia de pratos vazios—empilhados de forma ordenada, limpos. Noel já tinha acabado de comer há um tempo e ficava observando silenciosamente, com os braços cruzados.

Ela se recostou um pouco, seu olhar ciano indiferente.

"…Foi bom."

Noel deu um meio sorriso. "Você não deixou muita coisa para avaliar."

Selene olhou para a janela. "Não era pra isso mesmo."

A garçonete voltou, recolhendo os pratos e colocando a conta na mesa. Selene pegou-a imediatamente, deslizando algumas notas dobradas por cima.

"Você tem certeza?" Noel perguntou, mais por cortesia do que por outra coisa.

"Convidei você."

Justo. Noel levantou as mãos em sinal de rendição.

Ao saírem, a brisa suave do começo da noite tocou-os. Selene ajustou levemente o uniforme, mas seguiu andando num ritmo firme.

"…Obrigada," ela disse, em tom baixo.

Noel olhou para ela por um instante, um pouco surpreso. "Por quê?"

"Por não ser chata."

Ele piscou. "Vou tomar isso como um elogio."

Ela não respondeu. Simplesmente continuou caminhando ao lado dele, com aquela sua silêncio sempre impecável.

'Até ela…' Noel pensou, olhando de lado, 'muda um pouco quando você dá espaço a ela.'

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