
Capítulo 173
O Extra é um Gênio!?
Noel recostou-se contra a parede, com os braços descansando frouxamente nos joelhos. Sua voz estava calma, mas algo por trás dela tremia — como um fio puxado na ponta demais.
"Eu já desconfiava de algo errado," disse. "Desde o momento em que entrei na Capital Sagrada, o ar parecia… estranho. Como se o lugar fosse demasiado limpo por fora."
Elena e Elyra escutaram em silêncio, com os olhos fixos nele.
"E então Charlotte realizou aquela bênção enorme," continuou. "Purificou os lagos e rios ao redor de Estermont para impedir a propagação da doença. Funciono. Mas deixou ela completamente exausta. Foi aí que soube que algo ia acontecer."
Ele fez uma pausa, os olhos se estreitando um pouco.
"Ela estava no seu ponto mais fraco… e eles sabiam disso."
Aquele pensamento ainda fazia seu estômago torcer.
"Então comecei a investigar. Passaram-se dias. Uma semana. Duas. Fiz perguntas. Chequei registros. Tentei detectar padrões no comportamento, na maneira como as pessoas se moviam ou evitavam certos corredores." Ele balançou a cabeça. "Nada. Não consegui provar nada."
Ele olhou para o chão por um instante.
"No final… tudo o que tinha era uma sensação visceral."
Depois, ele lançou um olhar para a sombra ao longo da parede, onde algo pulsava levemente por dentro.
"E Noir. Ela foi quem sentiu isso primeiro, antes de qualquer outra pessoa."
Os olhos de Noel não se levantaram do chão.
"Não havia magia sangrenta. Nenhum ritual grandioso. Apenas… experimentos. Escondidos sob caridade e oração."
Ele fez uma pausa.
"Eles estavam usando os órfãos. Testando coisas. Empurrando os corpos ao limite, fundindo partes que nunca deveriam ser unidas. Foi cruel."
Sua voz ficara mais apagada — emoção escondida sob o controle.
"Havia uma criança," acrescentou. "Erick. Vi nele a minha própria imagem. Era inteligente. Corajoso. E tinha um medo doido."
Ele fechou as mãos. "Tentei protegê-lo. Queria chegar lá a tempo."
Outra pausa.
"Não consegui."
As palavras caíram no ar como uma pedra solta na água parada.
Elena desviou o olhar. Elyra mantinha os lábios apertados.
O tom de Noel diminuiu. "Mesmo que Charlotte esteja segura agora… ainda sinto que não fiz o suficiente."
Elyra finalmente falou, a voz suave, mas firme. "Noel… às vezes você esquece que não está sozinho. Existem pessoas dispostas a ajudar. Pessoas que se importam. E você nem é maior de idade ainda. Ainda tem um ano pela frente."
Elena assentiu. "Ela está certa. Já te dissemos antes — você não precisa carregar tudo sozinho."
Noel olhou para elas duas.
"Eu sei. Quero confiar nos outros… Quero. Mas tenho medo. E se eu colocar as pessoas que amo em perigo só por deixá-las perto demais?"
Elyra inclinou-se para frente. "E você acha que a gente gosta de te ver em perigo, fingindo que está tudo bem? Você tenta agir como se estivesse desligado, mas sabemos quem você é. Você se importa. Mesmo que não mostre."
Aquietação que seguiu foi mais suave agora.
Depois, Elyra inclinou a cabeça um pouco. "Aliás… onde está a Noir?"
Noel lançou um olhar para o canto da sala, onde as sombras dobravam, estranho, ao redor dos seus pés.
"Ela está descansando," disse ele. "Desde a luta… não saiu da minha sombra."
Os olhos de Elyra se arregalaram um pouco. "Descansando? Ela está assim o tempo todo?"
Noel assentiu. "Sim. Ela está se recuperando. E… cresceu. Bastante."
"Cresceu?" Elyra repetiu.
Elena, curiosa, olhou entre eles. "Espere — quem é Noir?"
Noel virou-se para ela. "É minha familiar. Nasceu de um ovo estranho que encontrei há meses. Somos ligados. Ela… é única."
Elena piscou, os olhos se arregalando um pouco. "Espere… foi isso que saiu do ovo?"
Noel confirmou com a cabeça. "Sim."
Elena olhou para baixo por um momento, depois de volta para ele. "Na época, não perguntei… você ainda estava se recuperando na enfermaria da academia, e eu não quis forçar."
A expressão de Noel suavizou. "Obrigado. Lembro sim."
Elyra sorriu levemente. "Bem… ela é mais forte do que parece."
Noel devolveu o sorriso, só um pouco. "Ela sempre foi."
O silêncio permaneceu.
Noel ficou quieto por um instante, os olhos fixos na luz da vela que dançava pelas paredes de madeira.
'Devo contar para eles? Deve ser isso — que o Noel original morreu? Que sou alguém completamente diferente?'
Ele olhou para Elena, depois para Elyra.
'Se eles soubessem… talvez fosse mais fácil. Talvez pudessem me ajudar sem questionar como eu sei tanto. Por que sempre estou no lugar certo, quando tudo acontece.'
Sua garganta apertou.
'Mas como explicar algo assim? Que você leu esse mundo como se fosse uma ficção? Que já viveu isso antes?'
Ele fechou os olhos brevemente.
'Marcus também participou de todos esses incidentes, afinal. Talvez eu não seja tão deslocado quanto acho.'
Noel olhou para cima e respirou fundo.
"Escutem com atenção. O que vou dizer pode parecer estranho… mas é a verdade."
Ele tentou.
"Como podem ver, mudei bastante no último ano… e isso aconteceu por causa de dgnfbdbf sddSVbdds ethnbefrbg."
Elyra franziu a testa. "O que você disse? Que mudou?"
"Hã? Você não escutou? Não me importa repetir. Meu modo de pensar mudou completamente por causa de dgnfbdbf sddSVbdds ethnbefrbg."
Elena o olhou, confusa. "Noel, não conseguimos entender você."
"Sei que você me mandou não perguntar sobre línguas estranhas um tempo atrás," disse Elyra, cruzando os braços, "mas sério, eu só falo comum. E aquilo não era comum."
'O que está acontecendo?'
Noel ficou quieto, depois desviou o olhar.
"…Não é nada. O que quero dizer é que algo inside de mim clicou. Não quero mais ser a mesma pessoa. É só isso."
Elena sorriu suavemente. "Ah. Entendi. É, dá pra ver."
O ambiente ficou tranquilo, uma calmaria passageira, como se tudo tivesse sido dito.
Então, sem aviso, um leve brilho de luz apareceu na frente de Noel — silencioso, repentino.
Uma mensagem surgiu no ar, clara como cristal.
[Notificação do Sistema]
Nãoel, Noel, você não pode fazer isso. Existem regras que precisam ser seguidas. Algumas leis básicas não podem ser quebradas como você tentou agora.
Um dia, você encontrará as respostas que busca. Mas primeiro… continue com as missões. Boa sorte!
Noel ficou olhando, a respiração presa na garganta.
'Isso é novo… Esse tom. Não parecia algo automatizado — parecia que alguém escreveu. Alguém… real.'
Elyra se levantou, casualmente, passando a mão na saia.
"Bem, acho melhor deixá-lo descansar. Se precisar de alguma coisa, ainda tem aquela campainha do outro dia, não é?"
"Sim," disse Noel. "Se eu tocar aqui, ela toca do outro lado. Entendido. Obrigado… por escutar. Agora me sinto um pouco melhor."
Elyra sorriu. Sem hesitar, ela se inclinou, deu um beijo suave na bochecha dele.
"Não esqueça de usar se precisar de alguma coisa."
Elena assistiu ao gesto, visivelmente envergonhada. Seus olhos trocaram olhares por um instante, antes de dar um passo à frente e, hesitante por um momento, envolver Noel em um abraço breve e gentil.
Ela se afastou rapidamente, as bochechas coradas. "Obrigado por confiar na gente. Até mais, Noel."
A porta se fechou atrás deles, deixando Noel sozinho, com apenas a sombra distante do navio e o suave zumbido de pensamentos em sua cabeça.
A cabine agora estava silenciosa.
Noel ficou parado um instante, olhando para o ponto onde a mensagem do sistema havia aparecido. Depois, lentamente, deitou-se na cama.
Um leve movimento de sobras veio do chão.
Uma sombra se deslocou — levantando, girando — e de dentro dela emergiu Noir, na forma de filhote. Seu pelo preto brilhante era mais escuro que o próprio cômodo, riscado com traços suaves de violeta. Seus olhos encontraram os dele com um olhar silencioso, sabendo, antes de saltar de leve para a cama e se enroscar ao lado dele.
Ele estendeu a mão e acariciou suavemente suas costas.
"Finalmente saiu, hein," murmurou. "Acho que até você precisava de um tempo."
Noir respondeu apenas com um resmungo silencioso e se encostou mais perto.
Noel olhou para o teto de madeira.
"Parece que isso é só o começo, Noir. Preciso usar tudo que tenho — objetos, habilidades… e as pessoas. Todo mundo que está comigo."
Ele exalou pelo nariz.
"E pensar que isso era apenas o Sexto Pilar. Ainda faltam cinco. Vai ser um caminho longo."
Seus dedos pararam na pelagem dela.
"E agora, tenho certeza… há algo por trás do sistema. Alguém. E por trás das missões também. Vou descobrir com o tempo."
Um breve silêncio se instaurou.
"Tenho trabalho pela frente quando voltarmos. Obrigações do Conselho — embora espero que a Seraphina lembre do nosso acordo de que estou lá só para parecer. Ainda preciso falar com Nicolas. E com Balthor também… ele é fundamental na confusão do Quinto Pilar."
Um som leve de campainha ecoou no ar.
[Notificação do Sistema]
Parabéns. Atuação III completada. Boa sorte na Atuação IV.