
Capítulo 172
O Extra é um Gênio!?
O grupo entrou no convés um por um.
As botas de Noel tocavam a madeira polida e familiar. O navio era exatamente como ele lembrava—esguio, elegante, reforçado com runas mágicas que brilhavam suavemente sob o sol. Uma brisa quente de verão varria o convés, trazendo o aroma de sal, madeira e pinho distante.
Preso ao cinto, sua bolsa dimensional pendia do lado direito. Do lado esquerdo, a Presa do Revenant descansava na bainha, inativa, mas sempre ali.
Perto do mastro principal, estavam Elyra e Elena.
Elyra confirmou o passo à frente, seus olhos cinzentos afiados e diretos. "Vocês estão bem? Ouvi o que aconteceu na Capital Sagrada."
Elena ficou ao seu lado, com os braços cruzados, seu olhar âmbar fixo em Noel. "A notícia chegou ao Valor mais rápido do que eu esperava."
Noel cruzou o olhar com as duas.
"Estamos bem", ele disse. "Bem... quase todos nós."
Sua voz diminuiu um pouco no final. A mudança sutil na expressão—apenas um relâmpago—foi suficiente para que ambas percebessem.
Elyra fez uma expressão de reprovação, mas não insistiu.
Os olhos de Elena ficaram um segundo a mais antes de ela desviar o olhar.
"Precisamos conversar em um lugar mais reservado", disse Noel.
"Concordo", respondeu Elyra.
Por trás dele, Marcus, Clara, Garron, Laziel e Charlotte seguiram em silêncio. Charlotte, com sua Véu Sagrada ainda ativo, manteve a cabeça levemente abaixada, com o cabelo vermelho balançando ao vento.
Eles caminharam juntos em direção aos aposentos privados da embarcação Estermont.
A porta se fechou com um clique suave.
A cabine tinha bastante espaço, com poltronas revestidas de veludo, uma mesa de carvalho entalhada ao centro e janelas que ofereciam vista do mar abaixo do cais entre as árvores. Encantamentos sutis mantinham o ar fresco e agradável, mesmo com o calor de verão lá fora.
Todos encontraram um lugar—uns sentados, outros encostados nas paredes.
Charlotte permaneceu em silêncio, ainda usando o Véu Sagrado, com o cabelo vermelho e os olhos cor de avelã parecendo uma estranha na maior parte do ambiente.
Marcus se inclinou sobre a mesa, com as mãos entrelaçadas. "Tudo bem… vou explicar tudo."
E ele explicou.
Falou de forma clara, mas sem dramatizar: o ataque à Capital Sagrada, a infiltração na igreja, os sacerdotes corrompidos e os experimentos com as crianças. Contou como Noel, Charlotte e o restante impediram os inimigos—e o preço que tiveram que pagar.
A sala ficou em silêncio ao terminar.
"…Uau", murmurou Elyra, com os olhos cinzentos um pouco mais abertos. "Sério, a cada vez que desviamos o olhar, as coisas só pioram."
"Você pode afirmar isso de novo", suspirou Clara ao lado dela.
Elena estreitou os olhos, observando a sala. "Aliás… quem é a garota de cabelo vermelho? Nunca a vimos antes."
Noel olhou para Charlotte. "Ela é a Santa."
Elena piscou surpresa. "Como assim? Eu pensei que a Santa tivesse cabelo rosa e olhos âmbar."
Charlotte virou-se para Noel, com uma expressão brincalhona. "Você acha que eu queria esconder minha identidade?"
Com um movimento suave, ela desativou o Véu Sagrado. Seu cabelo mudou de vermelho para um rosa suave, e seus olhos brilharam na tonalidade natural de âmbar.
Elena abriu a boca, surpresa, mas não disse nada.
Noel calmamente acrescentou: "Você não precisa se preocupar. Essas duas são as pessoas em quem mais confio."
A expressão de Elena não mudou muito, mas uma leve reflexão passou por sua cabeça.
'Então, sou uma das pessoas em quem mais ele confia…'
Elyra levantou-se. "Bom, imagino que todos estejam exaustos. Vou distribuir os quartos. Noel, você fica no mesmo do da última vez."
"Combina", respondeu Noel. "Preciso de um descanso de verdade."
Marcus se espreguiçou. "Sim. Acho que todos nós precisamos. O segundo ano não vai ser fácil."
'Você nem faz ideia do quanto…' pensou Noel. 'Mas pelo menos não estou sozinho desta vez. Farei o possível para evitar que o resto também aconteça.'
O vapor permanecia nas paredes da cabine, dissipando-se lentamente enquanto Noel saía do pequeno banheiro, secando o cabelo com uma toalha jogada sobre os ombros. Estava de camiseta nova, com os botões desabotoados na metade e parecia prestes a cair na cama a qualquer instante.
Até que parou.
Na sala—que já tinha duas pessoas sentadas sem convite—estavam Elyra e Elena.
Noel olhou para elas, com o cabelo ainda úmido, pingando um pouco no chão de madeira.
"…Ok. Isso é novidade", ele disse seco. "Da Elyra até esperava, mas você, Elena?"
Elena ficou vermelha instantaneamente. "Não é o que parece!"
Ela cruzou os braços, tentando de forma fraca esconder o constrangimento. "E o que você quer dizer com 'esperar isso'? A Elyra já fez isso antes?"
Noel coçou o pescoço. "Sinceramente, já seria estranho se ela não tivesse feito."
Elyra, completamente impassível, sorriu de sua cadeira. "Bom saber que suas expectativas finalmente estão se concretizando."
Noel suspirou. "Beleza. O que exatamente vocês duas estão fazendo aqui?"
Elyra relaxou na cadeira, com uma perna cruzada sobre a outra. "E qual é o tom, Noel? Você não fica feliz em ver sua namorada atual?"
Disse com um sorriso fraco—mas seus olhos se voltaram para Elena enquanto falava.
Noel deu uma respiração lenta. "Desculpe. Não foi por isso. É que… estou cansado. Tão mentalmente exausto."
Elyra inclinou a cabeça. "Não se preocupe. Só estava brincando um pouco."
Elena, agora um pouco mais tranquila, assentiu suavemente. "Vimos sua expressão mais cedo. Quando você disse 'quase todos nós'… você parecia diferente. Ficamos preocupadas."
Noel sentou-se na beirada da cama, passando a mão pelo cabelo úmido.
"...Acho que não sou muito bom em esconder como estou por dentro."
Elyra levantou uma sobrancelha. "Ah não, você é muito bom nisso. Mas é diferente quando alguém conhece você."
Noel acenou de leve. "Sim. Entendo."
Por um momento, o silêncio tomou conta, apenas o som do casco do navio rangendo suavemente entre eles.
Elena quebrou o silêncio suavemente. "Então… você vai nos contar sua versão de tudo?"
Noel olhou para cima, encontrando o olhar dela. Não havia cobrança na voz dela—apenas preocupação.
Ele se inclinou um pouco para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
"Provavelmente vocês já ouviram o resumo geral", disse. "Mas foi pior do que parece. Muito pior."
Ele ainda não entrou em detalhes. Mas a fadiga na sua voz transmitia mais do que fatos alguma vez poderiam.
Elena e Elyra esperaram, dando espaço para ele.
Noel olhou para baixo por um momento, depois deu um sorriso meio cansado, mas sincero.
"…É uma história longa."
Elena concordou. "Não estamos com pressa."
Elyra acrescentou suavemente: "Estamos aqui. Isso já basta por enquanto."
Noel se recostou na parede, quase se deixando levar pelo balanço do navio. A luz da lua entrava pela escotilha, iluminando a sala em tons de prata.
"Não estava lá desde o começo", ele revelou baixinho. "Cheguei mais tarde… Tive que participar do casamento da minha irmã."
Elena e Elyra permaneceram em silêncio.
"Quando cheguei à Capital Sagrada, as peças já estavam em movimento. Já planejavam matar a Santa."
Ele fez uma pausa, com os olhos baixos.
"Começamos a investigar—tentando descobrir quem estava por trás, até que ponto tudo tinha se aprofundado. Mas, quando entendemos alguma coisa… já era tarde demais."