
Capítulo 171
O Extra é um Gênio!?
Assim que o grupo terminou suas preparações para partir, um jovem acólito se aproximou de Noel perto dos portões do orfanato.
"Senhor Noel", disse o garoto, inclinado um pouco. "Sua Santidade gostaria de conversar com o senhor, sozinho."
Noel trocou um olhar com Marcus e, então, acenou com um breve gesto. "Certo. Pode conduzir."
O acólito o guiou por um corredor silencioso no complexos da catedral, onde a agitação da manhã não alcançava. Pararam diante de uma porta pesada de madeira. O menino bateu uma vez, depois a abriu e indicou que Noel entrasse.
Dentro, o Papa Orthran estava sentado perto de uma janela iluminada pelo sol, vestido com uma túnica branca modesta, sem um traço de ornamentação. Seu cajado descansava encostado na parede, sem uso.
"Noel", disse com tom suave. "Obrigado por ter vindo."
Noel assentiu. "Você me chamou."
Orthran o observou por um momento, então fez um gesto para que ele se sentasse.
"Há algo que gostaria de lhe pedir… pessoalmente. Não como líder da igreja. Como o guardião dela."
Noel se sentou à sua frente, silencioso.
"Charlotte", continuou Orthran, "é tudo que me resta. Minha única família. Criei ela desde a infância. Cometi muitos erros na minha vida… mas não quero que ela passe pelas mesmas coisas que eu passei."
Sua voz não vacilou, mas suas mãos estavam tensas sobre os joelhos.
"Não posso cuidar dela enquanto estiver na academia. Mas você estará lá."
Noel encontrou seu olhar.
"Estou lhe pedindo para protegê-la. De verdade. Não apenas fisicamente."
Noel assentiu com um único gesto. "Prometo."
Orthran exalou, fechando os olhos por um instante como se um peso tivesse sido retirado de seus ombros.
"Obrigado."
Orthran levantou-se lentamente e se aproximou mais. "Então me permita, ao menos, lhe entregar isto."
Ele levantou a mão e colocou dois dedos delicadamente contra a testa de Noel. Uma luz suave — quase como a luz de uma vela — brilhou por um segundo antes de desaparecer.
Sentiu-se quente. Não poderosa. Não mágica. Apenas… humana.
"Uma bênção", disse Orthran. "Sem encantamentos. Sem efeitos. Apenas um desejo de um velho."
Noel franziu um pouco a testa. "Você não precisava fazer isso."
"Eu sei", respondeu Orthran. "Mas quis fazer."
"Não gosto de pessoas usarem bênçãos em mim", acrescentou Noel.
Orthran riu baixinho. "Agora entendo por que você chamou a atenção da Charlotte."
Noel estreitou os olhos. "O que isso quer dizer?"
Orthran lhe deu um sorriso leve. "Ela pode ter o título de Santa, mas ainda é uma garota da sua idade. Com sentimentos. Curiosidade. A faísca nos olhos dela… não é algo que se vê com frequência em um lugar como este."
Noel desviou o olhar por um momento. "...Ah."
Orthran riu. "Então você não é tão denso quanto imaginei. Bom. Só… cuide bem dela."
Noel respirou fundo pelo nariz. "Eu já estou com uma namorada."
Orthran levantou uma sobrancelha, impassível. "E?"
Noel piscou. "O que quer dizer com 'e'?"
O papa deu um leve encolher de ombros. "Você foi quem salvou a Santa. E a Academia Imperial, pelo que ouço. Um homem com realizações como as suas tem direito… de ter alguma flexibilidade, se não estou enganado, a maioria dos patriarcas ou matriarcas têm mais de uma parceiro."
Noel encarou. "De onde você sabe tudo isso?"
Orthran sorriu de leve. "Nicolas e eu já nos conhecemos há muito tempo. Ele me mantém informado quando algo… incomum acontece."
Noel murmurou: "Claro. Entre velhos, vocês todos se conhecem."
Orthran se inclinou um pouco para frente, fingindo se ofender. "Ei, agora, não sou tão velhão assim."
Noel rolou os olhos.
Orthran voltou a se endireitar, com uma expressão calma, calorosa.
"Só cuide bem dela. É tudo que peço."
Noel se levantou. "Vou cuidar."
Eles apertaram as mãos.
Noel saiu para o pátio, onde os demais já estavam reunidos perto das carroças. O sol da manhã estava se levantando rapidamente, e o ar começava a esquentar.
Duas carroças aguardavam na porta — ambas reforçadas para longas viagens. Garron ajudava o cocheiro a carregar algumas caixas enquanto Laziel, de braços cruzados, parecia claramente insatisfeito.
"Juro", resmungou Laziel, "se eu for ficar grudado nele o caminho todo, vou pular do meio da estrada."
Garron levantou uma sobrancelha. "Escutei isso."
"Era para você."
Clara ficou de lado, com um mapa dobrado na mão, explicando algo para Marcus, que concordava com metade da atenção. Charlotte ficou afastada, vestida com uma roupa leve de viagem, com uma sacola simples no ombro. Ainda sem véu, com o cabelo solto, balançando ao vento.
Noel se aproximou.
"Tudo pronto?" perguntou.
Charlotte se virou e sorriu. "Tudo preparado."
Todos começaram a carregar as coisas — Marcus e Clara em uma carruagem, Garron e Laziel relutantes na outra. Noel parou ao lado de Charlotte.
"É isso então."
Ela assentiu. "Um passo mais perto."
Ele estendeu a mão para ajudar ela a subir. Ela a pegou.
As carroças partiram da Capital Sagrada logo após o meio-dia, com as rodas roncando pelas ruas de pedra e, em seguida, pelos estradões de terra batida que levam para o oeste, em direção a Teralis.
Dentro da segunda carruagem, Charlotte sentou ao lado de Noel. De frente estavam Laziel e Garron — já discutindo sobre quem tinha mais espaço. Garron claramente havia vencido essa batalha só por existir.
Noel encostou-se à janela, com os braços cruzados, quase cochilando. Charlotte, por sua vez, quietamente mergulhou a mão na bolsa e retirou o Véu Sagrado.
Sem dizer uma palavra, colocou-o sobre a cabeça.
Seus traços começaram a brilhar suavemente. Seus cabelos cor-de-rosa escureceram para um vermelho profundo, e os olhos mudaram para um avelã suave. A transformação durou apenas um segundo — mas foi suficiente para mudá-la completamente.
Noel virou a cabeça e a observou.
"Acho que agora vamos de disfarce total, hein?"
Charlotte ajustou o véu, conferindo seu reflexo na janela. "Melhor evitar ser reconhecida. Assim fica mais fácil, principalmente quando chegarmos a Valon."
Ele terminou de observar sua nova aparência por um momento. "Ainda estranho."
"Você vai se acostumar."
Garron roncou uma vez. Laziel suspirou alto. Charlotte apoiou a cabeça no encosto, fechando os olhos por um instante.
Do lado de fora, a estrada continuava em frente — passando por campos verdes e rios lentos sob um céu sem nuvens.
Quando as carroças chegaram a Teralis, o sol já começava a se pôr no horizonte.
Ao contrário das cidades de pedra da Capital Sagrada, Teralis surgia da própria floresta — árvores antigas e enormes se estendendo até o céu, com troncos espessos como torres. Pontes de madeira polida e cordas encantadas conectavam os dossais superiores, formando passarelas entre as habitações que tremeluziam com uma luz natural suave.
O calor do verão trazia cor à paisagem. Trepadeiras floresciam pelos troncos, aves cantavam em ninhos escondidos, e o ar cheirava a flores, musgo e fruta.
Elfos se moviam graciosamente pelos caminhos, mas o movimento no solo também era intenso — comerciantes humanos montando barracas portáteis, crianças correndo sob árvores de lampião, e alguns semi-bestas perto do cais, conversando em tons baixos. A cidade parecia viva, sobreposta, e observava em silêncio.
Noel desceu da carruagem, ajustando a alça de sua mochila. O navio que os levaria até o porto próximo à capital de Valon já aguardava — atracado em um píer natural de madeira, crescido diretamente das raízes de uma das árvores gigantes. As velas estavam enroladas, marcadas com o insignia dourada das rotas reais.
Enquanto o grupo se aproximava da rampa, Noel sentiu — aquele calafrio na nuca.
Ele olhou para cima.
Estava no convés superior do navio, lado a lado, Elena e Elyra.
Ambas se viraram como se estivessem sincronizadas, seus olhares encontrando o dele imediatamente.
Expressões incompreensíveis. O vento balançou suavemente o cabelo de Elyra. Elena inclinou a cabeça.
Um arrepio deslizou pela espinha de Noel, apesar do calor do verão.
'Tenho a impressão de que esta viagem será longa…'