
Capítulo 160
O Extra é um Gênio!?
Eles correram.
Por corredores abandonados, iluminados apenas pelo brilho esmaecido da cúpula sagrada acima. Quanto mais avançavam, mais a luz diminuía. A pedra dava lugar a algo mais antigo—paredes revestidas de raízes e ossos, o ar pesado com o peso de coisas não ditas.
Noir os guiava sem parar.
Sombra dela se fundia ao chão sob suas patas, conduzindo Charlotte, Garron, Laziel e os últimos Guardas Sagrados por curvas e passagens cegas que nenhum humano poderia ter descoberto sozinho.
Quanto mais avançavam, mais o mundo parecia… errado.
Pararam.
À sua frente havia uma grande arcada—uma que não deveria existir—tecida com pedra retorcida e runas desbotadas, meio engolida pela terra.
Noir virou-se uma vez para olhar para Charlotte.
Depois entrou por ela.
Os demais hesitaram.
Um dos guardas falou baixinho. "Isso… não parece certo."
Charlotte não esperou.
Foi em frente e atravessou a ilusão.
Assim que o fez, o mundo mudou.
O som desapareceu.
A luz se curvou.
Até sua respiração ficou mais pesada, como se o ar não quisesse sua presença.
Garron passou por último. Laziel e os demais seguiram.
Por dentro, o chão estava seco, rachado. As paredes pulsavam com um residue mágico insípido. Tudo parecia imóvel, como se o lugar tivesse sido esquecido pelo tempo—mas lembrado por alguma outra coisa.
"Este lugar… é antinatural", murmurou Garron.
Laziel expeliu o ar lentamente, olhando pelo longo corredor estreito à frente.
"Estamos perto. Eu consigo sentir eles."
Charlotte assentiu uma vez.
O corredor se estreitou antes de se abrir numa câmara ampla, iluminada por runas azuis pálidas que pulsavam fracamente no teto. O ar aqui era mais frio—não por magia, mas por algo mais antigo, mais cruel.
Charlotte foi a primeira a entrar.
Ela parou congelada.
Gaiolas de ferro alinhavam as paredes, empilhadas em torres irregulares. Dentro delas—crianças. Ou o que sobrara delas.
Corpos torcidos. Pelos inchados. Ossos deformados por fusão forçada. Alguns encaravam o vazio, vazios. Outros se agarravam às grades com mãos trêmulas, incapazes de falar, com as gargantas secas ou quebradas demais. Um tentou alcançar Charlotte, mas colapsou antes de chegar à metade do caminho.
"Não…" sussurrou Charlotte, a voz triscando.
Ela caiu de joelhos ao lado da gaiola mais próxima.
"Por favor, aguente um pouco mais."
Colocou as mãos sobre o metal e fechou os olhos. Sua voz assumiu um tom sagrado.
"Luz que guia… concede conforto aos quebrados. Alivie sua dor…"
Um brilho suave envolveu suas mãos. A luz passou para dentro da gaiola, tocando a criança lá dentro.
Ele tremeu. Então, por um instante—apenas um—seu ritmo de respiração desacelerou. O tremor em seus membros diminuiu.
Mas só isso.
As deformidades permaneciam. Os músculos torcidos não se desfaziam.
Os braços de Charlotte tremeram.
"Não posso… não consigo consertar."
Garron deu um passo mais perto, o maxilar tenso, os punhos cerrados.
"Ainda está vivo", disse.
Laziel baixou o olhar, a voz calma.
"Não por muito tempo, se não acabarmos com quem fez isso."
Charlotte se levantou lentamente.
Havia lágrimas em seus olhos—mas ela não as deixou cair.
"Vamos continuar caminhando."
O túnel virou uma descida final, e assim que eles encararam a última curva, o som de batalha os atingiu.
Gritos agudos. Espadas. Gritos de esforço e dor.
O corredor se abriu numa vasta sala esculpida em pedra negra, e no centro—
Noel, Marcus e Clara estavam rodeados por meia dúzia de criaturas retorcidas.
As criaturas avançaram com garras e membros de osso forjado, bocas cobertas de mana instável. Uma delas estourou em direção à barreira de terra de Marcus, enquanto outra tentava flanquear Clara pelo lado.
Ela girou, contra-atacando com um jorro de água.
"Saiam da minha frente!"
Outra saltou em direção a Noel.
"Arco de Fogo!"
Um corte ardente a fez recuar entre chamas.
A chegada do grupo de Charlotte mudou o rumo da luta instantaneamente.
"Em mim!", gritou o capitão dos Guardas Sagrados.
Os soldados se espalharam pelos flancos, escudos erguidos. Garron correu direto para a batalha, pegando uma criatura que avançava pelo pescoço e a lançando ao chão com força.
As mãos de Laziel começaram a brilhar.
"Eco Ilusório."
Cópias fracas dos guardas apareceram ao lado deles—fantasmas de movimento, confundindo as bestas tempo suficiente para que lâminas reais acertassem em cheio.
Charlotte avançou sem hesitar, se desfilando entre os guardas, suas adagas já gotejando.
Clara virou-se, ofegante. "Você conseguiu."
Charlotte não respondeu. Seus olhos já estavam fixos em Noel.
Ele estava sujo de fuligem, com arranhões na mandíbula, os braços tremendo levemente de esforço—mas seus olhos agora estavam claros.
Ela chegou ao lado dele.
"Estou aqui."
Noel lhe deu um aceno com a cabeça, mas antes que pudesse falar—
Noir, que ficava próxima à coluna da sala, parou.
Seu corpo brilhou—depois desceu ao chão.
Fundiu-se às sombras.
Não apenas escondida—sumiu, como uma escuridão líquida.
Charlotte ergueu as lâminas.
"Quem eu corto agora?"
Noel olhou para ela, assustado.
"Você usa adagas?"
Charlotte inclinou a cabeça com aquele sorriso doce, quase inocente.
"Hã-hã. Hehe."
Noel soltou o ar lentamente.
'Nada me surpreende mais.'
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, a voz de Arya cortou o campo de batalha.
"Bom," ela falou do centro da câmara. "Parece que todo mundo chegou."
Ela girou sua foice uma vez e, depois, cravou a ponta na pedra.
Uma pulsação de energia obscura explodiu para fora.
Um muro apareceu em um círculo perfeito—liso, sólido e absoluto.
Num instante, o mundo lá fora desapareceu.
Apenas três pessoas permaneciam dentro: Noel, Charlotte e Arya.
Do lado de fora, Marcus batia com uma arma de pedra na parede de magia. Clara lançava feitiços de água. Nenhum deles tocava a barreira.
Por dentro—silêncio.
Arya começou a caminhar lentamente ao redor do interior da cúpula, arrastando sua foice ao lado.
"Finalmente. A pequena Santa aparece. Eu tava ficando entediada."
Charlotte manteve sua postura. Noel avançou, colocando-se entre ela e Arya.
A voz de Arya ficou afiada.
"Vocês estragaram tudo. Vocês. Agora temos que acelerar o plano… Mas tudo bem. Assim que vocês morrerem, Santa, estaremos um passo mais perto do nosso objetivo."
O aperto de Noel na Lâmina do Renascido ficou mais forte.
"Fique atrás de mim. Você consegue lutar?"
Charlotte assentiu levemente.
"Por um tempo."
Arya levantou a foice e apontou diretamente para eles.
"Então vamos acabar logo com isso."
Arya tomou a dianteira.
Sua foice girou num arco amplo, cortando o ar com um grito de aço embebido em mana. A força criou uma rajada de poeira do chão de pedra, seu corpo se borrando de velocidade enquanto avançava.
Noel se colocou na frente de Charlotte, já com chamas dançando na Lâmina do Renascido.
"Surge de Combustão!"
A lâmina incendiou-se ao encontrar a foice de frente. Faíscas explodiram entre eles. O impacto reverberou dentro da cúpula selada, embora ninguém lá fora pudesse ouvi-lo.
Charlotte não hesitou.
Ela saiu para o lado rápida e baixa, suas adagas brilhando em direção às costelas de Arya. A inimiga torceu, recuando um passo—suficiente para evitar um golpe fatal—e virou o impulso numa rotação que quase arrancou a cabeça de Noel.
"Muralha de Gelo!"
Uma camada de gelo surgiu de repente entre eles e Arya, dando tempo suficiente para Noel se reposicionar. Charlotte já se movia novamente, atacando por trás da cobertura.
Arya a interceptou no meio da corrida, bloqueando uma das adagas com o cabo de sua foice e defendendo a segunda com o calcanhar.
"Tch. Você é mais rápido do que parece, Santa."
Charlotte sorriu.
"Você fala demais."
Noel voltou, rasgando para baixo.
"Estouro de Chamas!"
Um jato de fogo saiu em direção a Arya, obrigando-a a saltar para trás, seu manto se arrastando como fumaça. Seus passos escorregaram no chão, mas ela pousou com precisão—a foice firme.
Fora da barreira, Marcus batia com força contra a parede de magia.
"Vamos! Deixe a gente entrar!"
Nada.
Clara lançou uma rajada de água. A superfície fez uma leve ondulação… mas manteve-se intacta.
"Não conseguimos ver nada," murmurou.
Por dentro, a batalha continuava.
A expressão de Arya escureceu.
"Você não é forte o bastante para parar o que vem vindo."
Noel não respondeu.
Ele bloqueava. Contra-atacava. Protegia.
Cada confronto mais rápido. Mais afiado. Mais pesado.
Charlotte lutava com graça fluida—ressonâncias curtas, cortes rápidos.
Noel atacava como fogo—medido, mas brutal.
Arya se movia entre eles como uma sombra com uma lâmina, sua risada cortando o silêncio.
E ainda assim, nenhum deles podia ouvir o mundo lá fora.
Apenas o som do aço. E da respiração. E da vontade.