O Extra é um Gênio!?

Capítulo 165

O Extra é um Gênio!?

Uma hora tinha se passado.

O chá já estava frio há muito tempo, mas nenhum dos dois se incomodou. Charlotte deixou a xícara cuidadosamente sobre a mesa, oferecendo uma reverência silenciosa a Orthran enquanto se levantava.

Ele já se preparava para a próxima rodada de tarefas.

"Leve o tempo que precisar", ele lhe disse ao chegar na porta.

"Eu vou", ela respondeu suavemente.

O corredor lá fora era mais fresco, mais silencioso—iluminado apenas por frestas de luz do sol que atravessavam vitrais estreitos. Ela caminhava lentamente, os dedos tocando a borda polida do seu novo colar.

Véu Santa.

Um presente de Orthran.

Corrente de prata.

Gema de tom branco opalescente, pulsando suavemente com uma luz quente.

Charlotte ficava girando-a entre os dedos, ainda se acostumando ao peso. Sua presença. Sua promessa.

Quando alcançou o corredor principal que levava à entrada da catedral, as vozes ficaram mais altas. Ela hesitou por um momento ao lado de uma das colunas internas e olhou à frente, para o agrupamento que se formava.

O Padre Orthran estava à frente, dirigindo-se a uma sala cheia de padres, freiras e cavaleiros sagrados de nível mais baixo. Eles tinham vindo das regiões mais afastadas, abandonando suas posições assim que a mensagem chegou até eles.

Não eram soldados. Não eram magos de batalha.

Mas eram fiéis.

Orthran agradeceu pela devoção deles. Reportou de forma vaga o que tinha acontecido—uma brecha interna, evitada a tempo. A capital agora estava segura, mas a presença deles ainda era necessária.

Charlotte não ficou para ouvir o restante.

Ela virou-se enquanto as vozes ecoavam atrás dela, já caminhando pelas escadas curvas que se afastavam do sanctum inferior. A cada passo, o som ia ficando mais distante—primeiro em murmúrios, depois sumindo por completo.

Só ela e seus pensamentos.

Só o suave, mágico pulso de Véu Santa tocando seu colar.

E a decisão silenciosa de visitar a orphanage… sozinha.

As ruas da Capital Sagrada estavam mais quietas do que o habitual.

Não por causa do toque de recolher—que fora suspenso após o fim da ameaça imediata—mas porque todos agora andavam mais devagar. Com o olhar no chão. As conversas em tom baixíssimo.

A Capital Sagrada tinha sobrevivido.

Mas não saiu intacta.

Charlotte se movia pelos becos com habilidade treinada. Manteve o capuz puxado para cima—não para esconder-se, mas por hábito. E talvez por um pouco de incômodo. Mesmo agora, alguns transeuntes paravam ao reconhecê-la.

Ela não parou. Apenas sorriu levemente e seguiu adiante.

Ao chegar no portão da orphanage, entrou silenciosamente.

O corredor principal estava limpo. O chão ainda tinha marcas de queimadura em alguns pontos, e algumas das paredes de madeira foram reforçadas compainéis de ferro. Mas o cheiro de pão quente e roupa lavada recém-saída voltou. De alguma forma, aquilo fazia seu peito se sentir um pouco menos apertado.

Ela caminhou lentamente pelos corredores, tomando seu tempo. Olhando nos quartos. Escutando risadas.

E então—

ela ouviu.

Lá fora, no jardim.

Vozes de crianças.

Ela sorriu de verdade desta vez.

'Ainda estão aqui.'

Charlotte sabia que a Igreja tinha decidido tomar novas precauções. A partir de agora, uma vez por mês, o próprio Padre Orthran realizaria uma bênção em toda a região—uma varredura divina que eliminaria corrupção e revelaria ameaças disfarçadas. Isso iria cobrar dele um preço, sim... encurtando sua vida a cada uso.

Mas ele insistira.

Dissera que era o preço que tinha que pagar por confiar demais. Por não perceber os sinais.

Ela entendia por quê.

Faria o mesmo.

Provavelmente fará.

Seus dedos encontraram a borda de Véu Santa novamente, tocando na gema.

E ela saiu para o jardim.

Onde tudo parecia quase normal de novo.

O jardim iluminado pela luz do meio-dia, com a grama ainda molhada pelo orvalho matinal. Uma brisa quente passava, carregando o cheiro de ervas das flowerbeds que alguém tentara replantar.

Charlotte parou na beira do portal, observando.

Crianças corriam pelo pátio, rindo enquanto brincavam com brinquedos de madeira. Duas meninas trançavam o cabelo uma da outra numa bancada. Um menino sentava debaixo da árvore, desenhando formas tortas num caderno.

Eram… normais.

Imunes ao que tinha acontecido.

'Ainda são jovens demais para entenderem o que realmente aconteceu.'

E talvez isso fosse uma bênção.

Do outro lado do pátio, Laziel e Garron estavam sentados na grama com cinco ou seis crianças, jogando algum jogo envolvendo pedrinhas e círculos desenhados. Laziel fingia perder de propósito, fazendo caretas exageradas. Garron deixava três crianças se empilarem nas costas dele como se fosse uma fera.

Parecia ridículo. E exatamente perfeito.

Charlotte saiu devagar, com um sorriso. "Obrigada por ficarem", ela disse. "E por brincarem com eles."

Laziel foi o primeiro a olhar para cima e sorriu. "Não precisa agradecer. Ainda temos uns… dez dias antes das aulas começarem de novo."

Charlotte assentiu. "Vão todos embora juntos?"

"Sim. Em cinco dias, pegamos o navio", respondeu Laziel. "É mais ou menos uns cinco dias cruzando o mar."

"Entendi…" Ela sorriu, colocando um pouco de cabelo atrás da orelha. "Então, me esperem nesse dia."

Garron inclinou a cabeça. "Esperar? Por quê?"

Laziel sorriu de canto. "Ela quer se despedir."

Charlotte levantou um dedo e acenou rapidamente.

"Não. Errado."

"Hã?"

"Vou para a academia com vocês."

O jardim congelou.

Uma das crianças piscou. Outra jogou uma pedrinha que errou o alvo.

"O QUE!?" Garron e Laziel gritaram em uníssono.

Suas vozes ecoaram pelas paredes, assustando alguns pássaros que levantaram voo.

De dentro da creche, duas vozes mais familiares inquietaram-se com o barulho. Passos correram.

E tudo estava prestes a ficar mais alto.

Marcus saiu na frente, com uma vassoura na mão. Clara veio atrás, com as mangas arregaçadas e um pano sobre o ombro.

"O que está acontecendo aqui fora?" perguntou Clara, franzindo o rosto. "Por que vocês estão gritando?"

Antes que alguém pudesse responder, Garron disparou—

"Charlotte vai para a academia!"

Os olhos de Charlotte se arregalaram.

"Espera—!"

Era tarde demais.

Ela correu adiante e bateu a mão na boca dele justo a tempo de interromper o que ele ia dizer.

"Silêncio! Não diga assim—tem que ser segredo!"

Garron tentou balbuciar algo com a mão na boca. "Bla… ble… brrr…"

Ela o olhou seca e, enfim, afastou a mão.

"Sim, eu vou. Mas não como eu mesma. Não exatamente."

Charlotte recuou do grupo e alcançou seu colar—Véu Santa. Seus dedos tocaram suavemente a gema, murmurando uma frase curta de ativação em voz baixa.

Uma luz suave cintilou sobre sua pele.

Seu corpo não desapareceu—somente mudou.

Seus cabelos rosas escuros escureceram, ondulando como tinta na água até se tornar um vermelho rubi profundo. Seus olhos âmbar ficaram um pouco mais claros, um hazel suave, ainda quentes, mas menos marcantes.

Os sigilos sagrados gravados nas luvas e na gola escureceram, desaparecendo sob a ilusão.

Sua postura relaxou um pouco.

Ainda sendo ela mesma.

Mas diferente.

"É assim que vou embora", ela disse com um sorriso discreto. "Não como a Santa. Apenas… como alguém diferente."

Marcus cruzou os braços, concordando lentamente. "Entendi. Fico feliz. Você merece isso."

"Eu também", disse Charlotte. "Mesmo que seja por pouco tempo… já é o suficiente."

Clara bateu as mãos animada. "Isso é incrível! A gente pode passar no shopping em Valon e explorar a cidade juntas!"

Charlotte riu. Depois olhou ao redor do jardim.

E parou. "Aliás… cadê o Noel?"

Seu sorriso vacilou um pouco.

Os outros trocaram olhares.

Mas ninguém tinha uma resposta.

Comentários