O Extra é um Gênio!?

Capítulo 164

O Extra é um Gênio!?

A luz que entrava na câmara era tênue—filtrada através de vitrais tingidos de vermelho, projetando sombras alongadas no piso de pedra. Incenso queimava lentamente perto do altar, deixando o ar quente e carregado.

Charlotte sentava-se do outro lado do Padre Orthran, suas mãos pequenas agarrando uma xícara de chá de ervas ainda morna, que não havia tocado.

O escritório, situado profundamente no santuário inferior da Santa Catedral, já tinha parecido seguro. Familiar.

Agora, parecia… silencioso, mas não pacífico.

Ela não falou inicialmente. Nem ele.

Orthran parecia mais envelhecido hoje.

Sempre tinha cabelos brancos, carregava a gravidade da idade—mas hoje, sua postura parecia mais pesada, sua expressão mais distante. Seus robes estavam cuidadosamente dobrados, mas suas mãos tremiam levemente enquanto ele folheava um relatório que, na verdade, não estava realmente lendo.

Charlotte o observou, sua voz suave.

— Você deveria descansar.

Orthran sorriu suavemente.

— E deixar tudo nas mãos de outra pessoa? Não posso fazer isso—não depois de tudo que aconteceu.

Ela abaixou o olhar.— Você não é culpado.

Ele não respondeu.

Por um momento, o único som era o crepitar da vela perto de sua mesa.

— Você tinha cinco anos—ele disse de repente, com voz baixa—quando eu o tirei daquele orfanato. O mesmo… onde tudo isso aconteceu.

Charlotte não olhou para cima, mas seus dedos apertaram a xícara com mais força.

— Eu criei você para carregar esperança. E ontem… quase deixei o mundo apagar essa esperança.

Sua voz embargou levemente.— Ainda estou aqui.

— Sim. — Ele lhe deu um sorriso cansado.— Sim, você está.

Para ele, ela não era apenas a Santa.

Ela era sua neta.

Sua única família.

Isso tornava tudo o que tinha acontecido… muito pior.

Orthran deixou a xícara de lado, finalmente falando com mais peso na voz.

— Já enviei mensagens ao Rei Alveron IV e às altas cortes de Elarith. Reforços estão vindo. Precisamos de pessoas para guardar a cidade enquanto nos reagrupamos— feiticeiros, cavaleiros, guardiões. Qualquer um em quem possamos confiar.

Charlotte assentiu lentamente.— Quanto tempo vai levar?

— Não muito. O Imperador já deu sua palavra. E Elarith não ficará de braços cruzados após saber que a Santa quase foi assassinada.

Ele se recostou na cadeira, massageando a ponte do nariz.

— A parte difícil é o que dizer ao povo. Os rumores já estão se espalhando mais rápido do que podemos conter.

Charlotte franziu a testa.— Sobre o que aconteceu comigo?

— Em parte. Todos sabem que houve um ataque. Que você foi o alvo. Que conseguimos detê-lo. Mas omitimos o restante—as ruínas, os experimentos, os traidores dentro de nossas próprias muralhas.

Charlotte olhou para baixo novamente.

— Mas as pessoas vão fazer perguntas.

— Elas vão, — admitiu Orthran.— Mas perguntas melhores que o pânico. Se soubessem o quão perto estivemos do colapso…

Ele não terminou a frase.

Em vez disso, olhou para a janela, onde a luz das paredes externas da catedral refletia débilmente através de vitrais manchados de fumaça.

— Diremos o suficiente para manter a confiança. Mas a Capital Sagrada guarda seus segredos por uma razão.

Charlotte se deslocou na cadeira, o silêncio se estendendo novamente.

Então ela perguntou, sem levantar os olhos, — Por que não percebi eles?

Orthran a observou atentamente, depois suspirou levemente—menos de frustração, mais de compreensão.

— Você acha que falhou.

— ... Nem percebi quando estavam perto. Nem uma vez. A guarda, a freira—pessoas que vejo quase todos os dias.

Ele se inclinou para frente, sua voz firme, mas calma.

— Eles tiveram ajuda. Cada um carregava um artefato—feito especificamente para mascarar sua presença. Não só pelo seu dom. Por todos os sentidos divinos.

Charlotte piscou.— Eu nem sabia que esses existiam.

— São extremamente raros. E extremamente perigosos. Acreditamos que foram feitos fora dos continentes, talvez até por meio de pacto sombrio. — Ele fez uma pausa. — É assim que eles passavam livremente na sua frente. E na minha.

Sua mandíbula se fechou, a culpa fervilhando sob sua expressão calma.

— Mas, quando ativei a Bênção Sagrada — continuou Orthran — esses artefatos foram destruídos. Foi quando você começou a perceber o cheiro, certo?

Ela assentiu lentamente.

— Foi aí que percebi que algo estava errado, — sussurrou. — Tudo aconteceu ao mesmo tempo.

Orthran lançou uma risada cansada.

— Você não falhou, Charlotte. Eles apenas esconderam bem sua podridão. Mas quando o véu se levantou… você os viu pelo que realmente eram.

Ela respirou fundo, quase sorrindo—mas sem tremer também.

Orthran recostou-se, as mãos repousando na minha borda da mesa. Ficou quieto por um momento, com os olhos distantes.

— Sabe o que diz a tradição, — começou — depois de uma manifestação como a sua—depois de sobreviver a algo assim—you já deveria estar assumindo seu papel completamente.

Charlotte não disse nada.

— Você é a Santa, Charlotte. As pessoas vão querer você na linha de frente. Nos rituais. Visitando os templos. Curando os feridos. —Ele olhou para ela com ternura. — Esperam que você carregue a luz por onde passar.

— Eu sei, — ela falou suavemente.

Orthran hesitou. Então, acrescentou em voz baixa:

— Mas, depois do que aconteceu… talvez possamos fazer diferente. Só desta vez.

Ela olhou para ele, incerta.

— Não estou dizendo que pode ignorar seu dever, — ele disse. — Mas acho… que você merece um ano. Só um. Para viver do seu jeito.

Charlotte piscou, surpresa—mas não interrompeu.

— Então, — continuou ele — se houver algo que você queira fazer, qualquer coisa que ainda pareça sua… é hora de dizer.

Charlotte olhou para baixo, às suas mãos.

— Quero ir para a Academia Imperial, — ela disse. — Em Valor.

Orthran levantou uma sobrancelha. — A academia?

Ela assentiu, mais certa desta vez.

— Pode ser o lugar mais seguro para mim agora. E… quero estar perto de pessoas da minha idade. Só uma vez. Só por um tempo.

Ele olhou para ela com atenção.

— É isso mesmo que você quer?

Charlotte encontrou seu olhar, olhos calmos, porém firmes.

— Quero viver… mesmo que seja só por um ano. Como eu sou.

Orthran recostou-se novamente, respirando fundo.

— Você sabe que… não viverá uma vida normal lá, — disse, com voz suave, porém clara. — Seu nome e rosto já são conhecidos. Pessoas em Valor viram sua imagem na divulgação, e a notícia se espalha rápido. Você será reconhecida assim que passar pelos portões.

Os ombros de Charlotte caíram, e seus olhos escureceram um pouco.

— Então… não há jeito de fingir que sou apenas mais uma estudante?

Orthran percebeu o rosto dela refletindo a dor, antes de falar.

— Mas sempre há uma solução para tudo… certo?

Ele levantou uma sobrancelha. — …O que você está pensando?

Charlotte tocou o queixo com o dedo. — Tem um item. Eu li sobre ele uma vez. Chama-se Amuleto do Tecelão do Véu. Ele permite alterar a aparência.

Orthran arregalou os olhos, surpreso. — Como você sabe disso?

Ela sorriu de forma inocente, levantando dois dedos formando uma pequena cruz, segurando-os brincando na frente dos lábios.

— É um segredo.

Ele deu uma risada, balançando a cabeça.

— Você nunca muda.

Depois, mais sério, acrescentou: — Existe algo assim, sim. Não exatamente igual, mas parecido. Permite que a pessoa alterne sua aparência à vontade—e, mais importante, ligue e desligue o efeito quando quiser.

Os olhos de Charlotte brilharam pela primeira vez naquele dia.

— Então, eu ainda posso ser… eu mesma, — ela cochichou. — Mas só quando eu decidir.

Orthran lhe deu um sorriso caloroso, tipo de avô. — Sim. Por um ano… você pode.

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