O Extra é um Gênio!?

Capítulo 157

O Extra é um Gênio!?

A luz no escritório brilhava de forma pouco natural, dourada e suave, como se a própria realidade tivesse se curvado ao redor da energia sagrada pulsante do centro da sala.

O Papa Orthran ajoelhou-se em silêncio ao lado da sua mesa, mãos abraçadas ao redor da cruz dourada contra o peito. Seus olhos estavam fechados. Sua respiração era lenta, mas sua pele já começava a ficar pálida — lábios secos, dedos tremendo levemente.

Ele estava rezando. E, por meio daquela oração, a Bênção da Igreja — um escudo sagrado que envolvia toda a capital — permanecia ativa. Não era alimentada por mana, mas pela própria vida. Por anos.

Ele estava queimando.

A própria câmara não possuía encantamentos, magias defensivas ou runas gravadas na pedra. Apenas a barreira sagrada de Charlotte, invocada às pressas, permanecia entre o Papa e o mundo exterior.

Mas ela já estava enfraquecendo.

Fissuras brilhavam nas bordas, tremulando como vidro frágil sob pressão. Charlotte permanecia perto da entrada, com as mãos levantadas, suor escorrendo pelas têmporas. Seus joelhos tremiam, não apenas por esforço, mas por exaustão — consequência de ter invocado outra bênção poderosa semanas atrás, ao purificar rios e lagos amaldiçoados pelos dois mundos — Iskandar e Estermont.

Atrás dela, Garron e Laziel faziam a guarda.

“Eles estão chegando,” murmurou Garron, com a voz baixa.

Charlotte não respondeu. Sua atenção inteira estava em manter a barreira.

Então ela se quebrou.

Com um zumbido suave, o domo dourado ao redor da porta se apagou — e três figuras de vestes cerimoniais irromperam, armas em punho, olhos brilhando em vermelho pálido e uma marca circular queimando na testa deles.

Charlotte avançou antes que pudessem atacar.

O ar ao redor dela se iluminou por um instante — uma última invocação — e uma fina onda de luz sagrada empurrou os invasores para trás, por um breve momento.

As mãos de Laziel brilharam com múltiplos elementos — água, fogo, vento — e ele lançou uma saraivada que dispersou temporariamente os intrusos.

“Cubram-me!” gritou Charlotte. “O Papa não pode ser interrompido!”

Ela destruiu completamente a barreira e sacou duas adagas pequenas de prata debaixo do robe.

Garron piscou. “Você luta?”

Charlotte não respondeu imediatamente.

Em vez disso, soltou um “hihi” quieto, quase brincalhão, e suas adagas brilhando nas mãos enquanto avançava.

O primeiro intruso avançou, com a lâmina na mão, mirando direto na garganta de Charlotte.

Ele não a atingiu.

Ela se enrolou com um movimento baixo, a adaga esquerda rasgando a parte superior da coxa do homem, enquanto a direita atingia precisamente sob as costelas. Ele caiu instantaneamente, quase sem conseguir gritar antes de atingir o chão.

Charlotte não parou.

Mais dois vieram ao mesmo tempo.

Ela se abaixou sob o golpe de uma arma de madeira, rolou pelo chão e surgiu atrás do segundo atacante — as adagas brilhando novamente numa dança rápida de prata e sangue. Seus movimentos eram fluidos, precisos, incrivelmente rápidos para alguém do seu tamanho.

Garron elevou as sobrancelhas em choque ao golpeá-lo com o punho contra um quarto inimigo.

“...Ela luta.”

Laziel riu de forma constrangedora, lançando uma rajada de vento que atingiu outro adversário, fazendo-o recuar.

“Ela realmente luta.”

Charlotte não respondeu a nenhum deles. Seu rosto estava calmo, mas os olhos vigilantes — mortais. Ela se movia com a graça de alguém treinado em silêncio, cada passo sincronizado com o ritmo da respiração e do instinto sagrado.

Seu corpo brilhava levemente. Não com mana — mas com poder divino, que sutilmente aprimorava seus músculos, acelerava seus reflexos. Ela não invocava apenas bênçãos — ela tinha se tornado uma.

Laziel ergueu uma parede de fogo enquanto mais inimigos entravam pela porta quebrada. Sua outra mão conjurou fragmentos de terra e gelo, lançando-os em rajadas rápidas para cobrir o flanco de Garron. Apesar de seus feitiços não serem complexos, a quantidade e variedade mantinham o inimigo impedido.

Garron se movimentava como um tanque — uma mão segurando um inimigo pela gola, atirando-o contra a parede, e a outra golpeando outro com o cotovelo com tanta força que o som ecoou pelo ambiente.

Mesmo assim, a pressão aumentava.

O Papa permanecia ajoelhado no centro da câmara, imóvel, cercado pelo caos e pelo fogo. Se sequer um inimigo chegasse perto dele…

Charlotte cortou mais uma figura encapuzada, respirando com dificuldade agora.

Então—

As portas atrás deles se abriram mais uma vez.

Reforços.

Vários soldados armados em branco e dourado invadiram a sala — membros da Guarda Santa, atraídos pela luz do Papa.

Sem dizer uma palavra, eles preencheram o espaço, empurrando os infiltrados com precisão.

Um deles fez uma saudação rápida para Charlotte. “Santa, você está ferida?”

Ela balançou a cabeça. “Não. Preciso que metade de vocês venha comigo. Agora. Vamos encontrar quem está por trás disso tudo.”

O cavaleiro hesitou apenas um segundo antes de assinar com a cabeça.

Ao seu lado, Garron sorriu. Laziel já enxugava o suor da testa.

Charlotte olhou na direção da porta quebrada e estreitou os olhos.

“Vamos lá.”

O interior da catedral ecoava com o som de botas armadas enquanto Charlotte liderava uma coluna da Guarda Santa até o topo da ampla escadaria. Garron e Laziel a acompanhavam, armas em punho, atentos a cada sombra.

Acima deles, a Capital Santa fervia em caos — gritos ao longe, o som de aço contra aço, flashes de magia refletindo nas paredes de pedra. A cúpula dourada acima pulsava constantemente, sua energia divina pressionando a cidade como o peso do julgamento.

Charlotte franziu a testa. Ela avançava com rapidez pelas ruas, respirando com esforço, sua adaga ainda firme na mão.

“Noel disse que eles estão em algum lugar abaixo do muro oeste,” murmurou. “É tudo que temos.”

Um dos cavaleiros ao seu lado falou. “É uma área grande para procurar. Devemos dividir nossas forças?”

Charlotte hesitou. Antes que pudesse responder—

Um borrão escuro aterrissou silenciosamente na sua frente, logo além do próximo cruzamento, seu impacto quase um sussurro contra a pedra.

Noir.

A loba sombria ficou imóvel, seu corpo preto e snakly delineado pela tênue luz dourada da cúpula. Seus olhos violeta brilhantes fixaram-se em Charlotte.

Então, sem fazer som, ela se virou e começou a caminhar.

Ela se move com confiança silenciosa, cada passo certo, como se soubesse exatamente para onde deveriam ir.

Charlotte exalou, com um sorriso de alívio na voz.

“Ela está nos guiando.”

Ela se virou para os guardas. “Fiquem perto. Ninguém fique para trás. Seguimos a loba.”

Sem hesitar, o grupo avançou.

Por becos, pátios e corredores silenciosos, eles seguiram Noir.

Assim que passaram pela barreira, o mundo mudou.

Não era apenas a temperatura ou a luz — era a ausência. O barulho caótico da Capital Santa desapareceu completamente. Sem gritos, passos ou explosões mágicas. Nem mesmo o zumbido baixo da cúpula sagrada acima.

Estava silencioso.

Como se o próprio ar engolisse o som antes que pudesse existir.

Marcus olhou ao redor, desconfortável. “Por que não consigo ouvir nada?”

A voz de Noel veio baixa. “A barreira silencia tudo. É por isso que ninguém ouviu as crianças gritando.”

Isso atingiu Clara como um soco.

Avançaram em formação, cada passo ecoando fraco ao pé, mas até mesmo os seus próprios movimentos pareciam amortecidos. Os corredores eram antigos e irregulares, escavados na rocha ancestral e parcialmente reconstruídos com material mais escuro. A pouca luz restante vinha de lanternas mágicas tênues fixadas no alto.

As passadas de Clara desaceleraram ao entrarem em uma passagem larga repleta de celas.

Ela parou congelada.

Dentro das grades, estavam crianças — ou o que antes eram crianças. Corpos deformados, fundidos com osso ou metal, alguns acorrentados excessivamente às extremidades. Outros flutuando em tanques de líquido translúcido, suspensos entre a vida e algo pior.

Vários tinham fios ou tubos cravados na carne, e hieróglifos mágicos pulsavam sob a pele como veias.

Clara segurou a boca, mas não conseguiu conter o vômito.

Ela virou-se e vomitou, o corpo tremendo.

Marcus colocou-se à frente, protegendo-a do pior. Seus punhos cerrados, olhos sombrios.

Noel não disse nada.

Já tinha visto tudo isso há uma hora.

Num cômodo distante do complexo subterrâneo, a tensão quebrou.

Um cultista de robe, ofegante e sangrando de uma ferida superficial, entrou cambaleando por uma porta grossa de ferro e ajoelhou-se diante de três figuras mascaradas.

“É urgente!” ofegou. “Descobriram nossa presença. Precisamos acelerar tudo — agora!”

Uma das figuras mascaradas congelou. Outra virou-se rapidamente e correu pelo corredor lateral.

Alguns instantes depois, o som retumbante de um gongue profundo ecoou pelos corredores subterrâneos — três golpes sucessivos, cada um mais alto que o anterior.

O som não era apenas um aviso. Era uma ordem.

Por toda a base, acólitos e sentinelas começaram a se mover — correndo para seus postos, reforçando contenções, reunindo armas.

No salão principal, Noel, Marcus e Clara avançaram rapidamente, agora guiados pela memória de Noel.

Chegaram a uma sala circular ampla.

Antorchas fraquejavam na periferia. No centro, uma plataforma ritual com chão manchado de sangue e um altar de pedra carbonizada.

E, diante dela, esperava ela.

O Sexto Pilar.

A freira élfica — agora totalmente transformada. Sua pele era negra como obsidiana, seu cabelo preto azabuzado, caindo pelas costas, vestido de couro preto apertado e vestes cerimoniais. De costas, mas a foice gigante presa às costas era inconfundível.

Os olhos de Noel immediately se fixaram nela — mas não pararam aí.

Sua olhadela caiu na mesa de pedra ao lado dela.

Lá estava Erick.

Pálido. Quieto. Preso com correntes que brilhavam, seu peito subia e descia em pausas irregulares, e linhas negras pulsavam sob a pele dele.

Noel congelou.

Seu cérebro parou de processar.

Ele não sabia. Não isso.

Não ele.

Marcus falou atrás dele. “Noel?”

Já era tarde.

A mão de Noel voou para a bolsa dimensional, e numa piscada, Canino do Revenant estava na sua mão. Ele não pensou. Não hesitou.

Atirou-se para frente.

O Sexto Pilar virou — justo a tempo de ver o borrão de metal vindo em sua direção.

Mas era tarde demais para Erick.

Seu corpo torceu violentamente, mana jorrando de seu núcleo profundo enquanto sua forma começava a mudar. Veias inchavam. A pele rachava.

E, com uma voz mais sussurrada que sonora, ele sussurrou:

“Ajuda… dói… Noel…”

A voz de Marcus soou atrás deles:

“Calma, Noel!”

Mas Noel não conseguiu ouvir.

Ele não estava mais ouvindo.

Pela primeira vez na vida, Noel se entregou não à lógica, mas ao instinto e à emoção — impulsionado pela raiva e pelo medo.

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