O Extra é um Gênio!?

Capítulo 153

O Extra é um Gênio!?

Laziel soltou um bocejo, esticando os braços antes de se dirigir à porta.

"Estou morrendo de fome. Vou lá pegar o café da manhã," disse.

Garron o seguiu, já na metade de amarrar as botas.

"Deixarei um lugar pra vocês dois," acrescentou, fazendo um gesto de positivo com a mão antes de sair.

"Vai lá," disse Noel. "Eu pego depois que usar o banheiro."

"Eu também," acrescentou Marcus. "Nos vemos em breve."

A porta se fechou atrás de Laziel e Garron, e Noel e Marcus começaram a caminhar pelo corredor juntos, em direção ao banheiro.

"Então," disse Marcus, olhando de lado, "hoje vamos encontrar a família adotiva, né?"

"Sim," assentiu Noel. "Depois de duas semanas cavando sem resultados, quero ver tudo de perto. Ainda acho que tem algo errado nessa história."

Marcus coçou a cabeça. "Você realmente acha que o inimigo está escondido dentro da Capital Sagrada? Não seria mais fácil invadir ou atacar direto?"

Noel parou bem na porta do banheiro e olhou pra ele.

"E como exatamente fariam isso? Passariam pelos soldados, pelo muro externo, pela barreira interna e por todos os guardas ao redor do Santo?"

"...Bom ponto," murmurou Marcus. "Esquece, perguntei besteira."

"Não é uma pergunta idiota," disse Noel calmamente. "É só... essa é a única forma que faz sentido. Sutil, silenciosa. Perigosa."

Marcus assentiu, embora seu humor habitual estivesse um pouco apagado. "Pois é... Isso piora as coisas, não é?"

Noel não respondeu imediatamente. Simplesmente abriu a porta do banheiro. "Sim…"

O som de água correndo ecoou pelo cômodo enquanto Noel secava as mãos na frente do espelho. Marcus ficou ao lado, ajustando distraidamente o colarinho.

Então aconteceu.

Uma familiar ondulação percorreu o peito de Noel—sutil, como um sussurro logo sob a pele. Uma mensagem azul luminosa piscou na sua visão:

[Evolução Familiar Concluída – Noir: Rank Adepto]

"Ah," murmurou Noel. "Finalmente."

Marcus olhou de relance. "O que é?"

"Só assista. E não se assuste."

Uma sombra espessa se enrolou atrás dos pés de Noel, mais escura do que deveria ser. Ela se contorceu uma vez… e começou a se erguer. De dentro dela emergiu uma silhueta elegante e poderosa—pelagem negra como breu com raias de violeta correndo pela juba. Olhos roxos brilhavam com inteligência e energia selvagem. As garras batiam contra o piso com graça e ameaça.

O lobo era enorme. Quase dois metros de comprimento, magro e mortal.

"Noir," sussurrou Noel, pouco antes do animal avançar em sua direção.

Ela o agarrou com uma suavidade inesperada, lambendo seu rosto em rápidas sucessões, como se tentasse sufocá-lo de carinho.

"Tá, tá! Eu também senti sua falta. Mas larga, você já não é mais filhote!"

Noir soltou um resmungo curto—quase uma risada—e, então, sua forma começou a encolher. O corpo se comprimiu, a pelagem achatou, as patas se ajustaram até que ela voltasse a parecer sua antiga versão: um pequeno filhote de sombra, mal atingindo os joelhos de Noel.

Ela latiu uma vez e pulou de volta no peito dele, lambendo sua bochecha novamente.

"...Tudo bem. Dessa vez eu deixo passar," disse Noel, sorrindo de leve enquanto a empurrava com cuidado para baixo.

Marcus piscou lentamente. "Essa é sua familiar?"

"Sim. Peguei ela quando ainda era um ovo."

"Huh. Isso… é estranhamente fofo."

"Ela é útil. Ainda mais agora." Noel passou a mão atrás das orelhas dela. "Ela tem um olfato forte. Pode ser útil."

Noir olhou pra ele—então, numa rápida névoa escura, sua forma se derreteu novamente, escorrendo para o chão.

Seu corpo desapareceu, deixando apenas a ondulação distorcida da sombra de Noel no ar.

Marcus deu um passo cauteloso para trás. "O que ela acabou de fazer?"

"Ela é uma loba sombra," respondeu Noel calmamente. "Pode fundir-se à minha sombra."

Marcus olhou para o chão. "…Ela vai comer as crianças?"

Noel bufou. "De jeito nenhum. Ela é inofensiva—a não ser que eu diga o contrário."

A presença de Noir desapareceu completamente, mas Noel ainda sentia ela enroscada sob seus pés, aninhada como um segundo batimento de coração dentro da sombra. Ele deu um passo à frente. O movimento foi fluido—perfeito.

Marcus caminhou ao lado dele, levantando sobrancelhas.

"Então… ela agora está na sua sombra?"

"Sim."

"Tá… isso é assustador."

"Não a ofenda."

"Você garante que ela não vai morder o tornozelo de alguém se a pessoa se aproximar demais?"

Noel sorriu com malícia. "Só se a pessoa estiver com um cheiro muito ruim."

Eles saíram do corredor e emergiram na galeria ensolarada que levava ao pátio. Risadas de crianças ecoavam ao longe. Charlotte esperava perto do portão principal, conversando com a freira élfica. Ao seu lado, a garota que iria ser adotada—Mira—segurava a ponta do vestido de Charlotte, olhos grandes e nervosos.

Quando Noel e Marcus se aproximaram, Charlotte olhou para cima e fez um breve gesto de aprovação.

A freira elfa virou-se para eles com uma expressão surpresa. "Ah, vocês vão acompanhar?"

Charlotte respondeu educadamente. "Sim. Achamos que seria uma boa experiência para a Mira sentir-se mais apoiada."

A freira inclinou a cabeça. "Isso é muito pensativo de vocês. Tenho certeza de que a família ficará feliz em conhecer o Santo também."

Noel ficou em silêncio, observando Mira se mexer nervosamente atrás de Charlotte. Ela parecia visivelmente tensa, mal falando.

Marcus sorriu para a garota. "Não se preocupem. É só um passeio, certo?"

Mira não respondeu, mas se apertou um pouco mais ao lado de Charlotte.

'Coitada,' pensou Noel. 'Ela está apavorada.'

"Vamos?" disse a freira, sinalizando adiante.

"Vamos," respondeu Charlotte. "Não podemos deixá-los esperando."

E assim começaram a caminhar—Noel, Charlotte, Marcus, a freira e Mira—todos rumo às periferias da Capital Sagrada.

A porta rangeu ao se abrir atrás deles enquanto passavam por uma das saídas menores da cidade, escortados apenas pelo som do escudo de armadura dos guardas ao longe. A estrada de pedra levava até uma vila tranquila, situada logo fora dos limites da cidade, cercada por colinas suaves e árvores tortuosas balançando com o vento.

Noel caminhava ao lado de Charlotte, mantendo os passos lentos e o tom baixo. Marcus vinha logo atrás, com a freira elfa liderando o grupo e Mira caminhando em silêncio ao seu lado, segurando a bolsa como se fosse um escudo.

De cabeça baixa, Noel falou baixinho. "Se sentir alguma coisa diferente das outras… me avise."

Charlotte não parou de andar. "Vou avisar. Mas, como já disse, tudo já foi revisado."

"Sei."

Ele observou a Mira por um momento. "Mas é melhor ter certeza."

Alguns minutos depois, Charlotte murmurou: "Você não confia na freira?"

"Não confio em ninguém quando o assunto é isso."

Charlotte não respondeu, mas a expressão dela ficou um pouco mais fechada.

Noel diminuiu o passo só o suficiente para acompanhar Marcus e sussurrou: "Ela tem essa… habilidade. Ela consegue cheirar maldade."

Os olhos de Marcus se arregalaram. "Isso é verdade mesmo?"

"Para ela, é."

"E se ela sentir alguma coisa?"

"Vamos nos separar. Você e eu ficamos para trás e investigamos. Ela volta com a freira."

Marcus assentiu. "Entendido."

O restante do caminho foi tranquilo. A trilha serpenteava por entre árvores finas e campos de trigo, a vila surgindo lentamente no horizonte—algumas casas modestas, hortas, e o murmúrio distante de um riacho.

Finalmente chegaram a uma casa pequena coberta de hera, com cerca baixa e floreiras nas janelas. Antes que pudessem bater, a porta se abriu e dois elfos os receberam com sorrisos suaves. Pareciam jovens—talvez vinte anos—mas Noel sabia que a idade elfa podia enganar.

"Sejam bem-vindos," disse o homem. "Olá, Mira. Por favor, entrem."

A freira elfa avançou. "Este é o último passo. Faremos a última papelada lá dentro."

Mira hesitou, os olhos voando até Charlotte antes de dar um passo tímido atrás dela.

"Ela é só um pouco tímida," explicou Charlotte com naturalidade. "Vocês sabem como crianças são."

A mulher elfa riu suavemente. "Claro. Mas ela já nos visitou antes. Sabíamos que ela nasceu pra fazer parte da nossa família."

Todos entraram na casa—interior humilde, decorada com tapetes feitos à mão e móveis de madeira.

"Alguém quer alguma coisa pra beber?" perguntou a elfa.

Noel levantou a mão. "Vocês têm suco de laranja… com café?"

"…Juntos?"

'Não é tão estranho assim, né?' pensou.

"Sim."

Ela piscou. "Vou tentar."

Charlotte pediu água, Marcus recusou, e a freira também educadamente dispensou.

Enquanto os anfitriões cuidavam das coisas, Noel se virou para Charlotte. "Sentiu algum cheiro?"

Charlotte balançou a cabeça. "Nada fora do comum. Sentem-se… limpos."

Marcus exalou pelo nariz. "Isso é um alívio."

As formalidades passaram rapidamente, e logo era hora de partir. Mira deu um leve aceno da soleira, enquanto eles voltavam para a estrada.

Quando passaram por um pequeno poço, algo puxou na calça de Noel.

Ele olhou para baixo.

Noir, na forma de filhote, emergiu silenciosamente de sua sombra e mordia a barra da calça—gentilmente, mas com insistência.

Noel estreitou os olhos. "O que foi?"

Ela mordeu de novo. Então olhou pra ele.

'Ela encontrou algo, Noir?'

Noel virou-se para Marcus. "Ela tem algo."

Marcus franziu a testa. "Vamos nos separar?"

"Não. Você fica com a Charlotte. Fique perto dela. Não gosto da ideia dela estar sozinha, pelo menos por enquanto."

Marcus assentiu firmemente. "Certo. Se acontecer alguma coisa—"

"Eu te encontro," disse Noel. Depois fez um aceno rápido e voltou na direção do caminho da vila.

Afreita, Charlotte e a freira perceberam.

"Para onde ele está indo?" perguntou a freira.

Marcus respondeu rapidamente: "Ele queria pegar algo para as crianças. Uma surpresa."

A freira sorriu. "Muito atencioso de sua parte."

Charlotte, no entanto, notou o olhar que Marcus lhe lançou—um aviso silencioso.

Ele se inclinou e sussurrou: "Deveríamos voltar. Tenho um mau pressentimento."

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