
Capítulo 152
O Extra é um Gênio!?
O sol do meio-dia derrubava sua luz suave no pátio da Orfanato, aquecendo as pedras e lançando um brilho acolhedor sobre a cena. Da porta, Marcus observava Noel passando a bola de um lado para o outro com Erick. O pequeno parecia estar se divertindo, sorrindo amplamente a cada chute. Charlotte estava por perto, torcendo alto e fazendo provocações brincando toda vez que Noel marcava.
"Você está trapaceando de novo, Traidor!" ela gritou, com os braços cruzados e uma baba de dramatismo no rosto.
Noel nem se incomodou em negar. Ele só riu e continuou jogando.
Marcus encostou-se na moldura de madeira, de braços cruzados, com seu sorriso habitual puxando os cantos da boca.
'Heh. Eles estão até se dando bem.'
'Nunca imaginei o dia em que Noel jogaria com alguém, quanto mais com duas pessoas ao mesmo tempo.'
Era sempre eles — Charlotte exagerada, Noel fingindo indiferença — mas havia algo no ar. A maneira como se olhavam não era mais a mesma. Agora, havia uma facilidade entre eles.
'Ele pode não dizer, mas está deixando ela entrar. Isso é avanço.'
'E, honestamente... combina com ele. Ele esteve fazendo muita coisa no último ano.'
Erick riu alto enquanto perseguia a bola. Noel correu atrás dele, mais lento de propósito. Charlotte batia palmas como uma treinadora orgulhosa na lateral.
Marcus deu uma risada divertida.
'Talvez essa viagem esteja fazendo bem pra ele mesmo.'
Com isso, virou-se e voltou para dentro, com as mãos nos bolsos, cantarolando baixinho.
O que quer que estivesse acontecendo entre aqueles dois, ele deixaria fluir.
Não havia pressa.
O vento tinha ficado um pouco mais forte, trazendo o aroma de pinho e o som distante de um sino de igreja. Noel estava sentado em um banco de pedra baixinho, bem ali do lado de fora do refeitório do orfanato, alongando os braços atrás da cabeça enquanto recuperava o fôlego. Charlotte chegou alguns segundos depois, jogando-se no banco ao lado dele com um suspiro exagerado.
"O Erick está mais energético que uma ninhada de quimera," ela disse, limpando a sujeira do vestido. "Acho que ele está tentando nos matar."
Noel deu uma risada silenciosa. "Se fosse monstro, seria rapidinho."
"Alguma novidade nesses últimos dias?" ela perguntou, olhando para o pátio.
"Não," respondeu Noel. "E você?"
"Nada."
Ele soltou um suspiro lentamente. "Então ainda estamos na mesma."
Charlotte concordou com a cabeça. O silêncio entre eles permaneceu por alguns segundos, sem peso.
"Obrigada por brincar com o Erick," ela disse, por fim. "Desde que você chegou, ele está bem mais animado. Até começou a se abrir mais com as outras crianças."
"Nada demais," Noel afirmou. "Ele só precisava de um tempo. É um bom garoto."
Charlotte sorriu fraquinho, com o olhar perdido no horizonte onde as crianças brincavam ao longe.
O sino do meio-dia soou pela Capital Santa, marcando a rotina habitual: aulas, orações, refeições. Mas dentro do orfanato, o ritmo do dia desacelerou enquanto as crianças se reuniam perto do hall principal. A freira elfa, de hábito verde-claro, voltou a se posicionar na frente, sua veste ondulando suavemente enquanto elevava a voz.
"Crianças," ela chamou suavemente. "Hoje, mais uma de vocês foi escolhida para adoção. Parabéns à Mira. Ela irá para uma família próxima que a receberá com seu novo lar."
Uma onda de aplausos cortou o silêncio, alguns sinceros, outros confusos ou incertos. A menina Mira — com não mais que sete anos — permaneceu imóvel, suas pequeninas mãos cerradas na frente do peito.
De seu canto perto da parede, Noel observava a cena silenciosamente. Charlotte estava alguns passos à frente, aplaudindo com um sorriso radiante, enquanto Erick ficava logo atrás, observando tudo em silêncio. Seus olhos fixaram-se em Mira.
'Segunda adoção em poucos dias,' pensou Noel. 'É comum assim aqui?, Na Terra era complicado, às vezes crianças ficavam sozinhas e, depois, eram largadas na idade adulta.'
O momento passou, as crianças foram dispensadas e cada um retornou às suas tarefas. Mira foi levada para os fundos para ser "preparada" para ir embora.
Noel ficou assistindo até o salão esvaziar, depois virou-se para Charlotte.
Ela não parecia confusa. Nem surpresa.
'Ela realmente acha isso normal... mas alguma coisa não me convence nisso.'
A sala de jantar era aquecida pela iluminação dourada de velas. Pratos tilintavam suavemente. Risos ocasionalmente ecoaram de mesas diferentes, misturando-se ao sussurrar de conversas baixas. Noel estava com seu grupo habitual: Marcus, Garron, Clara, Laziel... e Charlotte, sentada do outro lado, conversando animadamente com Erick ao lado.
O jantar era simples — ensopado de legumes e pão quente — mas reconfortante. Por um momento, tudo parecia normal.
Marcus recostou-se na cadeira, com a colher quase na boca. "Ei, alguém mais percebeu o quão rápido as adoções estão acontecendo ultimamente?"
Noel olhou para cima. "Você também, né?"
Marcus assentiu. "Já é a segunda essa semana, não é?"
"Na verdade," disse Noel casualmente, "estão planejando outro anúncio amanhã."
Clara surpreendeu-se levemente. "Isso é bastante. Achava que adoções assim eram raras por aqui."
"Normalmente são," concordou Noel. "Mas talvez haja uma demanda repentina."
"Deve ser bom," murmuro Garron. "Poder sair do orfanato e morar numa casa quente com pais de verdade."
"Só se forem bons pais," interrompeu Laziel com firmeza. "Nem todo mundo tem essa sorte."
Seguiu-se uma breve pausa, que não foi pesada — apenas pensativa.
Marcus deu de ombros. "Vamos torcer para que a nova família da Mira a trate bem."
Charlotte, ainda sorrindo, acrescentou: "Ela vai ficar bem. As famílias são cuidadosamente escolhidas."
Noel fixou seu olhar no prato quase vazio diante dele.
'Deveria ser. Mas algo nesse padrão... não me parece certo.'
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A noite estava tranquila, o pátio suavemente iluminado pela luz prateada da lua. A maioria das crianças já dormia, os corredores silenciosos, exceto pelo ranger ocasional da madeira. Noel encostou-se na grade de pedra, do lado de fora do prédio principal do orfanato, com as mãos nos bolsos do casaco. Charlotte permanecia perto, de braços cruzados, olhando as estrelas.
"Nada hoje também," ela falou suavemente.
Noel concordou. "Sem pistas, sem suspeitos. Só silêncio."
Charlotte sorriu quieta. "Pelo menos o Erick se divertiu."
Ficaram assim por um instante — tranquilidade, embora breve — até que uma voz familiar quebrou o silêncio.
"Então é por isso que vocês estão sempre juntos ultimamente."
Ambos se viraram.
Marcus saiu de trás de uma das colunas, com as mãos no casaco, olhos afiados, apesar do tom casual.
Noel suspirou. "Você estava espionando?"
"Estava preocupado," disse Marcus, se aproximando. "Agora estou sóConfuso. O que está acontecendo, Noel?"
Noel olhou para Charlotte. Ela não falou, apenas fez um pequeno gesto de aprovação com a cabeça. Ele voltou-se para Marcus.
"Alguém quer matar o Santo," disse Noel, direto.
'Melhor pedir ajuda, é a primeira vez que não tenho nenhuma informação importante.'
Marcus piscou. "O quê?"
"Não é boato," completou Charlotte com tom sério. "Não sabemos quem, mas há uma ameaça, com certeza."
"Tem a ver com a academia?" Marcus perguntou, os olhos estreitando.
"...É possível," disse Noel. "Já vimos infiltrações antes. Pode estar relacionado."
Marcus cerrum as mãos em punhos e depois soltou. "Certo. Vou ajudar. O que fazemos?"
Noel hesitou, depois balançou a cabeça. "Ainda não sei. Não temos nada concreto."
Ele fez uma pausa, os olhos se estreitando.
"O que não me encaixa é o quão rápido as crianças estão sendo adotadas."
Marcus franziu o sobrancelha. "Sim, percebi também. Normalmente, é raro, não é?"
Charlotte olhava entre eles. "Por que isso é preocupante? As famílias são cuidadosamente selecionadas. As freiras estudam cada uma delas."
"Mas não temos como confirmar isso," disse Noel. "Se formos verificar por conta própria, podemos ter certeza. A adoção de amanhã já está agendada — poderíamos ir lá pessoalmente, ver o que são as pessoas."
Marcus assentiu lentamente, com a expressão fechada. "Certo. Se algo estiver errado, vamos descobrir."
Charlotte olhava entre eles, hesitante. "Você realmente acha que eles deixariam passar assim?"
"Não saberemos até tentar," disse Noel. "É a única coisa que posso verificar agora."