O Extra é um Gênio!?

Capítulo 155

O Extra é um Gênio!?

A ilusão ondulou como água ao passo que Noel atravessava, Noir logo atrás. Não houve alarmes, resistência nenhuma — apenas um leve formigamento de estática na pele ao passar pela barreira, seguido de um silêncio artificial que parecia engolir até seus pensamentos.

Do outro lado, era... antigo.

Ruínas se estendiam diante dele — corredores de pedra gravados com símbolos quase apagados pelo tempo, arcos semi-desmoronados e escadarias que se desciam para a escuridão. O ar era seco, sem vento, mas carregava uma presença pesada que pressionava a pele. Não havia cheiro de apodrecimento ou podridão... e, ainda assim, cada frio na espinha de Noel gritava que ele deveria voltar.

Ele não voltou.

'Essas ruínas... estão debaixo da Capital Sagrada. Mas esse lugar não aparece no romance.'

Ele caminhou lentamente para frente, com as botas quase sem som sobre o piso rachado. A mana no ar não estava corrompida, mas algo nela parecia vazio — como se tivesse sido drenada, usada, e deixada lá como uma respiração descartada.

Noir ia à frente, sua silhueta preta fundida às sombras, olhos brilhando em violeta fraco. Ela parou na beirada de um corredor quebrado e rosnou — baixo, em alerta.

Noel se agachou ao lado dela e olhou adiante.

Uma sala se abriu diante deles.

Pilares de pedra subiam até o teto como as costelas de uma besta enterrada. Entre eles, linhas — fileiras de jaulas de ferro. Algumas vazias. Outras... ocupadas.

Crianças.

Corpos pequenos, encolhidos ou sem movimento, deitados sobre pisos de ferro frio, sem acolchoamento, sem cobertores. Algumas tremiam. Outras sussurravam.

Suas faces estavam magras, bochechas afundadas. Veias escureciam sua pele de forma antinatural, percorrendo braços e pescoço como tinta sob vidro. Uma delas tinha proeminências ósseas crescendo na coluna, cobertas por uma pele de pouco tempo curada. Outra criança tinha um terceiro olho, enorme e sem piscar, bem no centro da testa — sua íris estava rachada, sangrando lentamente, outras estavam fundidas a monstros com os quais ele lutara antes.

Uma menina, não mais que seis anos, soluçava silenciosamente na cela. Sua boca tinha sido cosida com um fino fio preto.

Uma voz de menino ecoou de uma cela próxima, áspera e úmida, como se sua garganta fosse de vidro quebrado.

"Dói... dói…"

Ele não chorava. Repetia isso — várias vezes, sem emoção. Como uma gravação travada.

A respiração de Noel ficou presa por um momento. Mesmo para ele, aquilo era —

'Que tipo de aberrações estão criando aqui?' pensou, com a mandíbula apertada.

Outro menino, com a pele manchada de escamas e cabelo descolorido, batiu lentamente a cabeça nas grades, sussurrando: "Acorda... acorda... por favor, me deixa acordar..."

E nenhum dos guardas — figuras vestidas de túnica, posicionadas com precisão — reagiram.

Eles apenas assistiam.

Parados. Silenciosos.

Noel recuou para as sombras, colocando a mão no pescoço de Noir para acalmá-la. Até ela tremia levemente, seu pelo eriçando sob seus dedos.

Isto era um matadouro de almas.

O corredor se estreitou, depois se abriu novamente em uma segunda câmara — essa mais profunda, esculpida com mais precisão. As paredes reforçadas com blocos de pedra escura, novas em relação às ruínas acima, como se alguém tivesse iniciado uma restauração para um propósito diferente.

Noel agachou-se nas sombras de uma coluna quebrada, Noir silenciosamente ao chão ao seu lado, olhos violetas focados e frios.

Abaixo deles, espalhados sobre uma plataforma baixa cercada por correntes e símbolos gravados no chão, havia uma fila de crianças.

Seus corpos estavam frouxos e amarrados, respirando quase sem movimento, suspensos entre o sono e algo muito mais sombrio.

Cabeças pendiam, membros inertes, corpos sem calor ou resistência. Algumas vestiam túnicas rasgadas; outras tinham vestes manchadas de sangue, grandes demais para elas. Ao redor, acólitos com vestes cerimoniais pretas moviam-se em uma sincronização assustadora, verificando pulsações, ajustando restrições mágicas. Os rostos eram escondidos por máscaras de porcelana com expressões vazias.

Dois deles se aproximaram de uma mesa central, falando baixinho.

"...a taxa de fusão estava instável no último sujeito. Sobrevivem três, por pouco."

"A Sexta Pilar está insatisfeita. Ela quer resultados nesta noite. A menina precisa estar pronta."

Os olhos de Noel se aguçaram.

A Sexta Pilar.

Um suspiro pesado e úmido saiu de uma das celas próximas.

Noel se virou para ver — era uma criatura em forma de criança, caída dentro, seu corpo mal cabendo no espaço, membros longos demais para o torso, boca aberta em um grito silencioso. Os olhos ainda eram humanos — como vidro, cheios de consciência — mas o resto estava errado.

F flesh retorcido. Pele que descascava em tiras. Patches de escamas cresciam sobre um músculo que parecia exposto ao ar.

A criatura piscou lentamente, e depois os lábios se moveram.

"...dói... por favor... acabe com isso..."

A garganta de Noel apertou.

Outra cela continha uma figura ainda menor, sem as duas pernas abaixo dos joelhos. Seus braços estavam fundidos em um só, como uma pata. Mas seu rosto permanecia intacto — feminino, jovem. Seus olhos estavam abertos, lágrimas silenciosas escorrendo enquanto ela olhava para o teto, imóvel.

De trás, uma segunda equipe de acólitos saiu por uma porta lateral, empurrando um carrinho de metal. Em cima dele, Mira — a pequena elfa que tinha sido adotada naquela manhã.

Seu corpo não se mexia.

"Ela respondeu melhor que as outras," disse um dos acólitos.

"Alta compatibilidade. O ritual começará assim que a Sexta chegar."

De uma plataforma acima, Noel observava, com os punhos cerrados, até os nós das mãos racharem. Noir rosnou em um aviso sutil, mas ele colocou a mão na cabeça dela, mantendo-a quieta.

Não havia tempo para rosnar ou sofrer raiva.

Ele passou por câmeras de contenção, lajes manchadas por restos de procedimentos anteriores e restrições mágicas gravadas no chão como marcas cerimoniais. Quanto mais avançava, mais entendia — aquilo não era apenas um local de experimentos. Era um campo de operações ativo.

Até que encontrou.

Uma ampla sala circular se abriu abaixo, visível através de uma fresta estreita na pedra. Torres de chamas de azul frio alinhadas nas paredes iluminavam a plataforma central, onde duas figuras se destacavam: um sacerdote de vestes cerimoniais, ajoelhado… e ela.

A freira do orfanato.

Mas não mais a elfa gentil, de pele pálida, que cantava canções de ninar às crianças.

Sua pele agora era obsidiada, o cabelo prateado substituído por uma massa de fios negros como a meia-noite, e uma foice enorme repousava nas costas, como uma extensão do corpo. Seus olhos brilhavam em vermelho sob o capuz, e sua aura distorcia o próprio ar ao redor.

Não precisou que alguém a nomeasse.

Ele estava olhando para a Sexta Pilar.

"A menina respondeu bem," disse o sacerdote abaixo dela.

"Será a primeira a portar um núcleo concluído," respondeu a Pilar. Sua voz era calma — suave, quase maternal — e fez a pele de Noel arrepiar.

"Iniciem os preparativos," ela ordenou. "Quando o sol se pôr, faremos história."

O aperto de Noel no bordo da pedra se tornou mais firme, a respiração curta, mas controlada.

Já tinha visto o suficiente.

Noel se moveu rápido, mas com firmeza, retratando seu caminho pelos corredores em ruínas sem fazer um som. Marcou pontos de referência mentais — rachaduras na parede, padrões irregulares de pedra, uma braçadeira torta de tochas — confiando inteiramente na memória e no instinto.

Noir permaneceu próxima, com o corpo baixo no chão, olhos atentos a cada sombra. Passaram por um dos acólitos patrulhando a periferia do complexo, mas Noel entrou em um ponto cego justo a tempo, esperando em silêncio absoluto até a figura seguir adiante.

Ao se aproximar da barreira onde tinham entrado, Noel ergueu uma pedra pequena, marcada com runas, de um bolso escondido. Com um comando de mana, pressionou-a numa rachadura na parede perto da ilusão.

A runa escureceu e desapareceu.

Se a mana na área mudasse repentinamente — seja por batalha, movimento ou evacuação — ela ativaria e daria o alerta. Só por precaução.

Ele lançou um último olhar pela ilusão, confirmando que não havia observadores, e passou de volta pelo véu, com Noir ao seu lado.

O barulho da Capital Sagrada voltou como uma onda — sinos distantes, vozes abafadas, o vento soprando entre os galhos.

Noel ficou parado por um instante.

Os punhos cerrados. A mente acelerada.

Mas sua expressão permaneceu calma.

Eles estavam levantando um exército sob a capital. E já tinham começado.

Não perdeu um segundo.

Entrou primeiro na sala dos meninos.

Marcus já acordara, sentado na ponta da cama, com o olhar afiado.

Noel não perdeu tempo.

Assim que saiu da barreira, moveu-se rapidamente pelas ruas silenciosas da Capital, igual a uma sombra. Noir corria ao seu lado, silenciosa e focada.

A casa de crianças ficava adiante, as luzes apagadas à noite. Ele entrou pela porta principal, subiu as escadas e chegou ao corredor do dormitório em segundos.

Ele entrou na sala dos meninos primeiro.

Marcus já estava acordado, sentado na cama, com o olhar afiado.

Noel cruzou o olhar com ele. Nenhuma palavra. Apenas um aceno.

Marcus levantou-se imediatamente.

Ao fundo, Laziel mexia-se, sonolento. "Hã...? O que está acontecendo?"

Garron esfregou o rosto e bostejou. "Ei, trouxe as coisas para as crianças ou o quê?"

Noel não respondeu. Já virava, entrando no corredor.

Ele atravessou até a porta ao lado e bateu uma única vez — forte, decidida.

Charlotte abriu quase que instantaneamente.

Os olhos dela se fixaram em Noel, e seu rosto mudou num instante — o sono desapareceu, substituído por uma expressão fria e séria. Ela saiu descalça e pegou seu casaco.

Dentro, Clara levantou-se da cama, franzindo a testa. "Noel? O que está acontecendo?"

Sem resposta.

E o grupo os seguiu.

No corredor, o grupo formou um semi-círculo. Marcus estava tenso. Charlotte já calçava as botas. Os demais ainda pareciam confusos,murmuros de perguntas no ar.

Noel os olhou, com a mandíbula cerrada, olhos firmes.

"Todos. Para a sala dos meninos. Agora," ele ordenou, com voz baixa, mas urgente.

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