
Capítulo 145
O Extra é um Gênio!?
A luz do fim da manhã filtrava-se pelas janelas estreitas do dormitório da orfanato, lançando raios dourados suaves pelo piso de madeira. O relógio na parede marcava mais de 8h da manhã.
Marcus foi o primeiro a mexer-se.
Ainda enrolado no cobertor, piscou cansado para a cama acima dele—que era de Noel.
Ele sorriu de canto.
“Ei, Laziel,” ele sussurrou.
Laziel, encurvado na cama oposta, abriu um olho. “O que foi?”
Marcus fez um gesto para que ele se aproximasse. “Tenho uma ideia.”
Garron, já sentado, ergueu uma sobrancelha. “O que vocês dois estão planejando agora?”
“Shh,” Marcus sussurrou sorrindo. “Só assista.”
Laziel desceu da cama e se inclinou perto, enquanto Marcus fazia uma concha com a mão ao redor da orelha dele.
O rosto de Laziel se abriu em um sorriso.
“Ah, gostei dessa.”
Ele se levantou, estendeu a mão na direção da cama de Noel e murmurou: “Bolha de Água.”
A mana começou a girar no ar, se coalescendo em uma esfera flutuante de água cristalina que cintilava sob a luz da manhã. Ela pairou por um instante—perfeitamente imóvel—bem acima da cabeça de Noel.
Então Laziel a soltou.
Estouro.
Noel saltou ereto, completamente encharcado. Seus cabelos dourados grudavam na testa, pingando. Sua expressão inicialmente ficou vazia—totalmente sonolento—e depois lentamente se transformou em algo entre confusão e raiva fria.
O cômodo ficou silencioso.
Então veio a risada. Marcus virou-se de costas, segurando o estômago. Laziel se curvou de tanto rir. Até Garron soltou uma risadinha curta, embora tentasse esconder.
Noel os olhou fixamente. Sem palavras. Sem gestos. Apenas... encarou.
Depois, sem fazer um som, desceu da cama superior—sem camisa, molhado e furioso—e caminhou em direção ao banheiro sem olhar para eles.
“Ei, não leve pra pessoal!”, chamou Marcus. “Foi só uma brincadeira! Certo, galera?”
Garron assentiu solenemente. “Uma brincadeira amistosa.”
O único som foi o estrondo ao fechar a porta do cômodo.
“...Ele realmente não é uma pessoa matutina,” murmurou Laziel.
Noel saiu da sala dos ajudantes, ainda encharcado da cabeça aos pés. Seus cabelos loiros estavam molhados e bagunçados, grudando na testa. Água escorria pelo torso nu enquanto caminhava casualmente pelo corredor, com uma toalha jogada sobre um ombro. Sua expressão ainda carregava aquele feio sorriso de irritação de quem foi despertado às pressas.
Quando virou a esquina em direção aos banheiros, duas figuras se aproximaram do outro lado—Charlotte e Clara, conversando baixinho.
O olhar de Charlotte caiu sobre ele, e seu rosto ficou vermelho de repente.
“Você… pervertido—!”
Antes que pudesse terminar a palavra, Noel apareceu calmamente, colocando a mão sobre a boca dela.
“Shh,” ele sussurrou. “Vai acordar as crianças.”
Charlotte parou de caminhar, os olhos arregalados, a voz abafada entre indignação e vergonha. Seu rosto ficou ainda mais vermelho agora que a mão de Noel cobria seus lábios.
Clara pisqueou, surpresa. “Charlotte, você está bem? Ele fez alguma coisa com você?”
Charlotte afastou-se de repente, tossindo de alto astral, olhando com raiva para Noel. “Estou bem, obrigada por perguntar. Ele é um pervertido traidor, isso sim.”
Clara levantou uma sobrancelha. “Acho que você está julgando mal. Ele... é estranho, sim, e não fala muito. Mas acho que ele só precisa de tempo.”
Charlotte levou a mão ao queixo, concordando dramaticamente. “Ah, entendi… ele é lento. Coitadinho.”
Clara pinçou o arco do nariz. “Isso não é—deixa pra lá. Vamos ajudar com o café da manhã.”
As meninas seguiram em diante, e Noel, com expressão difícil de interpretar, retomou seu caminho ao banheiro.
Ele murmurou para si mesmo: “Só quero que me matem logo.”
No banheiro, a luz da manhã filtrava-se pela pequena janela de vitral, lançando faixas coloridas pelo piso de ladrilhos. Noel estava secando o cabelo com a toalha, o torso ainda nu, quando de repente ouviu passos suaves atrás dele.
Ele virou de instinto, os músculos tensos—apenas para encontrar uma criança pequena, talvez com cinco anos, de pé ali silenciosa. O garoto tinha cabelo castanho curto, pele pálida e olhos grandes que olhavam fixamente para ele.
Noel estremeceu.
'Que—?! Quase acertei ele na parede!'
Ele exalou profundamente, tentando acalmar o coração, e olhou para o garoto.
“Perdeu-se ou algo assim?” perguntou, ainda secando a cabeça.
A criança não respondeu. Apenas permaneceu ali, olhando fixamente.
Noel arregalou os olhos. “Oi, menino, você está bem?”
Ainda sem resposta. Sem movimento. Apenas aquela calma assustadora—até que, de repente, o lábio do garoto tremeu e ele começou a chorar.
“Ah, não!.” Noel entrou em pânico. “Por que agora?!”
O choro ecoava pelas paredes do banheiro. Noel se abaixou, tentando de tudo—agitando as mãos, fazendo caretas engraçadas, até oferecendo a toalha como capa.
“Ei, pare de chorar. Por favor? Olha! Cara engraçado!”
Ele encheu as bochechas e o choro ficou mais alto.
“Ok, ok—que tal isso?”
Ele apontou um dedo para cima e sussurrou: “Espreitador de fogo.”
Uma pequena chama apareceu na ponta do dedo indicador. O fogo tremulava suavemente, quente e inofensivo, dançando como uma vela. O menino resfriou, seus soluços acalmando-se na fascinação. Seus olhos se arregalaram, fixados na chama.
'Finalmente', Noel suspirou aliviado. 'Fogo. Fogo sempre funciona.'
Mas justo quando a criança começava a sorrir—
BATIDA!
A porta do banheiro se abriu de repente.
Charlotte estava na entrada, com os olhos arregalados de horror.
“Seu insano!!” ela gritou. “Você ia botar ele para queimar vivo?!”
Antes que Noel pudesse abrir a boca, ela correu em sua direção e o derrubou no chão. Ele caiu com um estrondo alto, a cabeça batendo violentamente contra o chão de ladrilhos.
“ARGH! O que há de errado com você?!”
Sangue escorria de um pequeno corte na cabeça dele.
Charlotte pairou sobre ele, furiosa. “Não finja que não! Eu vi a chama! Você ia cozinhar o pobre do menino!”
“Tava tentando acalmá-lo! Ele não parava de chorar!”
“Ah… desculpe,” ela disse com uma risadinha tímida. “Ups.”
“Ups?! Você fez meu crânio doer!”
Ela ajoelhou-se ao lado dele e murmurou uma desculpa tão baixa que quase não se ouvia.
“...O quê?”
“Disse que sinto muito,” ela sussurrou mais alto, desviando o olhar. “Agora fica parado.”
Charlotte estendeu a mão sobre a cabeça dele e lançou uma magia de cura suave. Uma luz dourada tênue envolveu a ferida, fechando-a rapidamente—embora o sangue seco ainda estivesse no cabelo e no pescoço dele.
“Cura.”
Noel resmungou: “Acho que vou precisar daquele banho mesmo.”
Depois, olhou para o garoto, que ainda observava com olhos arregalados. “Leva ele para o café da manhã, por favor?”
Charlotte assentiu. “Vamos lá, pequeno. Vamos te arrumar comida antes que o 'pervertido' queime alguém mais.”
Noel lançou um olhar de desdém para ela.
Charlotte apenas sorriu docemente e acenou, pegando a mão do garoto e saindo do banheiro.
Noel ficou sentado ali no chão, em silêncio, e então murmurou:
“...Essa missão vai acabar comigo.”
Charlotte voltou ao salão comum do orfanato, com o pequeno menino de mãos dadas. Os outros estudantes já estavam finalizando os preparativos do café—pratos sendo colocados, vapor subindo das panelas de mingau, o som de colheres de madeira batendo enchendo o ambiente.
Marcus percebeu-a de imediato.
“Charlotte, onde você estava? E—espera, é sangue na sua manga?”
Clara virou-se também. “O que aconteceu?”
Charlotte piscou. “Ah, hum… eu abri a cabeça do Noel.”
Clara soltou a colher que segurava. “Fez o quê?”
Garron levantou uma sobrancelha enquanto ainda mexia na panela. “Isso explica a gritaria.”
Charlotte levantou as mãos rapidamente. “Não é bem assim! Eu pensei que ele ia queimar o Erick—esse pequenino—então o derrubei.”
Laziel, sentado perto da janela, estreitou os olhos. “Você achou que Noel ia queimar uma criança?”
“Eu pirei, tá bom?” Charlotte fez bico. “Ouvi o choro, entrei, vi fogo, e—puf. Instinto.”
Laziel se levantou e foi até ela. “Vem cá um segundo.”
Ele se inclinou e sussurrou: “Noel salvou minha vida. Quando teve o incidente na academia.”
Charlotte arregalou os olhos, confusa. “Como assim?”
“É só isso que posso dizer. O caso foi abafado para evitar pânico público, mas ele me salvou e a outros. Se acha que ele ia machucar uma criança, não conhece nada dele.”
A expressão de Charlotte suavizou. “…Ah.”
Garron acrescentou, vindo de trás: “Noel é meio brusco, mas a cabeça dele sempre tá no lugar.”
Marcus concordou. “Exatamente. Além do mais, acho que ele só queria manter a criança calma. Usar um estalo de magia de fogo não é nada se impediu o menino de berrar.”
Clara cruzou os braços. “Pelo menos pediu desculpa?”
“Disse que sim,” Charlotte respondeu com um suspiro silencioso. “Ele tava sangrando, e eu curei.”
Laziel levantou uma sobrancelha. “Ainda tava sangrando depois?”
Charlotte desviou o olhar. “… Bem, sim, a magia fechou a ferida, mas não fez a bagunça sumir.”
Garron sorriu. “Então agora ele anda por aí sem camisa, molhado, e com sangue no cabelo?”
Marcus recostou-se e riu. “Ainda bem que ele não te jogou pela janela.”
Charlotte resmungou. “Disse que era pra eu ter pedido desculpas.”
Marcus sorriu. “Ele não é do tipo que guarda rancor. Acho.”
Charlotte piscou. “Você acha?”
O grupo deu início a uma risada leve enquanto Charlotte suspirava, olhando de volta na direção do corredor onde Noel tinha ido.
'Tomara que ele não me odeie agora…' pensou ela, retocando o cabelo na manga da blusa.
'Mas… ele parecia até meio legal segurando aquele fogo…'
Ela corou levemente, depois virou rapidamente a cabeça.
“Estúpida. Ele é um pervertido. Um traidor. E agora está sangrando por minha causa.”
Ela olhou para Erick, que sorria inocentemente para ela.
“Vou compensar ele,” ela sussurrou baixinho.
“…Eventualmente.”