
Capítulo 146
O Extra é um Gênio!?
O sol já se erguia, espalhando raios dourados pelas altas janelas em arco da sala de refeições do orfanato. Um murmúrio suave de conversas e risadas preenchia o espaço enquanto as crianças terminavam o café da manhã sob a suave orientação das freiras. Em uma das longas mesas de madeira próximas ao fundo, Marcus, Garron, Laziel, Clara e Charlotte estavam esperando — conversando de forma casual, embora um leve ar de expectativa permanecesse no ar.
Quinze minutos depois, Noel entrou.
Seus passos eram calmos, firmes. Vestia uma camisa preta folgada, enfiada em calças pretas ajustadas, com as mangas levemente arregaçadas. Seu cabelo loiro, ainda bagunçado após o banho, permanecia desgrenhado, e ele havia trocado seu equipamento habitual por botas pretas simples, porém limpas.
Sem dizer uma palavra, puxou a cadeira vazia ao lado de Marcus e se sentou.
"Bom dia", disse Noel, com voz baixa, mas comedido.
Marcus se virou para ele. "Bom dia… Está bem?"
Noel pegou um pedaço de pão da cesta compartilhada e deu uma mordida. "Vamos ver. Acordei todo ensopado e com uma pancada na cabeça antes do café. Então, não, não foi exatamente uma manhã das melhores."
Clara soltou uma risadinha, e Laziel riu com a boca cheia.
Marcus ficou envergonhado. "Certo… sobre isso. Desculpa."
Garron tentou levantar o ânimo. "Foi mais como um “acordar com um susto”! Ajuda a fortalecer o caráter, sabia?"
Noel não respondeu. Simplesmente o encarou, com expressão vazia. Garron levantou as mãos numa postura de rendição, sorrindo.
Enquanto isso, Charlotte mal tinha tocado sua comida. Parecia incomumente quieta, com os olhos fixos no prato.
"…Desculpa", murmurou, num sussurro quase inaudível.
Noel olhou para ela por um momento. "Já te falei, estou bem."
"Viu?" Marcus cutucou ela. "Noel não é do tipo de cara que guarda rancor."
'Desde quando você acha que me conhece bem assim?', Noel pensou, reprimindo a vontade de arquear uma sobrancelha.
Retomou sua comida, a dor de cabeça ainda latejante, mas controlável. Comparado com tudo o que tinha passado recentemente, uma batida e um cobertor encharcado eram quase um luxo.
Após o café, o grupo se dirigiu ao pátio aberto atrás do orfanato — um espaço amplo cercado por sebes floridas e baixos muros de pedra. Era a hora dedicada aos "estudos", embora parecesse mais uma apresentação de magia do que algo acadêmico. As crianças se agrupavam em pequenos grupos, com olhares cheios de curiosidade.
Clara ficou perto de uma fonte, conjurando delicadas formas de água suspensas no ar — esferas giratórias, cisnes dançantes, até uma pequena cascata que fazia as crianças pularem de alegria. Laziel circulava ajudando com feitiços básicos, embora seu controle de mana deixasse evidente que ele não era das melhores em magia vistosa. Manteve-se com ilusões menores, conjurando faíscas e luzes piscantes que os mais jovens perseguiam pelo gramado.
Garron ajoelhou-se perto de uma árvore, fazendo movimentos dramáticos. Alguns garotos corajosos subiram em seus ombros largos, rindo enquanto ele se levantava e girava lentamente.
E Marcus — sempre o “garoto dourado” — estava cercado por pelo menos uma dúzia de crianças. Usando sua afinidade com magia da terra, moldava argila macia em castelos e túneis em miniatura. As crianças ajudavam com entusiasmo, rindo quando torres desmoronavam ou pequenas pontes de pedra se formavam.
Noel ficava de lado, de braços cruzados, simplesmente observando. Seu olhar varreu o pátio até parar numa figura familiar sentada sozinha numa praça próximo ao muro. O menino de antes — aquele do incidente no banheiro. Corpo pequeno, cabelo castanho, olhos distantes.
Noel caminhou lentamente até ele, com calma e despreocupação.
"Oi", disse. "Acho que fomos de primeira mal na nossa primeira conversa. Sou Noel."
O menino não respondeu. Apenas o encarou, imóvel.
"…Não é de falar muito, hein?" Noel inclinou a cabeça. "Quer ver uma magia de fogo?"
Ao ouvir isso, o menino deu uma leve assentida.
Noel se ajoelhou na frente dele e estendeu a mão. "O trato é o seguinte: você precisa me dizer seu nome primeiro. Combina, né?"
O menino hesitou. Então, silenciosamente — tão silenciosamente que Noel teve que se esforçar para ouvir — ele sussurrou: "Erick."
Noel sorriu discretamente. "Erick, hein? Nome bom. Quer ver a chama de novo?"
Erick assentiu, com os olhos bem abertos de interesse.
Noel levantou um dedo e sussurrou: "Lança-chamas."
Uma saudável correria de fogo saiu de sua palma, girando como um cometa em miniatura. Erick se inclinou para frente, com os olhos brilhando. Noel começou a modelar a chama, transformando-a em pássaros, anéis giratórios e laços abstratos pulsantes de luz laranja.
"Gostou?" perguntou Noel.
Erick voltou a assentir, com os lábios entreabertos em admiração.
Antes que pudessem continuar, uma voz suave chamou: "Certo, criançada. Hora da oração matinal."
Uma freirinha loira, de orelhas pontudas visíveis por entre seus cabelos ondulados, apareceu sorridente, aplaudindo enquanto as crianças começavam a se reunir.
"Vem, Erick", disse docemente. "É hora."
Erick olhou para Noel uma última vez antes de se levantar silenciosamente e seguir o grupo.
"A gente faz mais depois", disse Noel, após ele.
De repente, Charlotte apareceu ao seu lado.
"Você tocou o Erick?" ela perguntou, surpresa.
Noel piscou. "Sim. Apertei a mão dele. Por quê?"
Charlotte parecia ter visto um fantasma. "Ele nunca deixa ninguém encostar nele. Nem eu."
"Hm. Talvez ele só precise de tempo."
Charlotte inclinou a cabeça. "Tipo você?"
"O quê?"
"Nada. Eu vou participar da oração com as crianças." Ela virou-se, acenando de volta para ele. "Até mais, traidor pervertido."
"Tsc."
'Não sou pervertido… Por que estou sempre cercado por mulheres estranhas?'
Ele respirou fundo, balançando a cabeça.
Com as crianças indo embora e o pátio momentaneamente silencioso, apenas o grupo de estudantes permanecia. Clara e Laziel conversavam perto do poço. Garron sentava-se num banco, descascando uma maçã com uma faca pequena. Marcus se aproximou de Noel, com uma lâmina de treino de madeira na mão.
"Quer fazer uma batalha?" perguntou, sorrindo.
Noel olhou para ele, depois para a área improvisada de treino na sombra do lado oeste da capela.
"Com certeza", respondeu. "Preciso aquecer."
'Além disso… estou há um tempo estagnado em [Progresso Atual do Núcleo: 08,53% – Núcleo de Mana: Adepto]. Da última vez, ganhei 0,40% após cinco dias de treinamento no navio. Se me esforçar bastante neste mês, talvez consiga evoluir de verdade… e seguir a pista do círculo ao mesmo tempo.'
Garron jogou mais uma espada para Noel, que a pegou distraidamente.
"Se vocês quebrarem algo, as freiras vão acabar com a cabeça de vocês", Laziel avisou, numa brincadeira.
"Entendido", respondeu Marcus, entrando na área de treino — um pedaço de terra já marcado pelos treinos anteriores.
Os dois se enfrentaram, ambos segurando as espadas de madeira em posições de guarda relaxadas. Marcus tinha uma postura calma, ponderada. Noel, mais solto, com os ombros levemente inclinados, o olhar fixo.
Clara e as outras se sentaram ali perto, percebendo que vinha uma boa luta.
"Primeiro a levar três golpes limpos?" sugeriu Marcus.
Noel assentiu. "Combinado."
Foi dada a partida.
Marcus avançou rápido e direto. Noel desviou, com as espadas de madeira batendo com estrondo. A troca foi rápida, mas sem imprudência — ambos se testando. Marcus tinha força, mas Noel tinha o timing.
Noel se abaixou sob um golpe amplo, contra-atacando com uma estocada nas costelas de Marcus — quase bloqueada por uma defesa apressada.
"Um — zero", murmurou Noel.
Marcus sorriu, ajustando o grip. "Você não está enferrujado, hein."
"Nunca estive."
Eles voltaram a se enfrentar. Poeira levantou-se. O som de madeira batendo em madeira ecoou pelo pátio. Garron assobiou discretamente. Clara inclinou-se para frente, observando atentamente.
Marcus tentou derrubar Noel com um movimento de calcanhar. Noel pulou, girou, aterrissou e tentou uma estocada rápida na clavícula.
Bloqueada.
Contragolpe.
Desvio.
E então — Marcus fingiu-se de lado e tocou as costas de Noel.
"Um — um."
Noel respirou fundo, enxugando o suor da testa.
Terceira rodada.
Desta vez, nenhum dos dois economizou. A lâmina de Noel se moveu como um borrão, dançando ao redor da defesa de Marcus. Marcus contra-atacava com golpes pesados e arqueados, tentando romper a agilidade de Noel.
Estavam equilibrados.
Até que —
Noel entrou de dentro de um golpe e, com uma rápida torção do pulso, afastou a espada de Marcus. E avançou, com delicadeza, mas com firmeza.
"Dois — um", disse Noel.
Marcus sorriu, cansado, mas com satisfação. "Certo. Última rodada."
Voltaram a se colocar frente a frente, agora mais sérios.
Noel avançou, fingindo-se de baixa. Então virou e atacou o ombro de Marcus.
Marcus bloqueou — por pouco — e sua postura se abriu levemente.
Noel girou, abaixou-se e varreu as pernas de Marcus.
Estrondo.
Silêncio.
Marcus virou de costas para o céu, depois riu. "Ok… três — um."
Noel estendeu a mão. Marcus a segurou, ajudando-o a se levantar.
"Você está em forma", disse Marcus. "Afiado."
"Tenho coisas na cabeça."
"Dá pra ver."
Eles voltaram ao grupo. Laziel bateu palmas lentamente. "Foi até divertido."
Clara sorriu. "Vocês realmente não sabem jogar fácil, hein?"