
Capítulo 148
O Extra é um Gênio!?
O sol do meio-dia lançava raios longos no pátio do orfanato, aquecendo as antigas paredes de pedra e os trechos de grama desgastada onde as crianças brincavam. Risadas ecoavam no ar— suaves, distantes, como sinos de vento ao sopro de uma brisa leve.
Noel estava à beira do terreno, com um pé sobre uma pequena bola de couro. Do outro lado, a poucos passos, estava Erick. O menino observava com atenção, o cabelo castanho bagunçado pelo vento, as mãos pequenas cerradas ao lado do corpo.
Noel levantou uma sobrancelha.
"Tá pronto?"
Erick deu um pequeno aceno de cabeça.
Com um movimento suave, Noel empurrou a bola para frente. Ela rolou direto na direção dos pés de Erick.
O garoto entrou em pânico por um instante—as pernas tremiam, quase como se fosse perder a bola—mas então ele estendeu um pé e a parou com uma precisão surpreendente. Olhou para cima, só por um instante, e sorriu.
'Isso é novo,' pensou Noel. 'Ele acabou de sorrir?'
O garoto empurrou a bola de volta.
Noel parou a bola facilmente e chutou de novo, agora com um pouco mais de força. A passada foi mais longa, obrigando Erick a correr alguns passos antes de pará-la.
Repetiram o movimento. De novo. E de novo.
Logo, Erick começou a rir—primeiro devagar, depois mais alto. Ele não falou nada, não disse uma palavra, mas o brilho nos olhos dele já dizia tudo.
Outras crianças notaram, mas nenhuma entrou na brincadeira. Elas apenas olhavam de relance enquanto continuavam suas próprias atividades. Erick, como sempre, ficava afastado. Exceto hoje, tinha alguém do seu lado.
Noel fingiu tropeçar após uma passada rápida de retorno e caiu dramaticamente no chão.
"Argh! Fui derrotado!"
Erick tampou a boca para impedir uma risada. As bochechas ficaram avermelhadas.
Noel recostou-se na grama, com as mãos atrás da cabeça, olhando para o céu azul brilhante.
"Você tá melhorando. Acho que vou perder na próxima."
Erick inclinou a cabeça e sentou ao lado dele—ainda sem dizer uma palavra, mas mais perto do que antes.
'Ele está se abrindo… mesmo que seja só um pouco. Isso é bom.'
E por um momento, sob o céu dourado e cercado por ecos de alegria distante, o mundo parecia simples.
Chegava a ser até simples demais.
'O que provavelmente significa que vai ficar complicado de novo logo, hein,' pensou Noel com um sorriso contido.
A tarde passou sem grandes contratempos. Após ajudar no almoço e acenar para Marcus e Clara, que brincavam com as outras crianças, Noel anunciou sua saída sob o pretexto de verificar a adega. Ninguém questionou—ele era silencioso, responsável, talvez um pouco estranho, mas útil.
À noite, enquanto o sol desaparecia atrás dos telhados da Capital Sagrada, Noel se posicionou perto da parede do corredor da capela. Os corredores estavam silenciosos agora, iluminados apenas por lâmpadas de vidro encantado que piscaram por um fio. Os demais órfãos já estavam na cama, e os sacerdotes e sacerdotisas tinham voltado às suas quartos para as orações noturnas.
Marcus já estava quase dormindo, deitado na cama de baixo. Garron folheava um livro encadernado em couro à luz de vela, enquanto Laziel murmurava algo no sono, enroscado sob um cobertor grosso.
Noel fechou a porta silenciosamente atrás de si.
Foi até sua cama, com calma e precisão, e slocou-se sob o colchão, puxando um pequeno pacote de lençóis. Praticamente com habilidade, amarrou-o e colocou lá dentro sua camisa, calças e um saco de ervas secas, para simular o formato e o volume de um corpo dormindo.
Com o cobertor cuidadosamente por cima, o manequim parecia quase real demais.
'Me molharam com água dois dias atrás. Não acho que vão conferir de novo. Se o fizerem, vou atuar como um cadáver possuído por um demônio.'
Ele sorriu de canto, pegou seu casaco e saiu lentamente, silencioso como uma sombra.
A brisa agora era mais fria, tocando os claustros silenciosos enquanto Noel se movia pelos corredores internos da igreja.
Desceu uma escada estreita—uma que tinha decorado antes, fingindo ajudar a carregar suprimentos. Levava ao corredor do sul, perto do subsolo.
Noel parou no canto, fora de vista.
'Dois guardas. Igual ao ontem. Nenhum distintivo visível... mas aquele padrão—sem dúvida, de alto escalão. Só os membros do círculo interno ficam aqui.'
Ele se agachou, com os olhos estreitando.
Um dos guardas virou levemente, fitando o colega em um sussurro baixo demais para Noel ouvir.
'Dois guardas. Mesmo esquema do outro dia. Sem crachás na roupa... mas esse padrão—definitivamente de posto elevado. Só os do círculo interno deixam eles aqui.'
Ele se agachou ainda mais, com a visão aguçada.
Um deles virou para o lado e falou com o colega em um murmúrio quase inaudível.
Noel focou. Não havia passagem secreta, desculpa, disfarce ou chance de passar por ali.
'Só a alta hierarquia pode entrar. Vai precisar de um rosto para entrar mesmo.'
Ele cerrrou a mandíbula.
'Pois é... A Charme da Vela do Véu, hein. Parece que vou precisar te usar de novo.'
Com um último olhar, virou-se e se dissolveu nas sombras, sumindo pelas escadas tão silenciosamente quanto chegou.
Quando Noel chegou ao corredor que levava aos alojamentos, as lâmpadas já estavam mais fracas, projetando halos dourados suaves na pedra gasta. Agora, o orfanato estava em silêncio—uma paz que fazia cada passo parecer mais alto do que realmente era.
Ele se moveu rapidamente, as sombras envolvendo seus passos, até chegar à porta do dormitório dos meninos. Ainda estava entreaberta, exatamente como deixara.
Dentro, o som familiar de respiração calmo preenchia o espaço.
Marcus estava deitado de lado, roncando suavemente. Garron estava caído na cadeira perto da janela, com os braços cruzados. Laziel, sob um grosso cobertor, movia-se lentamente, escondendo tudo além de alguns fios de cabelo prateado.
Noel entrou, fechou a porta cuidadosamente e se aproximou de seu beliche. O pacote de cobertores arranjado ainda estava lá—intocado.
'Ótimo. Aposto que pensaram que eu estava dormindo como um cadáver.'
Ele ajeitou o corpo falso, desmontou-o e subiu sem fazer barulho. O Colchão rangiu, mas nada suficiente para acordar alguém. Ele respirou fundo, relaxando os músculos pela primeira vez em horas.
Justo quando se acomodava sob as cobertas, algo se moveu no corredor.
O som de passos.
Um leve barulho de roupa se mexendo.
Através da fresta da porta entreaberta, uma figura passou.
Uma garota de branco.
Charlotte.
Ela tinha acabado de sair do banheiro, com a toalha na mão, o cabelo rosa molhado e meio bagunçado. Parou em frente à porta dela—bem do outro lado do corredor.
Então, por um breve instante, olhou por cima do ombro.
Seus olhos passaram por um flash de cabelo dourado desaparecendo nas sombras da sala dos meninos.
Ela piscou.
'Foi… Noel?'
Mas ela não investigou.
Pelo contrário, deu um leve encolhimento de ombros, sussurrando "Pervertido" entre dentes com um sorriso meio de lado, e entrou em seu quarto, fechando a porta silenciosamente atrás de si.
Noel, já deitado de costas, não a tinha visto. Mas algo o fez olhar na direção da porta de qualquer forma.
'... Melhor que não seja alguém importante.'
Ele fechou os olhos.
O silêncio voltou a tomar conta.
O sono veio logo depois.