
Capítulo 149
O Extra é um Gênio!?
A luz dourada do final da tarde se espalhava pelo pátio enquanto Charlotte terminava de ajudar com a última das brincadeiras das crianças. Ela estava ajeitando a saia quando Noel se aproximou por trás.
"Ah? Pervertido? Sou eu?"
Noel suspirou. "Nem vou perguntar como essa alcunha pegou."
Charlotte sorriu de maneira inocente e radiante. "Você mereceu. O que você quer?"
"Preciso te perguntar uma coisa," ele disse, com tom calmo, mas sério. "Tem sala de confissão na igreja?"
Charlotte piscou. "Claro que tem. Por quê?"
"Estava pensando em usá-la."
Ela inclinou a cabeça, confusa. "Quer dizer... para se confessar?"
Noel assentiu uma vez. "Sim, para quê mais seria?"
Ela ficou surpresa. Ele não parecia do tipo que acreditava em penitência. Mas não insistiu.
"Bem, geralmente ficam abertas ao pôr-do-sol. Sempre tem alguém de plantão para ouvir. É só passar pelo corredor lateral, pegar a terceira porta à esquerda. Está marcada com uma cruz branca."
"Entendi."
Ela hesitou por um momento, depois acrescentou com um sorriso maroto: "Uau, nunca imaginei que veria Noel Thorne, o grande, indo se purgar."
Noel não respondeu. Apenas virou as costas e foi embora, com as mãos nos bolsos do sobretudo, caminhando em silêncio.
Charlotte assistiu à saída dele, piscando uma vez.
'Estranho… mas talvez seja um bom sinal.'
Ela sorriu suavemente, então voltou às suas tarefas, sem perceber que, logo mais, teria que ouvir do outro lado da parede da confissão.
O tom cálido do entardecer se aprofundava em sombras mais frias quando Noel entrou silenciosamente na igreja. O salão principal estava quase vazio, salvo pelos momentos de oração silenciosa de algumas freiras e crianças se preparando para o serviço vespertino.
Ele seguiu as indicações que Charlotte lhe dera—corredor lateral, terceira porta à esquerda, marcada com uma cruz branca.
A cabine de confissão tinha iluminação fraca, dividida em duas compartimentos pequenos por uma divisória de madeira fina coberta com tecido. Noel entrou no lado esquerdo e sentou-se, o ar dentro cheirando a incenso e madeira antiga. Ficou em silêncio por um momento.
Então, uma voz suave do outro lado falou.
"Pode começar."
Noel olhou para a grade por um segundo. A voz era gentil, feminina. Muito suave para identificar. Poderia ser qualquer pessoa. Tudo bem.
"Não tenho sido uma pessoa boa," ele disse, com tom baixo e uniforme.
Ele fez uma pausa.
'Fugi de tantas coisas. Deixei pessoas para trás para me salvar. Lembro-me…'
Um flash de memória: um campo de batalha escuro, fumaça e sangue. Um homem estendendo a mão para ele, olhos cheios de dor e medo. O próprio corpo de Noel, virando-se de costas.
"Fiz escolhas que outros chamariam de monstruosas. Abandonar pessoas que me importava… não porque quis — mas porque tinha que sobreviver."
Sua voz permaneceu firme, embora fosse ficando mais silenciosa.
"Também matei. Não por raiva ou crueldade, mas porque não tinha escolha. E não me arrependo. Não mais. Mas sei que deveria."
Um silêncio passou.
"Provavelmente farei de novo. Se for para sobreviver, continuarei tomando essas decisões. Não vou me fingir de alguém que não sou."
Ele exalou lentamente.
"Talvez isso seja karma. Talvez tudo o que estou vivendo agora seja apenas o equilíbrio se corrigindo. E talvez eu mereça."
Então, Noel se levantou, ajustando a parte da frente do sobretudo.
"É só isso."
Ele não esperou resposta. A pessoa do outro lado ficou em silêncio.
Ao sair da cabine e fechar a porta suavemente atrás de si, Noel lançou um breve olhar ao teto alto da catedral, depois saiu pela porta lateral.
Ele tinha algo mais a fazer.
O eco de seus passos era o único som no corredor agora. Noel avançou com passos discretos, com o capuz rente ao corpo, evitando a luz que entrava pelas janelas arqueadas. A noite já estava avançada e silenciosa—a maioria já tinha ido dormir.
Chegou à porta lateral da ala de confissão, espaço reservado a clérigos e funcionários da igreja. A porta rangeu suavemente ao abrir, e ele entrou.
Não voltou à cadeira onde havia se confessado antes. Em vez disso, percorreu o corredor até a cabine usada pelo padre ou pela freira designada naquele dia.
'Tem que haver alguma coisa. Um fio. Qualquer coisa.'
Ele levantou um dedo e sussurrou: "Chama".
Uma pequena língua de fogo, controlada, acendeu na ponta. Seu brilho iluminou o espaço de madeira apertado.
E lá estava.
Preso na fissura entre o assento de madeira e o encosto—delicado, inconfundível.
Um fio longo de cabelo rosa.
A chama estremeceu por um segundo ao perder o foco. O coração de Noel deu um pulo, alto e agudo.
"Droga."
Ele ficou observando o fio, imóvel.
"Sabia. Sabia que aquela voz era suave demais, gentil demais. Mas era ela mesmo."
Sua mente voltou a tudo o que disse. Tudo o que revelou. Cada momento que achava que era privado, seguro, selado na anonimidade.
'Ela ouviu tudo. Tudo.'
Ele respirou fundo, acalmando-se.
"Ela não falou nada… Talvez ela não diga. Mas agora… preciso ser ainda mais cuidadoso."
Ele estendeu a mão e, com cuidado, puxou o cabelo entre dois dedos, colocando-o num pequeno frasco.
Depois, sem dizer mais nada, apagou a chama e recuou pelo corredor.
Assim que chegou ao corredor que leva aos aposentos, vozes familiares ecoaram em sua direção. Marcus, Garron e Laziel ainda estavam acordados, conversando na área comum entre os dormitórios masculinos. Noel continuou seus passos de forma casual, aproximando-se.
"Boa noite," disse baixinho.
Eles olharam para cima e assentiram. "Boa noite," respondeu Marcus, acenando.
Mas os olhos de Noel não estavam neles.
Estavam em Charlotte.
Ela tinha acabado de voltar do banheiro no fim do corredor, as mãos ainda molhadas secando-se com um pano.
Por um momento breve, seus olhares se cruzaram.
O olhar de Charlotte se arregalou levemente. Ela ficou parada, com o pano suspenso no ar.
Noel não falou nada. Simplesmente a encarou por um segundo a mais do que o habitual… depois virou-se e entrou na sala dos rapazes.
Charlotte permaneceu lá, estática.
'Ele sabe…'
Seu coração acelerou.
'Ele sabe que fui eu.'
E, no entanto… ele não disse nada.
Assim como ela.