
Capítulo 136
O Extra é um Gênio!?
A sala de jantar tinha uma elegância contida, típica dos elfos—paredes de pedra branca entremeadas por linhas verdes suaves, detalhes dourados nas altas janelas em arco e um lustre de prata polida acima da longa mesa. O ar estava tranquilo, e os criados já haviam terminado de servir a comida. Não havia barulho além do ocasional tilintar de talheres.
Todos estavam acomodados.
Albrecht Thorne sentava-se na cabeceira da mesa, como era esperado. À sua direita, estava Serina, e à sua esquerda, Lady Mirelle. Nos assentos mais próximos dele estavam Kael, Damon, Livia e Sylvette.
Noel estava mais afastado, no final da mesa, sozinho. A distância não era grande, mas era intencional—claramente arranjada para manter a imagem de inclusão, ao mesmo tempo em que permanecia separado. Para ele, estava ótimo assim.
De onde estava, podia ver a família conversando educadamente. Estavam sorrindo, rindo de piadas simples, falando como se fosse qualquer outra noite. Nada tinha mudado—e, no entanto, tudo tinha.
A Lady Mirelle virou o rosto na direção dos filhos com uma pose de elegância treinada.
"Então, Kael, Damon… como foi na academia militar?" ela perguntou, com um tom leve, mas genuinamente curiosa. "Suas cartas sempre foram tão breves."
Kael assentiu rapidamente, mantendo a postura ereta.
"Foi intenso," admitiu. "O treinamento foi... implacável."
Damon soltou uma respiração discreta, com a voz mais baixa. "Mais do que esperávamos. Disciplina, exercícios, nada de tratamento especial por sermos nobres."
Mirelle sorriu, embora uma preocupação perceptível atravessasse suas feições. "Bom, fico feliz que tenham se tornado homens de verdade."
Noel, ouvindo em silêncio, deixou os olhos caírem sobre os talheres.
'Treinamento militar não era novidade para mim. Dor, frio, gritos… são universais, até na Terra.'
Kael olhou para o outro lado da mesa, com uma expressão que se suavizou um pouco.
"Para ser sincero," acrescentou, "as primeiras semanas foram um inferno."
Damon concordou, sorrindo de leve. "Pensamos em fugir mais de uma vez."
Isso provocou alguns risos silenciosos entre os outros. Até Livia parecia divertida. Somente o lord Albrecht permanecia impassível, olhando fixamente para o vinho como se pudesse revelar o futuro.
Noel não riu, mas o canto da boca se curvou levemente, quase imperceptível.
'Então a academia realmente os mudou. É mesmo.'
A Lady Mirelle colocou a taça de vinho na mesa com um sorriso malicioso. "Agora que estão todos reunidos novamente, não é a hora perfeita para comparar o quanto cada um avançou?"
Damon levantou as sobrancelhas, com os braços cruzados. "Pelo que ouvi... Noel está indo bastante bem ultimamente."
'Vai começar.'
Kael virou-se para o irmão mais novo—não de forma zombeteira, mas curiosa. "É verdade? Que você está entre os melhores da turma?"
Noel calmamente secou os lábios com o guardanapo, colocou-o no colo e respondeu sem rodeios. "Décimo nona posição. No ranking geral da Academia Imperial."
Um silêncio caiu sobre a mesa.
"Décimo nona?" Kael repetiu, como se precisasse confirmar. Damon soltou um assobio baixo.
"Nunca ninguém da nossa família chegou a tanto," admitiu, de surpresa sincera. "Nem mesmo os herdeiros."
A Lady Mirelle não falou. Sua expressão travou.
Lord Albrecht nem levantou os olhos do prato. "Entendo. Parabéns."
Não havia emoção na voz dele. Era apenas uma reafirmação seca, como se estivessem conversando sobre o tempo.
Noel não vacilou. 'Como esperava.'
Sylvette, que até então permanecia quieta, mexia os vegetais no prato sem comer, até que, sem levantar o olhar, falou.
"Pai, por que nunca me deixaram estudar na Academia Imperial?"
A pergunta caiu como uma pedra em água parada.
Todo mundo na mesa se virou em sua direção.
Finalmente, Lord Albrecht olhou para ela. Seus olhos rubros repousaram na filha mais nova, com uma expressão indecifrável.
"Você tem dezoito anos," ele disse. "Se entrasse agora, estaria no último ano. Não faria diferença."
"Eu me sairia bem," respondeu Sylvette, com um tom mais áspero que o habitual. "Provavelmente melhor que Noel."
Noel nem deu uma olhada nela. Simplesmente deu mais uma mordida na comida, mastigando lentamente.
'Falar é fácil.'
Albrecht recostou-se um pouco. "E suas instruções particulares não bastam para você?"
Sylvette cruzou os braços. "Estão de bom tamanho."
O silêncio que se seguiu foi mais frio do que a prata dos talheres élficos.
A tensão no ar persistiu por um momento após a fria observação de Sylvette. O garfo de Noel riscou suavemente seu prato enquanto cortava um pedaço de carne assada, mastigando devagar, inalterado pela passiva agressividade direcionada a ele. Ninguém mais ousou falar—até que Serina, à direita de Albrecht, soltou uma risada silenciosa, treinada.
"Bom," ela disse, com uma voz melodiosa e calma, "já que estamos todos aqui, talvez seja melhor mudarmos de assunto."
Ela calmamente estendeu a mão para o copo de vinho, inclinando-o levemente enquanto olhava para a filha mais velha. "Em dois dias, nossa querida Livia será o centro das atenções. Não é mesmo?"
Livia, que até então se mantivera em silêncio, desviou um pouco na cadeira. "Parece que sim."
"Vamos lá, mostre um pouco de entusiasmo," provocou Serina de brincadeira. "Você vai se casar com uma das famílias élficas mais prestigiadas de Elarith. A Casa Lestaria tem sido uma referência de nobreza há séculos. É uma grande honra."
Livia sorriu com ar frio, com a voz controlada. "Sei disso."
A Lady Mirelle entrou na conversa, com expressão calorosa e mais animada que o normal. "A cerimônia será no Pavilhão Heartgrove, certo? Ouvi dizer que é uma obra de arte arquitetônica—céu aberto, pétalas encantadas, até pássaros treinados para voar durante os votos."
"Sim," assentiu Serina. "A família do Lorde Veyron insistiu em cuidar de todos os detalhes. Parece que querem causar uma boa impressão."
Kael inclinou-se para frente, apoiando os braços na mesa. "A lista de convidados deve ser absurda. Ouvi alguém dizer que toda a alta corte do conselho élfico vai estar lá."
"Vão," confirmou Serina. "E vários nobres de Elarith."
Damon soltou um assobio baixo. "Vamos estar rodeados por orelhas pontudas e capas de veludo por horas."
"Comporte-se," disse Mirelle, levantando uma sobrancelha.
Noel não comentou. Apenas continuou comendo devagar, ouvindo atentamente.
Sylvette mexia na bebida e murmurava entre dentes: "Pelo menos um de nós consegue sair desta casa."
Todos ignoraram a observação—exceto Livia, que lançou-lhe um olhar de advertência.
Serina, sem se abalar, sorriu novamente. "De qualquer forma, espero que todos estejam no seu melhor. A Casa Thorne precisa parecer digna. Noel," ela virou-se para ele pela primeira vez naquela noite, "assume que trouxe roupas formais de verdade?"
Noel olhou para cima, com os olhos calmos. "Sim, claro."
"Bom. O alfaiate virá amanhã de manhã para os ajustes finais."
"Entendido."
A conversa permaneceu por mais um tempo falando sobre logística—flores, assentos, tradições cerimoniais. Mas para Noel, tudo aquilo virou ruído de fundo. Ele se desligou, observando os lustres dourados e os ornamentos feitos pelos elfos alinhados nas paredes.
'Mais dois dias… depois disso, adeus.'
A cena termina com o suave tilintar de talheres e taças, risadas forçadas e vazias, enquanto Noel observa tudo com olhos distantes.