
Capítulo 115
O Extra é um Gênio!?
A neve tinha parado.
Um céu pálido se estendia acima deles agora, claro e gelado. A tempestade havia passado, deixando para trás um mundo branco e silencioso. Eles estavam na base da encosta, onde a terra ainda repousava sob grossas mantas de neve, mas a silhueta imponente do Pico Frostspire agora reluzia à sua vista.
Suas encostas irregulares subiam cada vez mais, desaparecendo no céu pálido. Mais de seis mil metros de gelo e pedra severa.
Noel permanecia em silêncio, com os olhos estreitados, observando o caminho para cima com atenção.
"Parece que vai ser uma subida longa," ele comentou.
Selene estava ao seu lado, com o capuz puxado baixa sobre o rosto. "Sim," respondeu suavemente.
Noel ajustou as tiras do capote, depois olhou para ela. "Sabe que tipos de monstros vamos encontrar pelo caminho?"
Selene ficou quieta por um momento, com o olhar fixo na montanha. Então, respondeu.
"Pelo que aprendi…"
"Um Urso Frosthide—Raro, nível Iniciante. Um urso enorme com pelagem endurecida pelo gelo, capaz de desviar a maioria dos ataques."
"Um Devastador de Glaciar—Elite, nível Iniciante. Uma grande predadora felina que se move silenciosamente pela neve. Suas garras podem quebrar gelo com um único golpe."
"E um Yeti Invernal—Comum, nível Adepto. Uma criatura imensa forte o suficiente para esmagar pedra com as mãos."}
Noel ouviu com atenção, então esboçou um sorriso leve.
"Bom... nada que não consigamos enfrentar."
Selene deu uma pequena confirmação com a cabeça.
O olhar de Noel permaneceu nela por mais um instante.
"Ela já é Adepta. Não sei quando aconteceu, mas seu progresso está mais rápido que no romance… perfeito. Estou a um passo de me tornar Adepto também. Se esses dias me ajudarem a avançar, o que vem a seguir será bem mais fácil…"
Ele respirou fundo, então voltou sua atenção para a montanha.
"Vamos seguir em frente."
A primeira luz do dia invadia as janelas estreitas da fortaleza.
A Senhora Vaelora von Iskandar levantou-se da cama, movimentos precisos e decididos. Sem dizer uma palavra, colocou sua armadura pesada, forrada de peles, camadas espessas feitas para guerra, não para conforto. Sua grande machadaria de guerra repousava encostada na parede—ela a pegou com prática confiança.
Perto, no longo corredor, o cheiro de carnes assadas e vegetais cozidos permeava o ar.
A grande sala de refeições aguardava.
Como sempre, a mesa transbordava de comida—mesas com carnes de caça, raízes assadas, ensopados espessos fumegando em panelas de ferro pesadas. Guerreiros comiam com vontade aqui.
E Vaelora também. Ela treinava mais arduamente que qualquer um deles, e comia enquanto treinava—com disciplina e propósito.
Sua filha estava sempre esperando que se sentasse ao seu lado, como a tradição exigia.
Mas sua filha nunca tocava na comida. Essa era a regra.
"Magos não se cansam como guerreiros." Essa era sempre a sua afirmação. A lógica era simples—guerreiros gastavam energia pelo corpo. Magos, pela mente. Os dois não eram a mesma coisa. Não importa quanto mana ambos usassem.
Por isso, Selene nunca tinha permissão de comer na festa.
Assim, na maioria das manhãs, ela ficava no quarto, poupando a pouca força que tinha.
Hoje, Vaelora estava sozinha à mesa.
Depois de alguns momentos, ela franziu o cenho.
"Por que minha filha não está aqui?" ela perguntou, com voz fria e cortante.
O guarda perto da porta ficou rígido. "Não sei, senhora. Ela não respondeu quando fui buscá-la."
Vaelora levantou-se imediatamente, com a fúria fervendo sob a superfície.
Ela saiu do salão, pegou uma tocha na parede e percorreu o corredor longo e escuro que levava ao quarto da filha.
Cada passo ecoava no silêncio.
No fim do corredor, ela parou. A porta estava fechada.
Sem hesitar, ela a abriu com um golpe forte e preciso.
Empunhando a tocha alta, ela vasculhou o quarto.
A cama não estava arrumada.
Um conjunto de roupas de dormir jazia amassado sobre as roupas de cama.
O uniforme da filha havia desaparecido.
A varinha, em lugar algum, podia ser vista.
A firmeza de Vaelora apertou a empunhadura do machado.
Ela havia desaparecido.
A filha tinha sumido.
Alguns instantes depois, ela voltou à sala de jantar, com movimentos rápidos e controlados.
O mesmo guarda esperava perto da mesa.
"Você não trouxe ela de volta, senhora?" ele perguntou hesitante.
O olhar de Vaelora atravessou-o.
"Você a vê aqui?"
Ela se sentou na cadeira, com a voz como uma ordem cortante. "Procure por ela. Ela não estava no quarto. Ela deve tomar café da manhã com a mãe."
O guarda rapidamente se curvou e saiu, a ordem já se espalhava pela fortaleza.
Passaram-se cinco minutos.
Dez.
Ela começava a ficar mais impaciente.
Nada.
Após quinze minutos, outro guarda voltou apresentando um pedaço de pergaminho tremendo na mão enluvado.
"Minha senhora… encontramos isto. No quarto do menino."
Ele entregou a nota a ela.
Os olhos de Vaelora se estreitaram ao abrir o papel.
"Sequestei sua filha. Não havia nada no acordo que impedisse de trazer um acompanhante."
Com os nervos à flor da pele, a calma perigosa se instalou nela.
Sem dizer uma palavra, ela pegou um pedaço de carne e começou a comer lentamente, com mordidas deliberadas.
Sua mente ardia de furiosa frieza.
"Você," ela disse ao guarda. "Encontre-os agora."
A ordem soou firme no silêncio do hall.
O sol pendia frio e pálido no céu, projetando longas sombras na montanha coberta de neve. O vento tinha diminuído, mas o frio penetrava fundo até os ossos. Horas tinham se passado desde que deixaram a fortaleza para trás. Agora, a base estava lá embaixo, fora de vista, engolida pelo branco infinito da paisagem.
Eles caminharam em silêncio. Selene mal falava, cada passo mecânico, guiada mais pelo instinto que pelo raciocínio. Seu capuz protegendo o rosto do vento, mas por baixo dele, sua mente rodava com tudo que tinha acontecido—tudo que tinha deixado para trás.
E tudo que ela temia estava chegando.
À frente, Noel avançava com determinação silenciosa, passo firme, medido. Noir caminhava levemente ao seu lado, uma sombra contra a neve.
Depois de um tempo, Noel voltou o olhar para trás. "Vamos parar um pouco para descansar," ele sugeriu. "Precisamos de energia para o que vem pela frente."
Selene apenas assentiu. Sua garganta estava apertada, difícil de falar.
Pararam numa clareira pequena, protegida por blocos de pedra marcados pelo vento. O chão aqui era mais firme, a neve mais fina. Noel ajoelhou-se e puxou de sua Bolsa Dimensional um feixe de madeira seca, arrumando com destreza.
"Lança de fogo," ele sussurrou suavemente.
Uma fina chama acendeu-se sob a madeira, pegando rapidamente. O calor se espalhou, inicialmente pequeno, mas crescendo de forma constante e forte.
Selene observava de onde estava, com os braços ao redor dos joelhos, queixo encostado na manta. Seu estômago torcia de dor, mas ela não disse nada.
Estava acostumada a essa sensação.
Noel trabalhava calmamente, desembrulhando pedaços de porco e boi, colocando-os numa pedra plana perto do fogo para cozinhar. O cheiro subia no ar frio, rico e quente, trazendo junto uma sensação aguda e oca no peito de Selene.
Sede. Uma sede real, cortante.
Ela apertou os braços ainda mais forte, lutando contra o impulso de se virar para pegar a comida.
Ela não merecia.
"Magos não se cansam como guerreiros."
"Você não precisa disso."
"Você sempre foi fraca."
As palavras da mãe ecoaram gritantes e cruéis em sua cabeça. Ela passou anos ouvindo aquilo. Acreditando nelas.
Noel não disse nada. Trabalhou com calma, cuidando do fogo, virando a carne com movimentos lentos e deliberados. O tempo passou.
Até que, sem dizer uma palavra, ele se levantou.
Selene ficou tensa ao ver que ele se aproximava, seu coração acelerado, a respiração presa.
Ele ajoelhou-se diante dela, oferecendo a carne cozida em um pequeno prato. Sua voz era suave, sem esforço.
"Coma. Está tudo bem."
Ela olhou para o prato, com as mãos tremendo. A respiração falhou.
Queria recusar. Dizer não, recuar. Mas o corpo a traiu. O cheiro da comida, o calor dela… a simples gentileza no gesto—algo tão pequeno, tão impossível no seu mundo—quebrou a última muralha frágil que ela segurava.
Devagar, seus dedos estenderam-se, tremendo, como se esperasse que o prato fosse puxado de sua frente.
Quando não fizeram isso, sua garganta se apertou ainda mais. Sua visão escureceu.
Ela pegou um pequeno pedaço de carne e levou à boca.
A primeira mordida foi como uma lâmina.
O gosto era rico, quente, verdadeiro—e, mais que isso, era dela. Algo oferecido de graça. Sem desprezo, sem castigo, sem olhos frios de espectador.
Antes que pudesse impedir os olhos, lágrimas encheram seus olhos.
Uma gota deslizou pela bochecha.
Depois outra.
Logo, as lágrimas vieram com mais velocidade, caindo silenciosas enquanto ela mastigava. Sua respiração entrecortada, irregular, entre uma mordida e outra. Ela tentou esconder, mordendo o lábio com força—mas era inútil.
A barragem rompeu.
Anos de contenção—anos de silêncio, vendo sua mãe comer enquanto ela passava fome—explodiram tudo de uma vez. Cada pequena afronta, cada palavra não dita, cada refeição que nunca comeu… era demais.
Noel já tinha voltado ao fogo, adicionando mais carne para cozinhar. Seus movimentos eram calmos, lentos.
Ele não olhava para ela. Não a envergonhava. Simplesmente deixou que ela chorasse.
E ela chorou.
Encolhida, com os ombros tremendo, lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto comia em bocados trêmulos e despedaçados.
Era apenas uma peça de carne.
Mas, para Selene, era a primeira liberdade que tinha experimentado.
Seus olhos não paravam de chorar.
Selene sentou-se encolhida perto do fogo, com os braços abraçando forte as pernas, o prato vazio descansando na neve ao seu lado. Sua respiração vinha em pequenos suspiros ofegantes, o frio mal percebido sob o calor que ainda vibrava no seu peito.
'Por que estou chorando tanto… é só um pedaço de carne.'
Mas, mesmo enquanto pensava nisso, as lágrimas continuavam a cair.
Não era só a comida.
Era o que ela representava.
Noel tinha oferecido sem hesitação, sem condições, ameaças ou desprezo.
Nunca olhou para ela como alguém inferior. Nunca lembrou sua posição. Ele simplesmente… entregou-lhe a comida, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
'Talvez ele já soubesse… talvez por isso me convidou para comer na academia…'
A voz da mãe ecoou na sua cabeça—não as palavras, mas o tom. Os olhares frios. Os gestos desprezivos. O julgamento silencioso toda vez que ela se sentava à mesa e era deixada a assistir.
"Você não precisa disso. Não é como nós."
"Fique contente com o que tem."
"Pare de ser um peso."
Selene fechou os olhos com força, lágrimas renovadas surgindo de novo.
Por tanto tempo, tinha se convencido de que não importava. Que não precisava. Que era assim mesmo.
Mas aqui, agora—sozinha na natureza, ao lado de um garoto que mal entendia—um gesto simples tinha desfeito tudo.
E, pela primeira vez… ela tinha sido permitida a pegar.
Comer.
Existir sem pedir desculpas.
Suas mãos tremiam ao enxugar o rosto com a manga. Do lado do fogo, Noel cuidava das chamas, silencioso como sempre. Ele nem mesmo a olhou enquanto chorava.
E essa pequena gentileza—aquele espaço—tornava tudo mais difícil de parar.
Ela engoliu em seco, com a respiração presa mais uma vez.
'Ainda não o entendo… mas talvez isso não seja o mais importante.'
Seu olhar voltou ao prato novamente. Seus dedos roçaram nele suavemente, quase com medo que desaparecesse.
Uma refeição simples.
Um ato simples.
No entanto, para ela, era mais do que isso.
Um pedaço de carne.
Um pedaço de dignidade.
Um pedaço de liberdade.
A garganta se fechou e, sem pensar, sua voz saiu num sussurro fraco:
"Obrigada…"
O vento levou suas palavras, suaves e imperceptíveis.
Mas, no coração dela, algo mudou.
E isso não se apagaria tão facilmente.