
Capítulo 125
O Extra é um Gênio!?
A névoa gelada ainda se agarrava às bases da montanha quando a escolta armada chegou.
Selene e Noel caminhavam em silêncio, ladeados por guerreiros vestindo as cores brancas e acinzentadas da Casa Iskandar. Seus suspiros se transformavam em vapor na manhã fria, e os passos ecoavam sobre o caminho de pedra coberto de geada, dirigindo-se à fortaleza que os aguardava.
Ao atravessarem os portões, as portas se abriram sem cerimônia.
Dentro, esperando de pé no centro do salão, estava Lady Vaelora von Iskandar—com as costas eretas, braços cruzados atrás das costas, expressão feita de pedra congelada.
No instante em que Selene apareceu à vista, o olhar de Vaelora se agudizou.
"Então," ela disse com frieza, "achou uma boa ideia se esconder?"
Ela deu um passo lentamente pra frente.
"Prepare-se. Quando voltarmos para casa, vai responder por isso de verdade."
Noel olhou para Selene.
Ela não tinha dito uma palavra desde a abertura dos portões. Mas agora—ele via. Os ombros dela tinham ficado rígidos, os olhos derrotados, os dedos tremiam ao lado do corpo.
Havia medo ali. Cru e profundo.
E ela não estava escondendo bem.
A voz de Noel quebrou o silêncio.
"Senhora Vaelora von Iskandar," ele falou claramente, avançando um passo, "a guerreira mais forte do norte… e do século."
Os olhos de Vaelora se fixaram nele, encolhendo-se.
"Não foi culpa da Selene," continuou Noel, com tom firme. "Eu fui quem a raptou comigo. Se alguém deve ser culpado, esse alguém sou eu."
Houve uma pausa. Então:
"Você raptou minha filha?" VAelora falou lentamente. Sua voz não estava elevada—não precisava estar. "Você tem ideia do que isso é um crime? Que atacar uma casa nobre é uma infração punível com a morte?"
Ela deu mais um passo adiante.
"E que sua própria família—a Casa Thorne—pode acabar envolvida nisso?"
Noel não piscou, mas por dentro—
'Legal, não tô nem aí pra Casa Thorne. Mas… minha cabeça ainda é um negócio importante pra mim.'
Ele clareou a garganta.
"Com todo respeito, Senhora Vaelora… talvez seja melhor conversarmos dentro do castelo, de forma adequada. Acredito que viu a nota que deixei. Segundo nosso acordo, não estava violando nenhum termo."
Os olhos de Vaelora se estreitaram ainda mais.
"Você está enganado. Isso vai muito além do nosso acordo. Você cruzou uma linha."
"Por isso, insisto que conversemos como adultos," disse Noel simplesmente.
Vaelora deu uma risada fria e sem humor.
"Adultos? Você é uma criança."
Noel deu de ombros suavemente.
"Talvez aos seus olhos. Mas essa criança viu mais do que a maioria. Viveu mais também."
'Literalmente. Tenho vinte e três anos mentalmente, obrigado.'
Vaelora não respondeu. Mas o momento se alongou, pesado de uma tensão não dita.
Então ela virou-se, seu manto se movendo enquanto avançava mais profundamente na fortaleza.
"Muito bem. Sigam-me."
Quando passaram pelo pátio interno, a escolta se dispersou.
Selene foi conduzida suavemente até uma carruagem esperando—seus joelhos ainda fracos de exaustão. Ela não protestou.
Noel, no entanto, não recebeu tal cortesia.
Um guerreiro fez um gesto para que avançasse. "Você anda."
Noel suspirou levemente.
'Bom… pelo menos ela consegue descansar um pouco.'
Ele começou a caminhar num ritmo constante, acompanhado por dois guardas. Seu corpo ainda doía pela subida e pelo combate, cada passo uma lembrança tênue de quanta mana ainda restava.
Mas não tinha alternativa.
Passo a passo, atravessaram os largos corredores de pedra da mansão Iskandar. Arcos imponentes molduravam o caminho, cada um adornado com os sigilos de antigas vitórias e a linhagem de guerreiros nascidos do gelo.
Finalmente, o caminho se abriu na sala do trono, magnífica.
Noel foi conduzido para dentro.
E lá estava ela.
Lady Vaelora von Iskandar, sentada sobre seu infame trono de ossos—uma estrutura pontiaguda, pálida, que se erguia atrás dela como os remanescentes de algum grande predador. Ao seu lado direito, sua enorme machadada repousava contra o braço do trono. À esquerda, Selene agora sentava-se silenciosa, ainda envolta pelo manto de Noel, com o olhar baixo.
Acima, uma grande abertura circular no teto deixava a luz entrar—uma escolha arquitetônica que Noel não pôde deixar de notar.
'Sério… como aquilo pode ser confortável? E quando chover, esse lugar todo não inunda? Tsc. Pior arquiteto de todos.'
O olhar de Vaelora se encontrou com o dele, frio e afiado.
"Vamos começar," ela disse simplesmente. "Primeiro, uma questão importante. Você coletou as flores?"
Noel deu um passo à frente, com voz calma.
"Tenho elas aqui," disse, apontando a Bolsa Dimensional ao seu lado. "Tudo seguro."
Ela deu um breve aceno de cabeça.
"Bom."
Seus olhos se estreitaram mais uma vez.
"Agora. Sobre a segunda questão. Por que, exatamente, você disse que raptou minha filha?"
'Não vou contar a ela o verdadeiro motivo. Nem pensar.'
Ele inclinou a cabeça levemente.
"Vê, Senhora Vaelora… para alguém que não conhece o Pico Frostspire, tentar subir sozinho seria suicídio. E confiar numa orientação aleatória—também perigoso."
Ele olhou brevemente na direção de Selene.
"Escolhi a pessoa em quem mais confio. A que acredito poder realmente me ajudar a ter sucesso."
Sorriso enviesado nos lábios de Vaelora.
"Confiança? Em Selene? Na filha inútil?"
O tom de Noel ficou mais cortante.
"Permita-me corrigir isso, Senhora Vaelora. Foi Selene quem matou o wyvern de gelo. Não fui eu. Eu apenas a apoiei. Ela o matou—com um feitiço só."
Pela primeira vez, uma tênue fagulha passou pelos olhos de Vaelora.
Disgosto.
Incredulidade.
"Ainda deseja seguir o caminho de um mago," ela disse baixinho, com desprezo. "Não combina com nossa família."
"Veja, Senhora Vaelora… acho que isso não deveria importar. Não quando alguém tão talentosa quanto Selene."
"Basta," Vaelora interrompeu. "Não quero mais desculpas."
Seu olhar se voltou frio para a filha.
"Selene. Vá para o seu quarto. Depois eu cuido de você."
Selene não se moveu.
Mas algo havia mudado.
Por um instante, o silêncio pairou—apenas o sussurrar leve do manto que ainda envolvia seus ombros.
O olhar de Vaelora se agudizou.
"Selene," ela repetiu, com a voz como gelo. "Vá para o seu quarto."
Mas desta vez, o antigo medo não tomou conta.
Nem completamente.
Algo no peito de Selene virou—desatando-se como um nó que foi estrangulado por anos.
Ela respirou lentamente.
Dentro da cabeça:
'Não… não devia ter fugido com ele…'
Esse foi seu primeiro pensamento.
Mas então, a voz de Noel ecoou na sua mente—suas palavras, sua defesa, firme.
E mais fundo ainda—uma percepção.
Não. Desta vez, não.
Já não.
Ela ergueu o queixo levemente, embora as mãos ainda tremessem.
"Não," ela disse suavemente. Depois, mais alto:
"Eu não vou embora."
Os dedos de Vaelora apertaram o braço do trono de ossos.
"Você ouse desobedecer a mim?" ela perguntou, com a voz baixa de advertência. "Está testando minha paciência, Selene von Iskandar. Não se esqueça de quem você está falando."
Mas Selene não baixou os olhos.
Pela primeira vez na vida—ela olhou diretamente nos olhos da mãe.
E Vaelora viu isso.
Raiva. Uma raiva real—não a resignação fria que sua filha sempre mostrara.
Aqueles olhos cianos pálidos, antes tão sem vida, agora queimavam com fogo congelado.
"Não," repetiu Selene, com voz mais forte. "Você vai me ouvir."
A mandíbula de Vaelora se tensionou.
"Entendo… então agora você se opõe a mim. Como antes—acha que alguém lhe deu permissão para—"
Mas dessa vez, ela foi interrompida.
Selene falou antes que a próxima palavra saísse dos seus lábios.
As palavras escaparam antes que ela pudesse detê-las—anos de silêncio se libertando tudo de uma vez.
"Você se lembra, mãe?
Dos anos que eu passei tentando… esperando… que um dia você olhasse pra mim com algo além de desgosto?"
Sua voz reverberou na câmara.
"Eu era só uma criança.
E ainda assim, toda vez que eu sorria para você, toda vez que mostrava algo que tinha feito ou criado… você me chamava de sonhadora demais.
'Você nunca será boa o suficiente.'
'Você não tem talento.'
'Nunca quis ter você.'
Essas foram suas palavras—gravadas em mim mais fundo do que qualquer cicatriz."
Noel ficou parado, assistindo—não esperava por isso.
Selene continuou—sua voz firme, o corpo tremendo, mas os olhos ardentes.
"Pensei… talvez, se eu me esforçasse mais.
Se eu estudasse mais. Se praticasse até minhas mãos sangrarem.
Se suportasse suas punições—dias sem comida, noites sem dormir, semanas de silêncio ou pior—
talvez aí ela se orgulhasse de mim.
Mas nada foi suficiente pra você.
Nada."
Do outro lado, Vaelora apertou o punho no braço do trono de ossos. O rosto dela permanecia inexpressivo—mas os olhos brilhavam.
A voz de Selene aumentou:
"Você me quebrou várias vezes, e quando eu voltei só pra ouvir uma palavra gentil, você me chutou ainda mais baixo."
Parou de perguntar por quê.
Parou de esperar.
Mas nunca deixei de tentar.
Não por você mais—por mim."
Ela deu um passo à frente.
"Porque, na verdade… a garotinha que queria o amor da mãe?
Ela desapareceu.
Você a matou."
O que fica aqui agora é alguém que você nunca mais vai conseguir controlar."
A voz de Selene ficou fria e definitiva:
"Você não vai mais me envergonhar.
Você não vai mais definir quem eu sou."
Ela inspirou fundo—punhos cerrados ao lado do corpo.
"Você disse que se arrepende de ter uma filha como eu? Pois bem.
Saiba disso: eu me arrependo de passar tantos anos tentando conquistar o amor de alguém que nunca soube dar o seu."
E, apesar de tudo… de tudo mesmo…
Ainda estou de pé."
Seu olhar atravessou o silêncio.
"Isso, mãe… é algo que você nunca poderá tirar de mim."
A sala ficou em silêncio absoluto.
Vaelora permaneceu imóveis—olhos fixos na filha, lábios entreabertos, mas nenhuma palavra saiu.
Noel respirou fundo lentamente, o olhar oscilando entre as duas.
'Droga… ela realmente falou tudo.'
O silêncio ficou pesado no ar.
O eco dos passos de Selene desaparecendo pelo corredor deixou a sala de trono fria e silenciosa.
Noel permaneceu onde estava.
De frente para ela, Lady Vaelora von Iskandar sentada inerte—mãos firmes nos braços do trono de ossos, o olhar fixo na porta vazia pelo qual sua filha acabara de passar.
A mandíbula dela estava cerrada. Mas nenhuma palavra saiu.
Noel soltou um suspiro baixo e balançou a cabeça levemente.
"Droga," disse, a voz calma mas cortante na quietude.
"Parece que você fez uma cagada das grandes. Depois de todos esses anos… ela finalmente despejou tudo."
Nenhuma resposta.
O olhar de Vaelora não se moveu.
Mas Noel não saiu dali.
Ele se endireitou, deixando o silêncio se alongar por mais um instante. Seu corpo ainda doía, cada movimento uma lembrança do combate que mal tinham sobrevivido—mas agora não era hora de descansar.
Ainda tinha coisas a dizer. E coisas a garantir.
Mas o tempo estava contra ele.
Na sua cabeça, o lembrete frio do sistema piscou novamente:
[Nova Missão: Tratar a doença e salvar a mãe de Elyra. Tempo restante: 4 dias.]
'Quatro dias… preciso agir rápido. Chegar a Estermont não pode esperar.'
Ele respirou fundo lentamente.
Mas antes—essa conversa ainda não tinha acabado.
Ainda precisava de algo de Vaelora.