
Capítulo 126
O Extra é um Gênio!?
A sala do trono de ossos estava silenciosa.
A presença de Selene tinha desaparecido dela, suas palavras finais ainda pairavam no ar como um frio persistente.
Noel estava sozinho diante do trono.
A senhora Vaelora sentava-se rígida em seu assento de ossos—seus olhos vazios, sua postura tensa. Ambos permaneciam sem falar por vários longos momentos.
Mas Noel não podia se dar ao luxo do silêncio.
O tempo estava se esgotando.
Ele se endireitou levemente, então falou, de forma clara e ponderada:
“Senhora Vaelora, gostaria de discutir nosso acordo.”
Seu olhar arriou, como se despertasse de uma espécie de transe.
“Sim,” ela respondeu em voz alta. “Vamos continuar.”
Noel assentiu com um gesto discreto.
“Muito bem. Segundo nosso acordo, o mérito e o reconhecimento pela cura caberão à Casa Iskandar. Além disso, a Casa Estermont pagará uma compensação pelos transtornos causados.”
Vaelora respondeu sem hesitar.
“Concordo…”
Seu tom era plano—sem rastro da sua habitual firmeza. Era evidente que sua mente ainda estava presa no que acabara de acontecer.
Porém, Noel não hesitou.
“Ótimo. Com essa questão resolvida, gostaria de solicitar transporte. O mais rápido que tiver disponível. Preciso chegar a Estermont em no máximo três dias, se possível.”
Vaelora endireitou-se um pouco.
“Prepararei uma carruagem para você imediatamente.”
Os olhos de Noel se estreitaram levemente.
'Está indo demais…'
Ele inclinou a cabeça ligeiramente.
“Há alguma coisa errada, minha senhora?”
Vaelora expirou lentamente.
“Veja bem, rapaz… não sei como reagir ao que acabou de acontecer. Selene nunca havia falado comigo assim antes.”
Noel manteve o olhar fixo nela, olhos calmos, mas resolutos.
Então, ele falou.
“Pois bem, senhora Vaelora, com todo respeito… mais cedo ou mais tarde, isso ia acontecer.”
Vaelora franziu a testa levemente, sua voz ficando mais baixa agora.
“O que você quer dizer?”
O tom de Noel se intensificou um pouco—não hostil, mas honesto.
“Como você acha que uma criança, maltratada desde tão jovem, deveria crescer? Se ela conseguiu chegar até aqui e dizer essas palavras, é porque ela finalmente atingiu seu limite. Ela não aguentava mais. Reuniu coragem e enfrentou seu maior medo.”
O olhar de Vaelora se perdeu por um momento—seus dedos se apertando discretamente contra o apoio do trono.
“Isso… não era minha intenção ao criá-la desse jeito,” ela murmurou.
A voz de Noel ficou mais fria.
“Bem, foi exatamente isso que você conseguiu.”
Silêncio novamente.
Por um momento, Vaelora não disse nada—sua respiração lenta, controlada. O ferro que antes caracterizava sua presença desaparecera, sendo substituído por algo quase… hesitante.
Então ela o olhou novamente—desta vez, com uma voz mais suave do que ele já tinha ouvido.
“Você… poderia me ouvir por um instante, Noel Thorne?”
O instinto de Noel se arrebentou.
'Não tenho muito tempo, mas…'
Ele a estudou brevemente.
'Mesmo que ela me incomode, o tom… é diferente.'
Ele assentiu rapidamente.
“Claro.”
Vaelora respirou fundo, como se estivesse se preparando para reabrir uma ferida que estava cicatrizando há anos.
“Quando Selene era criança… ela era alegre. Brilhante. Sempre sorrindo.”
'Isso… nunca foi mencionado no livro.'
A voz da mulher tremeu um pouco, mas ela não parou.
“Ela tinha os olhos do pai, e o espírito dele. Meu marido… também era mago. Ele lançava feitiços com a mesma graça que ela agora demonstra. Quando Selene completou três anos, ainda estávamos nos ajustando ao estranho caminho que ela parecia seguir—diferente da linhagem guerreira que herdamos.”
Ela fechou os olhos por um momento.
“Depois veio a migração.”
Sua voz caiu, mais pesada agora.
“Uma alcateia selvagem de dracônicos — mais do que já havíamos visto antes — desceu das falésias do norte, ameaçando invadir nossas terras, atacar vilarejos. Então… fomos à guerra. Ele e eu—lado a lado.”
Noel não interrompeu. Já via para onde aquilo ia.
“Havia um deles, um alfa. Maior que os demais. Feroz. Impiedoso. Um Dragão de Gelo — exatamente como aquele que você viu no Pico Frostspire.”
Ela abriu lentamente os olhos.
“Ele o matou. Quebrou sua barreira. Eu testemunhei tudo. Meu marido… o homem com quem construí uma vida… morreu impotente diante de mim.”
Ela fez uma pausa.
“E agora… mantemos esse dragão de gelo. Enslavado, alimentado com ovos, quebrado em sua fúria. No começo, matava todos os seus filhotes na minha frente, numa fúria cega.”
Noel se endireitou levemente. 'Que tipo de…'
“Ela estava acorrentada, a criatura, obrigando-a a assistir.”
Ela balançou a cabeça lentamente, como se a própria memória a enojasse agora.
“Selene não sabe. Nunca soube. Mas depois daquilo… jurei fazer qualquer coisa para impedir que ela seguisse o mesmo caminho. Proibi-a de usar magia. Tentei treiná-la como guerreira. Puní-la, admito. Exigi demais dela. E agora… sei que… talvez tenha destruído algo que não tinha direito de destruir.”
O ambiente ficou calado.
Então, como se de repente se lembrasse, Vaelora lançou um olhar urgente para Noel.
“Aliás… quando você matou aquele dragão de gelo—ele deixou cair uma varinha? Um bastão ou algo frio ao toque?”
Noel mergulhou a mão na bolsa dimensional e a puxou, o ar ao redor ficando instantaneamente gelado.
“Esse aqui?” ele perguntou.
Os olhos de Vaelora se arregalaram, uma expressão de alívio tomando conta do rosto sério.
“Sim… Graças aos céus. Achei que tinha se perdido. Eu mesma encantava essa varinha e a embutira no peito da criatura. Era um presente, quando ela completasse dezoito anos. Foi a última coisa que o pai dela deixou para ela.”
Noel olhou novamente para a varinha.
'Então essa não é a que ela usou na luta… interessante.'
Então, levantando o olhar para ela, falou de forma direta.
“Posso dizer uma coisa, senhora Vaelora? Não será respeitoso.”
Ela assentiu silenciosamente.
“Mereço tudo que você for dizer.”
Noel não hesitou.
“Como pôde ser tão cruel com sua única filha?”
Sua voz não carregava veneno—apenas honestidade crua e cansada.
“Ela é o último pedaço da sua família. E, ao invés de protegê-la, você a atormentou. Isso não é nobre. Nem humano. É simplesmente… monstruoso.”
Ele cerrava a mandíbula.
“Se quisesse protegê-la, esse não era o caminho. Como você achava que ela sobreviveria a uma provação dessas? Subindo aquela montanha, enfrentando um dragão de gelo completamente crescido?”
Ele deu um passo à frente.
“Ela teria morrido. E por quê? Por causa de uma ideia doentia de honra?”
Vaelora não falou. Apenas escutou, sem se mover.
Noel expulsou o ar de forma dura.
“Ela teve sorte de ter ajuda. Sorte de ter alguém com ela. Caso contrário, vocês estariam chorando a ela agora também.”
Outro instante de silêncio.
Então Vaelora sussurrou,
“…Entendo. Fico feliz que ela tenha um amigo como você, Noel. Parece… graças a você, ela finalmente começou a mudar.”
Noel passou a mão pelo cabelo, tentando aliviar a raiva no peito.
“Isso só… arde. Me deixa irritado.”
Vaelora olhou para ele com algo que quase parecia tristeza.
“Por favor… proteja-a. Acho que já é tarde demais para eu ser sua mãe agora.”
Noel cruzou o olhar com ela.
“Para ser sincero, minha família também não é exatamente das mais amorosas. Mas, se você realmente percebeu o que fez… talvez seja tarde, sim. Mas nunca é tarde demais para pedir desculpas.”
Ele virou-se em direção à saída.
“E não se preocupe. Não esqueci do nosso acordo.”
Sem esperar resposta, saiu da sala do trono. Os guardas na porta não tiveram coragem de olhar nos seus olhos.
Pela primeira vez… alguém tinha se colocado contra Lady Vaelora von Iskandar.
E não foi uma pessoa só.
Foi até a própria filha dela.