
Capítulo 106
O Extra é um Gênio!?
Os terrenos da academia estavam quase deserto.
Onde antes os caminhos de pedra fervilhavam com estudantes correndo para as aulas ou trocando golpes nos pátios, agora só permanecia o silêncio—intercalado pelo ocasional canto de pássaros empoleirados nas árvores que começavam a florescer.
A primavera havia chegado.
Buds suaves esgueiravam-se dos galhos esquálidos, colorindo o ar com a fragrância sutil de uma nova vida. A brisa estava fresca, ainda carregando os últimos suspiros do inverno, mas suave o suficiente para espalhar calor em seu sopro.
Noel estava perto do portão sul, vestindo um longo casaco nobre em tom de azul-marinho, feito sob medida para viagens. Botões de prata alinhavam o colarinho, e o brasão de Thorne havia sido costurado discretamente na manga. Ele parecia calmo, mas os olhos carregavam o peso de pensamentos demais.
À sua frente, Noir pulava brincando entre suas botas, com o rabo abanando enquanto rodopiava com curiosidade energética.
Noel suspirou e agachou-se levemente, passando a mão pelo pelo macio dela.
"Elyra me falou para esperar aqui."
Ele não tinha certeza do que esperava. Talvez um carruagem tradicional, ou algo exageradamente luxuoso. Mas confiava em Elyra o suficiente para seguir suas instruções sem questionar.
Enquanto Noir cavava o chão com a pata em busca de uma flor caída, Noel deixou o olhar vagar pelos campos de treino agora vazios ao longe. Para a maioria dos estudantes, as férias de primavera significavam voltar para casa. Mas não para ele.
Ele tinha uma casa… tecnicamente.
Mas a última coisa que queria era voltar lá.
Agora, havia coisas mais importantes—urgentes. Coisas que não podiam esperar.
Noel endireitou-se e olhou para o céu sem nuvens.
"Vamos começar."
Passos se aproximaram por trás, calmos e familiares.
Noel se virou justo na hora em que Elyra chegava, com sua postura habitual intacta. Ela usava um capa de viagem forrada com peles sobre o uniforme da academia, e sua longa trança descansava ordenadamente sobre o ombro.
"Olá, Noel," ela cumprimentou com um sorriso suave. Seu olhar caiu sobre a loba filhote rodopiando aos seus pés. "E olá, pequena."
"Você sabia que ela era uma garota?" Noel perguntou, levantando uma sobrancelha.
"Claro. Desde o começo. Não foi?"
"Foi. Quer dizer—sim, eu sabia."
"Então, por que a pergunta?"
"...Sem motivo. Ignore."
Elyra soltou uma risadinha sutil. "Enfim, nossa carruagem deve chegar em breve. Tente não ficar muito surpreso quando a ver."
"Surpresa do quê? Você falou que íamos pegar um transporte, então imaginei uma carruagem ou algo do tipo."
"Sim. Um transporte," ela repetiu, tão enigmática quanto sempre.
Noel estreitou os olhos para ela, mas não falou nada, voltando seu olhar para o céu novamente.
Uma sombra passou por cima do sol.
Ele piscou, e olhou de novo—dessa vez com mais atenção.
Um formato enorme descia do alto, com asas abertas como velas, agitava as árvores abaixo enquanto começava a aterrissar.
"Não brinca comigo," Noel murmurou. "Isso não é nosso transporte, né?"
"Claro que é," respondeu Elyra, quase demasiado casual.
A criatura pousou com um vendaval que levantou folhas e poeira ao redor. Ela se manteve alta—quase vinte metros do bico à cauda—e suas asas gigantes se fecharam lentamente, como velas sendo recolhidas após uma longa jornada. Suas penas eram de um branco impecável, com listras de amarelo dourado que cintilavam ao sol, fazendo a besta parecer mais divina do que natural.
'De fato, é um Quetzal,' pensou Noel, impressionado. 'Ou algo ainda mais raro.'
Uma compartimento na parte inferior do animal se abriu com um sibilo. De dentro, saiu um homem alto, trajando um uniforme preto impecável—claramente um mordomo—que carregava-se com graça treinada.
"Bom dia, Senhora Elyra," ele disse com uma reverência respeitosa. "Confio que esteja bem?"
"Estou, obrigado por ter vindo nos buscar," respondeu Elyra, avançando com natural autoridade.
"Deixe-me pegar sua bagagem."
"Muito obrigado."
Elyra virou-se para Noel e fez um gesto convidando-o a seguir. "Vamos lá."
Os olhos do mordomo se desviaram para Noel, e sua expressão se contratou levemente, surpreso. "Não fui informado de que teria companhia, Senhora Elyra. Se soubéssemos, teríamos preparado algo mais adequado. Posso perguntar quem é?"
Antes que Noel pudesse abrir a boca, Elyra falou primeiro.
"Meu futuro marido."
"…O quê?" perguntou o mordomo.
"…O quê?" Noel repetiu, olhando para ela.
"Sim, isso mesmo," Elyra disse com um sorriso sereno, passando por eles. "Agora entrem. Estou com pressa. Quero ver minha mãe."
"…Entendido," disse o mordomo, ajustando a postura.
Noel ainda estava congelado no lugar. 'Ela acabou de... o que diabos foi aquilo?'
Ele engoliu em seco, de modo desajeitado. "Huh, mulheres primeiro."
Elyra sorriu de canto, sem olhar para trás, ao entrar na cabine. Noel a seguiu, com o coração batendo mais rápido do que gostaria de admitir.
O vento sussurrava suavemente lá fora, pelos janelões reforçados, enquanto o enorme Quetzal subia acima das florestas e colinas do sul de Valor. De tão alto, o mundo lá embaixo parecia pintado com pinceladas suaves—verdes macios de folhas novas, rios como fios de prata e montanhas distantes enevoadas na luz da primavera.
Dentro da espaçosa cabine, o luxo cercava-os. Os assentos eram de couro espesso, costurados com fios de prata formando um brasão nobre. As paredes de madeira polida refletiam a luz, e cristais mágicos embutidos no teto proporcionavam um brilho suave e ambiente. Na frente, separado por uma parede fina, o mordomo se sentava em uma cabine de comando, pilotando a criatura com rédeas sutis e comandos sussurrados.
Noel se acomodou ao lado da janela, descansando a bochecha nas mãos enquanto via o terreno descer lentamente. Ao seu lado, Elyra reclinava-se confortavelmente, Noir enroscada no colo dela. A pequena loba deu um bocejo, com o focinho se levantando e caindo em cada respiração lenta.
"Chegaremos em algumas horas," disse Elyra com voz calma, quase sonolenta.
"Entendo," respondeu Noel, com os olhos ainda fixos no céu. "Vou permanecer em Estermont alguns dias antes de ir para Iskandar. Assim que conseguir o que preciso... vamos curar sua mãe. Eu prometo."
Houve uma pausa. Então ela falou mais suavemente.
"E mais uma coisa."
Noel virou um pouco a cabeça.
"O que eu disse antes," ela continuou, "eu quis dizer."
Noel piscou. "Sobre o... marido?"
Ela assentiu.
"Entendi." Ele desviou o olhar novamente, com um sorriso leve nos lábios. "Ou seja, quem não gostaria de se casar com a filha da família mais poderosa do continente?"
"Então… você toparia?" ela perguntou, inclinando a cabeça.
"Na teoria, sim," ele respondeu. "Mas, no momento, um relacionamento seria… complicado."
A voz de Elyra tinha uma pitada de desafio brincalhão. "Hmm. Posso esperar. Mas não me faça esperar muito."
"…Tudo bem," disse Noel baixinho, sentindo o calor de Noir contra a perna e a calma incomum da cabine ao redor.
A voz do mordomo veio do cenário à frente: "Estaremos pousando em breve, minha senhora."
Elyra assentiu, levantou-se, ajeitando alguns fios de cabelo escuro atrás da orelha e ajustando o casaco. Noir pulou do colo dela e foi até os pés de Noel, com o rabo balançando tranquilamente em arcos calmos.
"Hora de conhecer a família," murmurou Noel, levantando-se. Uma pequena exalação escapou enquanto olhava novamente pela janela.
Logo abaixo, não se via apenas uma propriedade simples, mas uma cidade inteira.
O domínio de Estermont era algo que Noel nunca tinha visto antes, nem mesmo na capital. Ruas largas de mármore, torres elegantes de pedra e cristal, fontes douradas e postes de cristal flutuantes que brilhavam mesmo no crepúsculo. Um rio prateado cortava a cidade como uma fita fluida, com pontes arqueadas conectando os distritos.
À distância, elevando-se numa encosta de montanha como uma coroa, estava a residência de Estermont—um palácio mais do que uma mansão. Quilômetros de jardins floridos na tonalidade da primavera, uma combinação impressionante de disciplina e magia. Era uma cidade dentro de outra cidade, cercada por muralhas altas e proteções elementais que brilhavam suavemente no céu.
'Então é assim que o poder real se manifesta,' pensou Noel, observando a descida do Quetzal em direção à plataforma de pouso.
As asas da criatura se abriram amplas para reduzir a velocidade, e seu corpo imenso pousou com impacto controlado em um círculo de obsidiana polida, cercado de glifos de platina.
Dezenas de atendentes alinhados em formação apertada, vestidos com uniformes creme-branco e dourado, aguardavam prontos. Quando a escotilha se abriu, uma rajada de ar de primavera misturada com a brisa fria da montanha entrou.
Noel desceu após Elyra, Noir ao seu lado, com as orelhas mexendo curiosas.
De ponta do espaço de mármore, aproximou-se um homem. Sua presença era imediata e potente.
Alta, com ombros largos. Vestindo uma jaqueta formal vermelha escura, com detalhes dourados que reluziam sob a luz do crepúsculo. Seus cabelos pretos tinham fios grisalhos nas têmporas, e a barba curta, bem cuidada, delineava seu rosto. Ao lado, pendia uma espada cerimonial, mas sua lâmina estava nítida, limpa, funcional.
Elyra fez uma pausa, depois fez uma reverência respeitosa.
"Pai," ela falou. Sua voz estava calma, mas carregava um peso evidente.
Os olhos do homem passaram por ela e fixaram-se em Noel.
Imediatamente, eles se estreitaram.
Noel apenas deu um pequeno aceno educado. "Prazer em conhecê-lo—"
"E esse aí?" o homem interrompeu, com voz baixa e afiada como ferro arrastado em pedra. "Quem é ele?"