O Extra é um Gênio!?

Capítulo 105

O Extra é um Gênio!?

A luz do sol que passava pela janela era suave—sem um calor intenso, apenas o calor tranquilo da primavera precoce. Aquele tipo que se assentava no piso de madeira sem exigir atenção.

Noel estava deitado na cama, um braço atrás da cabeça, o outro repousado sobre a barriga de Noir. O pequeno lobo sombra estava espalhado de costas, com as patas no ar, a cauda mexendo lentamente cada vez que os dedos de Noel arranhavam um novo ponto.

“Foi melhor do que eu esperava,” pensou, olhando para o teto. “Não achei que ela realmente me daria permissão para ajudar. Mas acho que… quando você tenta tudo o que dá, começa a procurar em lugares que nunca consideraria.”

Ele olhou para Noir, ainda meio sonolento.

“Certo?”

Ele sorriu de leve e voltou a passar a mão na barriga do pequeno lobo. Noir chutou uma pata traseira em resposta.

Os dedos de Noel pararam.

“…Espere um momento.”

Ele olhou de novo. Depois franzindo os olhos.

“Você não tem uma—” Ele piscou uma vez. “Sim, com certeza não tem tubo. Então, você é uma garota.”

Noir abriu um olho lentamente.

“Bem, ainda bem que ‘Noir’ funciona de qualquer jeito,” murmurou. “Ia ficar estranho.”

Noir soltou um resmungo suave, meio que um gemido chiado mais do que um uivo completo. Noel riu baixinho.

“Eu sei. Você está fazendo o seu melhor.”

Ele se levantou e pegou seu casaco.

“Fique aí. Voltarei com comida.”

O pátio da escola estava silencioso naquela manhã. A maioria dos estudantes já tinha partido para suas fazendas familiares, férias ou viagens de primavera. Noel passou pelos pátios vazios, com as mãos nos bolsos, o casaco solto sobre os ombros.

Mas os campos de treinamento não estavam vazios.

Na verdade, nunca estavam—pelo menos, não quando Selene von Iskandar estava por perto.

Ela estava sozinha no meio da arena aberta, cercada por manequins de treino espalhados e crateras superficiais de impacto. Sua respiração era constante. Controlada. Usava um uniforme de treinamento justo que moldava sua silhueta para facilitar os movimentos. O cabelo curto azul estava um pouco molhado de suor, e seus olhos ciano brilhavam com uma intensidade tranquila.

Noel parou logo fora da borda do campo.

“Ei, Selene.”

Ela não virou para olhar. “Oi.”

“Vai pra casa na pausa de primavera?”

Ela deu um pequeno aceno, ainda focada na postura.

“Certo… Posso te perguntar uma coisa?”

Selene parou no meio do movimento. “O que é?”

“Preciso de uma audiência com sua mãe.”

Ela arregalou os olhos. Virou-se para encarar Noel, com a sobrancelha levantada.

“Minha mãe?”

“Sim. Preciso falar com ela. É importante.”

O olhar dela ficou mais afiado. “Ela não aceita visitas facilmente. Sobre o que se trata?”

Noel não hesitou. “Preciso das Frostpetals.”

De imediato, ela reagiu.

A mão de Selene foi até a varinha ao seu lado. Ela a levantou sem hesitação, com os olhos frios.

“Como você sabe disso?”

Noel permaneceu imóvel. “Não posso te contar. Mas acho que recebeu uma carta de Iskandar. Uma sobre uma doença que está se espalhando pela região.”

O aperto dela ficou mais firme. “Como sabe disso?”

“Está acontecendo em Estermont também,” disse Noel. “E você sabe que são vizinhos.”

Selene não abaixou a varinha, mas sua expressão mudou—de cautelosa para incerta, depois para contemplativa.

“Estou tentando fazer uma cura.”

Um longo silêncio.

“…Não sei se ela vai concordar,” disse Selene finalmente. “Mas vou falar com ela.”

“É tudo o que estou pedindo,” disse Noel. “Obrigado.”

Ele virou-se e foi embora, sem esperar mais.

Noel desceu as escadas de trás da academia, passou pelo portão sul e entrou na cidade de Valon. O mercado já começava a despertar—vendedores gritando, carrinhos passando por entre as pedras, o som distante de cordas tocando.

Ele caminhou sem parar, ignorando os chamados dos comerciantes e dos artistas de rua, até chegar a um canto decadente do bairro antigo. Uma placa de madeira amassada pendia acima de uma porta torta. “Martelo do Bêbado”, dizia—mal legível pela tinta desbotada.

Dentro, o ar era pesado com cheiro de cerveja azeda, suor e poeira de ferro. Alguns homens estavam desacordados em cima das mesas. Outros discutiam sobre um jogo de cartas torto. Noel entrou no caos sem dizer palavra.

Uma voz retumbante cortou o barulho.

“Ora, ora, quem apareceu por aqui. Veio perder mais dinheiro, garotinho?”

Noel deu um sorriso discreto. “Na verdade, vim gastar o que ganhei. Lembra disso?”

Balthor grunhiu. “Não precisa ficar lembrando de memórias inúteis. Vem, me segue.”

Ele o conduziu por uma porta lateral e desceu uma escada rangente até uma sala cheia de bagunça e teto baixo. Estantes se inclinavam umas contra as outras, corredores estreitos cheios de caixas, armas penduradas no teto. Poeira girava em cada raio de luz.

“E aí?” perguntou Balthor, coçando a barba. “O que você quer desta vez?”

“Preciso de algo para armazenamento dimensional. Tenho muita coisa pra carregar.”

“Ah, uma viagem, hein?” Os olhos de Balthor se estreitaram de curiosidade. “Vai pra algum lugar?”

“Para o norte. As montanhas nevadas.”

“Iskandar? Então vai precisar de bastante comida… Ah, entendi o armazenamento. Olha só isso.”

Ele jogou uma pequena bolsa para Noel. Parecia uma carteira de moedas, no máximo.

“Isso aqui?”

“Suporta até 100 quilos. Trinta de ouro.”

“Vou pegar. Você tem granadas de sono?”

“Agora sim, é mais do meu jeito!” Balthor pegou uma caixa de madeira e abriu com um sorriso. Dentro, pequenos orbes pretos, redondos.

“Parecem bolinhas de gude,” observou Noel.

“Estouram ao impacto e liberam um gás preto. Quem respirar, desmaia na hora.”

“Quanto custa?”

“Cem de ouro cada.”

Noel piscou. “Sem desconto para estudantes?”

Balthor olhou para ele, depois soltou uma risada rouca. “Desconto para estudantes? Que diabos é isso? Claro que não. Não me diga que está sem ouro.”

“…Estou.”

“Hah! Sabia!”

“Podemos fazer um trato.”

“Ah, é? Então manda ver.”

“Vou trazer materiais exclusivos e raros. Muito raros. Chegue mais perto.”

Balthor se inclinou. Noel sussurrou algo em seu ouvido.

O anão parou… então seus olhos se arregalaram.

“Trato. Trato! Mas se estiver blefando, lembre-se—sei exatamente onde você está.”

“Sim, sim. Obrigado, velhote. Vejo você quando voltar.”

Ele virou-se e saiu.

Balthor ficou sozinho em seu ateliê desorganizado, coçando a cabeça.

“Aquele maluco... é insano. Seja lá o que ele estiver planejando… é pura loucura.”

Noel apertou o casaco ao redor do corpo ao entrar na movimentada zona dos açougues de Valon. O cheiro de sangue, gordura defumada e carne fresca impregnava o ar. Vendedores gritavam, agitando carne na frente de compradores potenciais, enquanto outros empilhavam caixas de porco salgado ou vaca desossada.

Caminhou entre a multidão com facilidade, evitando manchas de sangue e comerciantes barulhentos.

‘Trinta de ouro sobrando,’ pensou, tocando a bolsa ao seu lado. ‘Vai dar pra um mês de provisões. O básico mesmo.’

Parou numa banca de um homem forte, de avental sujo. Grandes pedaços de carne de boi e porco penduravam atrás dele como troféus. O homem levantou o rosto do cutelo ao ver Noel se aproximar.

“Preciso de carne. Boi e porco,” disse Noel. “Pra duas refeições por dia. Um mês.”

O açougueiro olhou para ele. “Pra quantas pessoas?”

“Uma. E meia.”

O homem levantou a sobrancelha.

“A outra é um filhote de lobo. Ela não é exigente, só come bastante.”

O açougueiro balançou a cabeça em confirmação e começou a embrulhar os pedaços grossos em papel encerado. “Também vai precisar de água,” disse.

“Tô cuidando disso já.”

Depois de embalar e pagar, Noel atravessou até uma lojinha menor, sob uma marquise. Comprou uma dúzia de garrafas seladas de água de nascente e alguns pacotes de frutas secas e bolachas de grãos—baratos, mas que duram bastante.

Colocou tudo na bolsa dimensional que Balthor tinha vendido, conferindo duas vezes para garantir que tudo estivesse bem vedado.

‘Isso deve durar um mês. Talvez um pouco mais se eu fizer a ração,’ pensou.

O barulho da cidade zumbia ao fundo enquanto ele saía do bairro, voltando rumo à academia.

‘Agora é alimentar esse voraz antes de partir.’

Comentários