O Extra é um Gênio!?

Capítulo 91

O Extra é um Gênio!?

'É melhor conseguir um maldito dragão com isso.'

O ovo estava no colo de Noel como um objeto comum. Sem símbolos brilhantes. Sem runas antigas. Sem zumbido místico. Apenas uma casca lisa, de cor azul profundo, com veias mais claras que pareciam pulsar delicadamente sob a luz. Frio ao toque. Mais pesado do que parecia.

Não parecia uma bênção.

Noel virou-o lentamente com a mão boa, observando a superfície que brilhava levemente ao captar a luz da janela próxima. Seu outro braço ainda estava firmemente bandado e doía a cada movimento. Respirar também não era exatamente confortável—suas costelas reclamavam a cada inspiração. Mas ele estava vivo.

Por pouco.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo suave rangido da porta se abrindo.

"Parece que você acordou."

Noel virou levemente a cabeça. O diretor, Nicolas Von Aldros, entrou na sala, alto e imponente mesmo usando apenas um simples casaco preto. Elena veio logo atrás, com expressão de alívio misturado com preocupação.

"Você está melhor do que esperava," disse Nicolas. "Como está se sentindo?"

"Já estive melhor," murmurou Noel.

Nicolas cruzou os braços. "Sabe que comportamento imprudente geralmente tem consequências, né? Já te avisei antes—pode vir falar comigo quando uma coisa dessas acontecer."

Noel deu um pequeno encolhimento cansado. "Gostaria de ter feito isso. Mas já estava sob o controle de Lereus naquela hora. Acho que... ele misturou sangue dele no café que eu tomei. Foi assim que ele entrou."

"Entendi..." O tom de Nicolas ficou mais pesado. Então ele olhou para Elena. "Senhorita Lestaria, poderia nos dar um momento?"

Elena hesitou. "Claro. Esperarei lá fora. Me avise se precisar de alguma coisa, Noel."

Noel levantou de leve a mão não ferida em sinal de despedida enquanto ela deixava a sala.

Após a porta se fechar, Nicolas caminhou em direção à janela, ficando de costas parcialmente de costas para Noel.

"Sinceramente," disse, "não sei como você consegue se meter nessas confusões. Primeiro o incidente no banquete... e agora isso. Um demônio escondido sob nossas narizes por mais de uma década, em Valor, quero dizer."

Ele olhou por cima do ombro.

"Os rumores que ouvi sobre você quando cheguei—alguns vieram dos seus irmãos, aliás—não parecem condizer com o garoto que vejo. Estou começando a pensar que você tem uma maldição... ou que tem uma atração por encrencas, igual uma mariposa na chama."

Noel soltou uma respiração seca. "Chame de intuição."

Nicolas riu, depois sua voz ficou séria novamente. "Não vim aqui só para te repreender. Primeiro... obrigado. Por sua causa, conseguimos salvar todos os estudantes. Os civis... isso é outra história. Não encontramos vestígios deles."

Uma pausa. Então:

"Noel, terei uma audiência com o rei."

Noel piscou. "O pai de Dior e Seraphina?"

Nicolas assentiu. "Rei Alveron IV. Essa situação tem... implicações muito maiores do que apenas um demônio rebelde. Veja, ainda há uma trégua entre o continente humano e o reino demoníaco de Velmora. Após a guerra de cinquenta anos atrás, eles vêm pagando reparações em sangue e ouro."

"Houve uma guerra?" perguntou Noel, levantando as sobrancelhas.

"Provavelmente você ainda não chegou nessa parte da sua aula de história," disse Nicolas, olhos brilhando. "Mas sim. E foi brutal."

uma faísca de amargura cruzou seu rosto.

"É de onde vem meu ódio por demônios, se você ainda não percebeu."

Noel fez um meio aceno. "Isso fica evidente."

Ambos ficaram em silêncio por um momento.

Nicolas deu um passo mais perto da cama. "Vamos direto ao ponto. Conheço você, Noel. Você não é do tipo que fica parado depois de uma coisa dessas. Então, não vou pedir que pare de investigar—mas quero que compartilhe o que descobrir."

Noel hesitou. Depois assentiu. "Justo. Encontrei alguma coisa... Lereus não agiu sozinho. Ele mencionou outros. Um grupo, trabalhando na sombra. Não sei quantos são—ou o que querem—mas são perigosos."

Nicolas absorveu silenciosamente, depois deu um aceno lento.

"Ótimo. Passarei essa informação ao Rei. Por ora... descanse. E estude. As provas estão chegando."

Noel soltou um longo suspiro cansado. "Há alguma chance de eu conseguir tirar férias dessas provas? Eu acabo de salvar a academia."

Um sorriso quase imperceptível surgiu nos lábios do diretor. "Não."

E assim, ele desapareceu no exato instante—deixando para trás uma suave ondulação de mana no ar.

Noel permaneceu olhando para o espaço onde ele estivera.

'Claro. Típico.'

Depois, voltou os olhos para o ovo.

Momentos depois, a porta rangeu ao se abrir lentamente.

Elena entrou cuidadosamente, fechando a porta ao seu lado.

"Ele ficou quieto por um tempo," ela disse, com voz baixa. "O diretor já saiu?"

Noel deu um leve aceno, levantando sua mão boa. "Ele desapareceu. Literalmente. Sumiu. Só... puff."

Elena piscou. "O quê?"

"Estou falando sério. Num momento ele estava aqui, no próximo—sumiu."

Ela deu mais alguns passos em direção à cama, parando após. Seus olhos se detiveram na beira da cama.

"Espere... por que você tem um ovo azul ao seu lado?"

Noel olhou para ele, depois para ela. "Acordei e ele estava lá. Bem ao meu lado."

Elena estreitou os olhos. "Certo... e isso não te preocupa nem um pouco?"

"Estou tentando não pensar nisso," murmurou Noel.

Ela o olhou por um longo tempo, suspirou e puxou uma cadeira para perto.

"Certo."

Noel recostou a cabeça no travesseiro. 'Juro que, se esse ovo chocar e se transformar em algo que eu precise alimentar, limpar ou treinar...'

O ovo ficou silencioso ao lado dele. Sua casca brilhava levemente com um tom ciano.

Elena ficou quieta por um momento, apenas observando o ovo, depois voltou o olhar para Noel.

Sua voz era suave. "Noel... você vai continuar se metendo nessas situações?"

Ele olhou de lado para ela. "Provavelmente. Não vou mentir."

Ela hesitou, então perguntou baixinho: "Por que você faz tudo sozinho?"

Noel expirou pelo nariz, depois virou a cabeça para olhar o teto novamente.

"Não sei," murmurou. "É assim... sempre foi assim."

'Na minha última vida e nesta.'

"Acho que só estou acostumado com isso."

Elena franziu a testa. "Sabe... há pessoas que ficariam ao seu lado. Que querem te ajudar. Como Elyra. Ou eu."

Noel piscou. Ele não olhou diretamente para ela, mas o silêncio foi suficiente para dizer o bastante.

"…Entendi," finalmente disse. "Obrigado. Sério."

Um sorriso discreto, mas caloroso, apareceu nos lábios dela. "Você tem ficado mais falante ultimamente. E nos últimos dias também. Aconteceu alguma coisa?"

Os olhos de Noel se desviaram de lado enquanto sua mente revivia um momento específico—

O telhado. O ar frio da noite. A voz de Elyra sussurrando seu nome antes de beijá-lo.

'Sim... aconteceu algo.'

Ele sacudiu a cabeça timidamente. "Mais ou menos."

Uma espiral de luz azul formou um sigilo circular no chão de mármore.

Quando desapareceu, o Diretor Nicolas Von Aldros estava em uma imensa sala de trono de pedra branca com veias de obsidiana. Grandes janelas de vitral projetavam feixes multicoloridos pelo chão. No extremo oposto, sentado em um trono de aço escuro envolto em seda vermelha, estava o Rei Alveron IV de Valor.

Ele era um homem moldado pelo poder.

De ombros largos e alto mesmo sentado, seu corpo irradiava força acima de uma presença régia.

Cabelos longos e loiros estavam presos atrás da cabeça com uma fita carmesim, impecáveis.

Seus olhos—vermelhos profundos, com um brilho sutil—encontraram Nicolas com uma calma que nunca desviava nem piscava por muito tempo.

"Alveron," disse Nicolas, com tom áspero. "Isso não pode acontecer de novo."

O olhar do rei manteve-se fixo. "Acho que o demônio na sua academia foi eliminado?"

Nicolas avançou, a voz ficando mais incisiva.

"Um demônio se infiltrou entre nós. Ele passou mais de uma década estudando na Espiral de Marfim, adquirindo conhecimentos e construindo credenciais—só para depois entrar na Academia Imperial de Valor. E conseguiu. Estudantes foram sequestrados. Torturados. Civis mortos. A maioria com dezoito anos."

Apontou com piercing precisão. "Crianças ficarão traumatizadas pelo resto da vida. E você está perguntando se já foi resolvido?"

O tom de Alveron permaneceu calmo. "Nicolas, há mais demônios entre nós do que você imagina. A maioria vive quieta. Pacífica. Nem todos são inimigos."

"Esse não é o ponto!" Nicolas retrucou. "Não foi uma invasão pacífica—foi um ataque. Um ato de guerra. Há mortos, Alveron."

"Entendo sua raiva," respondeu o rei, com voz tranquila. "Falarei com o Rei de Velmora. Prometo a você."

Nicolas o observou, imóvel.

"…Não. Escute, Alveron. Você é meu amigo. Como um irmão para mim. Mas está sendo ingênuo demais. Não preciso lembrar o que aconteceu com seu pai na guerra, certo?"

Uma longa pausa.

Então, sem dizer mais uma palavra, Nicolas desapareceu em uma onda de luz.

Rei Alveron permaneceu sentado em seu trono, sozinho.

Ele se inclinou um pouco para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

"…Demônios, hein."

Sua voz caiu, amarga e fria.

"Pode até não mostrar como você faz, Nicolas. Mas eu os odeio mais do que você."

Um suspiro.

"Sou rei. Preciso manter uma imagem."

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