O Extra é um Gênio!?

Capítulo 92

O Extra é um Gênio!?

O vento uivava pelos arcos destroçados da catedral esquecida.

Seu interior, outrora sagrado, jazia em decadência—fileiras de bancos quebrados, trepadeiras rastejando pelo piso de pedra, e um teto desabado que deixava a luz do luar entrar como um testemunho silencioso. O ar cheirava a mofo e incenso queimado, e o silêncio carregava peso, como se algo estivesse observando de além do véu.

No centro, sombras se moviam.

Figuras estavam dispersas pelo que antes eram filas de fiéis. Todas vestiam mantos pretos, rostos escondidos sob capuzes profundos. Um sigilo carmesim, fraco, brilhava suavemente, gravado em cada máscara—formas diferentes, mas todas compartilhando o mesmo símbolo: o Olho do Vazio.

Da varanda acima, uma figura menor encostava-se casualmente na grade de pedra. Uma foice enorme repousava em seu ombro, com a lâmina brilhando à luz pálida.

"E aí?" ela chamou, voz jovem porém cortante. "O sinal foi claro. Os outros estão atrasados de novo? Não gosto de perder tempo."

No banco da frente abaixo, outra figura encapuzada soltou um grunhido. Baixa e robusta, parecia mais um anão, embora seu corpo largo irradiava força bruta.

"Somos quatro. Você já sabe quem falta." Sua voz tinha um tom áspero, semelhante a pedra rolando. "Aqueles dois palhaços nunca levam as coisas a sério. Se fosse comigo, daria uma bronca neles."

"Haha." A garota com a foice riu suavemente, quase de forma zombeteira. "Você? Duvido que consiga acertar um golpe. Seu talento está na boca, não nos músculos."

O homem parecendo um anão levantou-se parcialmente, zombando. "Quer testar essa teoria, cria?"

Antes que ela pudesse responder, um rangido alto ecoou das portas da catedral.

Duas figuras entraram juntas, com mantos esvoaçantes, máscaras reluzentes. Eram da mesma altura, movimentos sincronizados como dançarinos. Uma delas acenou de leve, com preguiça.

"Desculpa~ O caminho ficou... complicado," disse, com um tom brincalhão na voz.

O gêmeo dele acrescentou, com uma risada: "Tivemos companhia. Demorou mais do que o esperado, hehe."

De repente, uma voz suave, porém envolta em estalidos de metal, surgiu das sombras—correntes. A figura sentada perto do fundo, com as pulsos e tornozelos enfaixados por algemas encantadas que pareciam não impedir sua presença.

"Agora estamos completos," ela disse.

A garota com a foice estreitou os olhos. "O que você quer dizer? Ainda falta um."

"Não." A mulher acorrentada inclinou a cabeça. "Ele já está aqui. Tem nos observando o tempo todo."

Um frio percorreu o espaço.

E em algum lugar, invisível, um sorriso começava a se formar.

Passos ecoaram pelo chão de pedra quebrada.

Por trás de uma coluna rachada, surgiu uma figura alta—usava capuz como os demais, embora seu passo fosse relaxado, até mesmo alegre. Ele aparentava não ter mais de vinte anos, postura ereta, voz leve e amigável.

"Ora, ora! Agora, todo mundo está aqui. Que alegria!"

Carregava uma esfera brilhante, segurada nos braços como uma relíquia sagrada. Ao se aproximar do altar no centro da catedral em ruínas, a esfera pulsou—primeiro fraca, depois mais forte, até que um suave zumbido vibrasse pelo espaço.

Os demais ficaram em silêncio.

Ele colocou a esfera suavemente sobre o altar. Ela pairou um centímetro acima da superfície, girando lentamente. Então, uma voz—antiga, etérea e chiando como vidro quebrado—surgiu do cristal.

"Filhos do Vazio… Um de nossos deixou cair."

A voz não carregava emoções. Simplesmente declarou.

De cima, a garota com a foice zombou.

"Sabia. Kaelith falhou. De novo."

Antes que suas palavras desaparecessem, um borrão atravessou o ar.

A figura mascarada que carregava a esfera apareceu de repente ao lado dela. Ninguém tinha visto ele se mover.

Com a mão, envolveu seu pescoço, levantando-a facilmente. Na outra, uma agulha longa e prateada reluziu perto de sua têmpora.

"Shhh," ele sussurrou, de forma suave e com diversão. "Por favor, não interrompa o mestre. É falta de educação."

Seus pés balançaram levemente no ar.

Depois, ele a soltou.

Ela caiu, com força no chão entre pedras dispersas, tossindo, mas ilesa. Quando seus olhos se reabroadaram, ele já estava de volta ao altar, com as mãos cruzadas na frente e a cabeça inclinada em uma falsa reverência.

A esfera voltou a falar, sem se perturbar.

"Por ora, permaneceremos seis. Kaelith… decepcionou, considerando o potencial visto no Açougueiro. Mas contratempos são esperados. Vocês irão ficar mais fortes. O Dia do Crepúsculo se aproxima."

"Quando o Olho se abrir… toda luz se apagará."

A esfera escureceu novamente, seu brilho se retraindo como um batimento cardíaco desacelerando. A voz silenciou.

A figura mascarada pegou cuidadosamente a esfera, como quem abraça um brinquedo.

Ele se virou para os outros e sorriu por baixo da máscara.

"Bom, vocês ouviram. Comportem-se~"

E assim, desapareceu na escuridão, com a esfera abraçada ao peito como uma canção de ninar.

Um silêncio pesado ficou após a partida do portador da esfera.

Apenas o vento sussurrava pelas arcadas quebradas da catedral, passando de leve pelos capuzes marcados de carmesim, como sussurros ao passar.

Então, a mulher com as correntes nos braços e tornozelos falou, com voz baixa mas carregada de autoridade.

"Então… o grande prodígio Kaelith está morto."

A garota com a foice, ainda sentada casualmente numa viga elevada, balançou as pernas como se nada tivesse acontecido.

"Quem liga para o que aconteceu com ele?" ela disse de forma sem jeito. "Ele falhou na missão uma vez, tentou consertar, e fracassou de novo. Então, não era digno desde o começo."

Um resmungo vindo do figura baixa e robusta na primeira fila—com uma voz como rochas rangendo juntas.

"Você fala rápido para alguém que nunca o derrotou em um duelo. Deixe-me te lembrar, Kaelith tava a um passo do nível Ascendente. Ele te esmagaria se levasse a sério."

Ela rolou os olhos.

"Força sem cérebro é só potencial desperdiçado. Veja quem ainda está respirando e quem virou pó, anão."

Ele se levantou até a metade, com punhos cerrados. "Repita isso, cria."

Antes que algum pudesse agir, a mulher com as correntes deu uma risadinha.

"Chega. Suas discussões são patéticas," ela disse, agora em pé, altiva. Sua presença era imponente—alta, imponente, as correntes ao redor vibrando suavemente com o poder selado. "A morte do Kaelith foi inesperada. Mas não foi injusta."

A garota com a foice deu de ombros, murmurando: "Tanto faz."

O anão voltou a se sentar, com os braços cruzados, visivelmente aborrecido.

Ela prosseguiu.

"Ele subestimou seu oponente. Só isso é preciso."

Por um momento, ninguém falou.

Então, a garota com a foice se levantou. "Enfim, estou entediada. Se acabamos de lamuriar pelos restos do Kaelith, vou embora."

Sem fazer som, sua silhueta se desfocou, desaparecendo na escuridão como fumaça soprada pelo vento.

A mulher com as correntes virou-se para sair logo em seguida.

"Parece que o Dia do Crepúsculo chegará mais cedo do que esperado… Estarei pronta."

Ela desapareceu por entre uma das navegas quebradas, as correntes arranhando suavemente o chão de pedra antes que o silêncio retomasse o espaço.

Apenas o anão ficou.

Ele suspirou e se levantou, sacudindo o pó de sua capa.

"Não posso deixar meu pequeno império sem supervisão por muito tempo. Ainda há ouro a ganhar."

Ele partiu com uma risada, sumindo nas sombras.

As duas figuras idênticas no fundo—os gêmeos—não disseram uma palavra. Simplesmente assistiram cada membro desaparecer, um por um.

E então, como reflexos em uma lagoa parada, eles também sumiram.

A catedral voltou a ficar vazia.

Apenas o vento permanecia.

Comentários