O Extra é um Gênio!?

Capítulo 103

O Extra é um Gênio!?

A luz matinal filtrava suavemente pelas grandes janelas do quarto de Noel, formando linhas suaves no chão. Lá fora, a neve já tinha derretido. Os pássaros cantavam. A primavera tinha oficialmente começado.

Noel sentou-se na ponta da cama, descalço, com Noir enroscado em seu colo. O pequeno lobo dormia, com o peito subindo e descendo lentamente, a cabeça repousada entre os dobras do roupão de Noel. Sua pelagem, escura com um leve matiz violeta, brilhava com a luz quente.

Noel acariciou suas costas de maneira distraída, com o olhar distante.

'Agora Marcus foi com a Clara treinar na região de Nivária...'

Ele fez uma pausa.

'Na história original, ele nunca descobriu a doença que se espalhava pelo norte, pelo menos não tão cedo. Ele não podia. Marcus não tinha tanta proximidade com Elyra nesse início de história. Ninguém nunca lhe contou o que estava acontecendo. Por isso sua mãe morreu.'

Seus dedos pararam por um momento.

Um suspiro silencioso.

'Chega de me preocupar com como a história costumava ser. Vou arrumar isso, depois me preocuparei com o desfecho. É isso que o sistema quer. É isso que eu quero. Vou proteger o que importa pra mim. E não quero ver Elyra chorando.'

Olhou para Noir, que moveu-se ligeiramente, mas não acordou.

'Está na hora de contar a ela que vou com ela até Estermont.'

Seus olhos se estreitaram levemente.

'Depois disso, precisarei ir para Elarith. O casamento... isso mesmo. Primeira vez saindo do continente. Vou ter que embarcar num navio. Há um oceano inteiro entre aqui e a costa norte de Elarith.'

Noel levantou-se cuidadosamente, colocando Noir na cama, onde o pequeno lobo virou-se de costas e continuou dormindo.

Ele se esticou uma vez, em silêncio.

Depois caminhou em direção ao banheiro.

Um banho quente chamava. E, depois... uma conversa que talvez mudasse tudo.

Com vapor saindo da fresta da porta do banheiro, Noel saiu, com a toalha enrolada na cintura, o cabelo loiro ainda molhado e desgrenhado. Ele foi fechar a porta, só que parou emfreeze.

Ali, sentado casualmente na sua cama, estava Elyra von Estermont.

Ela tinha uma perna cruzada sobre a outra, um sorriso sutil nos lábios e Noir confortavelmente aninhado em seu colo. O pequeno lobo balançava o rabo como se estivesse exatamente onde deveria estar.

Os olhos dela passaram por Noel uma vez.

"Agora, essa é uma visão melhor do que da última vez."

Noel bateu a porta do banheiro com força, fazendo um barulho alto.

"Oi, Elyra. Sabe, tem uma coisa chamada bater na porta. É bastante comum em sociedades civilizadas."

"Não seja tão dramático. Só vim fazer uma visita."

A voz de Noel saiu abafada pela porta. "Pode ser gentil e pegar as roupas penduradas na cadeira e passar para mim?"

Elyra mexeu suavemente Noir de lado, levantou-se e pegou as roupas na cadeira. Caminhou até a porta, colocou a calça e a cueca na mão estendida dele.

"Pronto."

Noel pegou as roupas e fez uma pausa.

"E a camisa?"

Elyra piscou inocentemente. "Ah... ela não estava na cadeira."

"Certo. Obrigado de qualquer jeito."

Algum tempo depois, a porta se abriu novamente. Noel saiu vestido, mas sem camisa. Seu torso era magro, a pele pálida, porém saudável, cada músculo definido após meses de treino silencioso. Ele secava o cabelo molhado com uma pequena toalha enquanto passava por ela.

O olhar de Elyra o acompanhava com interesse evidente.

Noel olhou para ela. Depois para a cadeira. E voltou a olhá-la.

A camisa estava ali mesmo, pendurada onde ela tinha acabado de estar.

"…Então, a camisa estava lá."

Elyra sorriu de forma doce. "Ops. Não percebi."

Ele a encarou de forma implacável.

"Hum-hum. Impressionante como ela conseguiu se esconder bem ao lado das calças."

"Desculpe mesmo," ela disse, sem nenhuma agitação. "Quer que eu te ajude a colocar também?"

"Não, obrigado. Acho que vou me virar. Então — por que você está aqui?"

Elyra voltou a se sentar na cama, alisando a saia. Noir, agora totalmente acordado, imediatamente voltou a subir em seu colo, como se reivindicasse seu lugar de direito. Ela acariciou as orelhas dele e ele soltou um som suave, satisfeito.

"Eu te disse. Vim te ver," ela disse, com tom leve. "E encontrei essa coisinha perambulando por aí. É bem fofo. Deixa eu adivinhar — foi isso que saiu do ovo?"

Noel colocou a camisa, ainda secando o cabelo com a toalha.

"Exatamente."

Ela olhou para Noir e depois voltou a olhar para ele.

"Acho que é uma criatura mágica."

Ele parou no meio do movimento, deixando a toalha cair um pouco.

"…Como você sabe disso?"

Elyra inclinou a cabeça, confusa. "Você não sabia? Criaturas mágicas assim podem ser compradas. São raras, caras, mas famílias como a minha têm algumas. Geralmente são usadas como familiars.[1]"

Noel piscou, pensativo.

'Certo... claro que são. Tinha que imaginar. Os nobres sempre tinham acesso a coisas assim na novel.'

Ele respirou fundo e cruzou os braços.

"Aposto que não devia se surpreender, vindo da família mais rica e poderosa de Valor."

Elyra sorriu satisfeita. "Parece que você finalmente entende com quem está lidando."

Ela olhou novamente para Noir. "Qual é o nome dele?"

"Noir."

Ela piscou. "O que significa?"

"‘Preto’. Em outra língua."

Seus olhos brilharam levemente. "Não sabia que você era multilíngue."

"Hobby antigo," Noel disse, virando-se para pendurar a toalha. "Não pergunte."

Ela levantou as mãos, em um gesto de rendição. "Tudo bem. Não vou perguntar."

Um breve silêncio se estabeleceu — tranquilo, calmo. Noir se esticou no colo dela como uma manta sonolenta. Então, Noel virou-se novamente, com a expressão fechada.

"Tem uma coisa mais que queria conversar com você."

Elyra levantou os olhos de Noir, já sorrindo.

"Ah? Deixa eu adivinhar…", ela disse com tom brincalhão, "Você também caiu de amores por mim?"

Noel soltou um suspiro suave e foi até a cadeira, apoiando-se nela.

"Vamos deixar essa conversa para outro momento."

O sorriso dela permaneceu, mas seus olhos se estreitaram levemente — intuindo a mudança no tom dele.

"Tem algo mais importante," ele completou.

Ela inclinou a cabeça.

"Estive pensando na sua carta," Noel continuou. "Sobre sua mãe."

A expressão de Elyra não mudou, mas sua postura ficou mais reta. A diversão em seus olhos desapareceu, dando lugar a algo mais calmo — medido.

"Vou com você," ele disse. "Para Estermont."

Ela piscou uma vez. "…Você vai?"

"Ainda não sei exatamente o que posso fazer. Mas vou tentar. Talvez eu tenha encontrado algo que possa ajudar ela."

Noir se mexeu no colo dela, percebendo a pausa na respiração dela. Elyra o olhou, indecifrável.

Então, sua voz ficou calma e fria.

"Noel Thorne… espero que você entenda bem o que acabou de dizer."

[1] - Criaturas mágicas que podem ser compradas, frequentemente usadas como companheiros ou familiars em contextos mágicos.

Comentários