
Capítulo 97
O Extra é um Gênio!?
O suave tilintar de porcelana e as conversas abafadas preenchiam o elegante café na rua principal de Valon. Um suave aroma de grãos torrados e pão com mel flutuava pelo ar, misturando-se ao calor do sol da manhã que filtrava pelas altas janelas de cristal. Lá fora, a cidade agitava—comerciantes, estudantes e carruagens cruzando as pedras do pavimento numa dança de rotinas simples.
Noel estava sentado perto da janela, trajando um casaco de inverno escuro com detalhes prateados, o colarinho levantado até tocar sua mandíbula. Uma chávena de chá quase vazia repousava na sua frente, sem ter sido tocada nos últimos dez minutos.
Seus olhos acompanhavam os pedestres, mas seus pensamentos estavam longe dali.
'A mensagem dizia ao meio-dia. O mensageiro entregou ontem—nesse lugar, exatamente nesta hora. Claro, a opinião do pequeno Noel não importa.'
Ele olhou para o relógio de bolso na mesa. Noel chegou cedo, como sempre.
O café tinha uma decoração de bom gosto—arranjos florais discretos repousavam em vasos de cerâmica em cada mesa, e uma delicada treliça emoldurava as janelas como se fosse uma obra de arte. Não era o lugar que escolheria por conforto, mas encaixava-se perfeitamente com ela: refinado, controlado, ornamental.
Então, ele viu.
Uma carruagem azul-marinho, puxada por quatro cavalos de raça branco, parou diante da entrada. O emblema—Casa Thorne—brilhava ao lado em relevo prateado. Era um tipo de ostentação que só sua família consideraria "modesta".
'No horário exato.'
A porta se abriu. Uma jovem alta saiu, vestida com um manto de inverno fluido, forrado com fios de prata. Seus cabelos escuros estavam presos em um penteado formal, e nenhum fio ousava rebelar-se. Cada movimento dela era preciso, ensaiado—como se estivesse sempre no palco, do qual nunca descesse.
Livia Thorne.
Ela entrou sem hesitar, com o salto dos sapatos fazendo um som suave contra o piso de azulejo.
Quando seus olhos encontraram Noel sentado à beira da janela, ela não sorriu. Noel, por sua vez, não se levantou, não acenou nem a cumprimentou com calor. Eles não tinham esse tipo de relação.
Ele simplesmente permaneceu ali, observando enquanto ela se aproximava—como um soldado esperando por um antigo inimigo em um tabuleiro de xadrez.
'Vamos ver no que isso dá.'
Livia sentou-se à sua frente, cruzou as pernas e passou a manga de seus luvas como se fosse ajeitar uma falsa rugas.
"Olá, querida irmã", disse Noel, com o tom seco.
"Poupe-me do ‘querida’. Não estou aqui por vontade própria", respondeu ela friamente.
'Como esperado.'
"Então, por que está aqui?" ele perguntou, com a voz monótona.
"Pai enviou-me", ela respondeu, retirando um carta de sua bolsa elegante. O envelope tinha sigilos de Casa Thorne e Casa Lestaria em relevo. "Ele quis que eu entregasse o convite de casamento pessoalmente. Aqui."
Noel pegou a carta, mas não a abriu. Tampouco lhe agradeceu.
"Entendo."
Um silêncio se instalou antes que ele acrescentasse: "Então. Como vai seu futuro marido?"
Os lábios dela se curvaram em um sorriso sutil, indecifrável. "Ah? Meu irmão mais novo está querendo interessar-se—ou talvez até se preocupar?"
Noel não respondeu, apenas esperou.
"Ele tem cabelos loiros e olhos azuis suaves", ela continuou. "É gentil, atencioso. Ajuda a todos. Um verdadeiro cavalheiro."
"Interssante", murmurou Noel. "Li em algum lugar que os melhores relacionamentos são feitos de contraste. Acho que o pai acertou em cheio—uma pessoa assim com uma cobra."
Os olhos de Livia se estreitaram, mas o sorriso nunca desapareceu. "Ora, meu irmãozinho aprendeu a fazer piada?"
"Não é piada. Eu realmente acho que alguém como ele pode ser bom para você."
Antes que Livia pudesse responder, uma garçonete se aproximou da mesa deles.
"A senhora gostaria de pedir algo?"
Livia deu uma olhada desdenhosa. "Não precisa. Só estou indo embora."
Ela virou-se para Noel. "Não brinque com fogo, irmãozinho. Pai disse que sua presença é obrigatória. Você não vai conseguir escapar."
Noel recostou-se na cadeira. "Anotado. Também te amo, irmã."
Ela não respondeu. Levantou-se, virou-se e foi embora sem olhar para trás.
A garçonete piscou. "Uh... gostaria de algo?"
"Um café. E um suco, por favor. Para mim."
Ela assentiu e foi embora.
Noel olhou novamente pela janela enquanto a carruagem sumia pela rua.
'Bom, uma preocupação a menos. Agora... os exames.'
Noel caminhou pela rua com as mãos nos bolsos do casaco, o sabor quente do café com cítrico ainda na boca.
'Desde que misturei o antídoto com o café... o gosto ficou estranhamente bom. Talvez eu esteja mesmo meio quebrado.'
O sol começava a se pôr, lançando tons dourados pelas ruas de paralelepípedos de Valon. Ele virou uma esquina, já pensando no que viria a seguir.
'Vou incubar o ovo quando voltar. Aquela pose idiota de novo. Estudo enquanto...'
BUM!
Algo o atingiu.
Ou melhor, alguém.
Uma figura menor que ele dobrou a esquina em alta velocidade e colidiu direto contra o seu peito. Noel mal conseguiu manter os pés, enquanto a pessoa tropeçava para trás e caía no chão.
O capuz dela escorregou.
Cabelos cor-de-rosa escorreram pelos ombros, como flores de cerejeira sobre a neve.
Noel congelou.
"...O Santo?"
Olhos grandes, gentis, piscavam para ele, surpresos—puros, quase brilhando. Havia algo... tranquilizador na expressão dela, como uma brisa quente de primavera tocando pele fria.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ela se levantou de um salto e segurou sua mão.
"Venha comigo."
"O quê—?"
Ele mal teve tempo de protestar. Ela puxou com força inesperada, guiando-o por um beco sem olhar para trás.
Noel olhou para as mãos unidas, confuso.
'Que raio está acontecendo agora?'
A Santo não parou até que ela virou abruptamente por um caminho estreito entre dois prédios de pedra. O ar tinha cheiro de umidade e especiarias—restos de alguma loja próxima. Noel, ainda confuso, seguiu mais por instinto do que por intenção.
De repente, ela parou.
E empurrou-o suavemente contra a parede.
Noel franziu o rosto, preso entre a pedra fria e o olhar intenso da garota de cabelo rosa. Ela o encarava com uma concentração incomum, como se tentasse ver algo além do físico—algo dentro dele.
Eram menos de um metro de distância.
Chega demais.
'Que diabos? Ela vai exorcizar ou me beijar? Uma das duas.'
Seus olhos brilhavam com uma luz mística—empática, porém firme. Noel engoliu em seco. Nenhum deles falou por alguns segundos.
Até que ele levantou uma sobrancelha, visivelmente desconfortável.
"...Oi? Posso te ajudar em alguma coisa?"