O Extra é um Gênio!?

Capítulo 71

O Extra é um Gênio!?

As manhãs de Noel tinham um ritmo.

Era o primeiro a levantar-se, antes mesmo da maioria da academia.

Nunca tomava café da manhã, não se distraía e ia direto fazer sua rotina.

A rotina de sempre.

O pátio de treinamento atrás do corredor leste sempre estava silencioso ao amanhecer—exatamente como ele gostava. O vento trazia uma brisa fria, aguda o suficiente para manter a mente alerta. A grama coberta de orvalho brilhava e os bonecos de treinamento de madeira, alinhados na parede, pareciam observadores silenciosos.

Hoje, treinava sem usar sua espada.

Em vez disso, ficou em frente a um dos alvos detonados, o casaco dobrado cuidadosamente no banco atrás dele. Sua respiração estava calma. A mão direita estendida.

Mana reunia-se ao redor de seus nós dos dedos, lenta e constante.

Um feitiço novo foi lançado.

"Glacialis."

Um espigão de gelo irregular disparou em sua direção, afiado e limpo, perfurando o torso de palha do boneco e fixando um pedaço de madeira lascada na parede atrás dele.

O ar silvou com frio.

Ele expirou uma vez. Concentrou-se.

Levantar novamente a mão.

"Glacialis."

Um fragmento de gelo se dividiu em dois em pleno ar, um atingindo o ombro, o outro rasgando uma linha na direção do peitoral.

'Boa dispersão, mas ainda lento na hora da ação.'

Ele deu um passo para trás, enxugou o suor da testa e relaxou os ombros.

Foi então que os viu.

Dois estudantes.

De pé perto da borda do pátio, semi-envoltos por uma parede.

Não os tinha ouvido chegar.

Sempre ouvia quando as pessoas chegavam.

Suas fardas indicavam que eram segundos anos. Nobres. Rostos familiares que ele rara vez prestava atenção—até agora.

Não estavam assistindo de espectadores.

Esperavam.

Noel não alterou sua expressão. Não diminuiu o ritmo dos movimentos.

Pegou seu casaco, vestiu-o, ajustando as mangas com firmeza e precisão.

Depois começou a atravessar o pátio, como se sua rotina matinal tivesse acabado.

Os dois fizeram um movimento para dentro.

"Thorne," disse um, rápido demais.

"Podemos conversar?"

Noel parou a alguns passos de distância, mãos nos bolsos.

Sua voz estava calma. Sem expressões.

"Estou ocupado."

"Vai ser só um segundo."

"Então, agilize."

Eles trocaram um olhar.

Então, sem dizer uma palavra, um deles assentiu para o outro—e ambos avançaram, fechando seu flanco.

Noel olhou ao redor. O pátio estava vazio. Ainda cedo demais para a equipe, nem mesmo Selene treinava ali naquele horário—e ela treinava todo dia. Ele estava sozinho.

Claro.

'Ah, por favor… Que é isso, um romance cheio de clichês?'

Justo então, do corredor aberto, surgiram duas sombras.

Se posicionando.

'Recibo de volta. Mas sim, esses bastardos não vieram aqui para conversar.'

Agora, eles o cercavam. Mal feitos.

A disposição deles era desajeitada—muito dispersa, ansiosa, deixando brechas por todo lado.

'Que emboscada de merda, sério.'

Ele respirou pelo nariz.

Colocou a mão esquerda atrás das costas, tocando a manta reativa de mana que tinha costurada em seu casaco.

Gelo começou a se acumular em sua palma—devagar, controlado.

"Você escolheu o cara errado numa manhã errada. Tenho várias coisas na cabeça por causa de ontem, e isso? Essa não é a hora certa."

Seus dedos tremeram levemente.

"Sortudos vocês. Preciso gastar energia. E vocês, idiotas, são perfeitos para isso.'

Eles começaram primeiro.

Previsível.

Ansiosos demais.

Quando o quarto entrou em posição atrás dele, um dos atacantes da frente levantou a mão, mana ardendo na palma.

"Ventaris!"

Um jato de vento comprimido disparou contra o peito de Noel.

Noel se moveu ligeiramente para a esquerda, deixando a rajada passar a seu lado do ombro.

Antes que pudesse reagir, o segundo seguiu.

"Ignis Fractum!"

Fogo se lançou em um arco forte, girando em formato de lascas irregulares. Noel levantou a mão e a varreu de lado.

"Glacialis."

Uma parede curva de geada explodiu entre eles, capturando as chamas e apagando-as no ar com um silvo que ecoou pelo pátio vazio.

A parede ruiu, mas permaneceu intacta.

Fumaça girava, mana estalava.

'Então é assim que vão jogar.'

De trás, o terceiro lançou um feitiço direto nas costas dele.

"Concussus!"

Força sônica. Projetada para desorientar.

Noel abaixou-se, deixando passar por cima da cabeça dele—muito ampla, muito lenta.

Virou-se no meio do agachamento e murmurou:

"Frigus."

Seu pé tocou o chão.

Uma fina camada de gelo se espalhou instantaneamente pelo chão, pegando o quarto atacante no meio do passo. O garoto escorregou forte, caindo no chão com um grunhido e escorregando em direção a uma das hastes de treinamento.

Noel não atacou mais.

Não precisava.

Os outros três se reagruparam, dando voltas mais apertadas.

Respirando com esforço. Suando.

E Noel?

Ainda calmo.

Intocado.

Deixou sua mana pulsar de novo, sem força, apenas o suficiente para mostrar que ainda estava carregado.

'Ah, esses são uma porcaria, quero dizer, são amadores.'

'E já lutei por minha vida algumas vezes, eles nunca tiveram que lutar para sobreviver.'

Um deles rangeu os dentes.

"Você só se esconde atrás de truques!"

"Melhor do que se esconder atrás do sobrenome do papai," Noel disse, monótono.

Um feitiço veio na direção dele.

"Flammae Lancea!"

Uma lança concentrada de fogo—direto ao peito.

Desta vez, Noel não desviou.

Plantou os dois pés e sussurrou:

"Crystallum."

Um escudo de placas de gelo hexagonais se encaixou na frente dele.

As chamas bateram contra a barreira—quebraram-se ao impacto.

Quando a fumaça se dissipou, Noel ainda estava lá.

De pé, imóvel diante dos ataques.

O ar agora estava frio. Afiado de magia. Amargo de tensão.

Ele olhou para o último que ainda permanecia de pé.

"Acabou?"

Um dos outros gemia no chão, segurando as costelas. Outro engatinhava para trás, tentando se levantar.

Noel deu um passo à frente.

Isso foi suficiente.

O quarto virou-se e fugiu.

'Nem consegui usar fogo. Que fracasso, vocês são péssimos, nem valia a pena para treino.'

Noel exalou uma vez, deixando a geada em suas veias se acalmar.

Mas ele deixou claro:

Que não era alguém que poderiam encurralar.

No instante em que o último nobre caiu no chão, o ar estalou.

Uma suave pulsação de luz azul se espalhou no ar—ativando a matriz de contenção.

Dezenas de glifos brilharam sob as arcadas do pátio, espalhando-se como veias de luz. O sistema detectou uso excessivo de mana e colisões de feitiços dentro dos limites da academia.

Segundos depois—

Passos.

Ágeis e precisos.

E então, a voz:

"Afaste-se deles, Sr. Thorne."

Noel virou um pouco o rosto, com os ombros soltos, mas com o olhar afiado.

Lereus estava bem além da borda do pátio congelado, cercado por dois assistentes com luvas de contenção e cinturões de pergaminhos de emergência.

Suas vestes estavam perfeitas, sem sinais de pressa. As mãos cruzadas atrás das costas. Sua expressão—calma. Contida.

'Como diabos você está aqui tão cedo?'

Não falou.

Ainda havia uma pesada carga de mana no ar entre eles.

Um dos assistentes hesitou.

Lereus deu mais um passo à frente.

"Três estudantes ficaram feridos. Um fugiu antes de chegarmos, vários feitiços foram lançados dentro de uma área restrita."

Seu olhar permaneceu em Noel.

"Você explicará ao Diretor. Agora."

Noel deu uma risada seca, sem humor.

"Sempre estou disposto a conversar."

Um dos nobres no chão reagiu com um gemido.

Lereus olhou para baixo uma vez, depois levantou o rosto.

Mas não para olhar nos olhos de Noel.

Para seu mana.

Para a fina trilha de gelo ainda saindo das luvas.

Sua voz não mudou, mas sua postura ficou mais firme.

"Siga-me. Agora."

Noel obedeceu.

'Sabia que você tinha cheiro de armadilha, novo professor, mas ainda não sei por quê.'

Sabia que aquele professor era mais do que dizia ser.

E isso tornava a reunião com o Diretor quase secundária.

A enfermaria tinha odor de ervas antissépticas e bálsamo de mana—limpa, aguda e estranhamente reconfortante.

Noel entrou, a porta fechando-se suavemente atrás dele.

A sala estava silenciosa. Apenas um outro estudante jazia em uma cama no canto, de olhos fechados, braços enfaixados com faixas que brilhavam com runas de cura.

Ao fundo, a enfermeira—uma mulher de meia-idade, cabelo curto prateado preso em um coque cuidadoso, olhos que viram mais ferimentos do que muitos professores tinham visto livros de feitiços.

Ela escrevia algo em um pergaminho e disse:

"Já faz tempo, Sr. Thorne."

Ele levantou uma sobrancelha. "Não faz tempo suficiente, aparentemente."

Ela olhou para ele, escaneando-o rapidamente.

"Mas vejo que trouxe trabalho comigo hoje."

Ele deu um passo à frente, desembarassando a manga esquerda e mostrando uma marca de queimadura tênue ao longo do antebraço.

" Estou bem," disse de forma seca. "Mas preciso passar pelo check-up mesmo assim."

A enfermeira revirou os olhos.

"Protocolo da academia. Não podemos deixar nossos prodígios com hemorragia interna ou retroalimentação de mana, né?"

Noel sentou-se na borda de um banco acolchoado, deixando ela examinar seus braços e têmporas com uma mão lenta e experiente.

Ela pressionou uma runa contra seu pulso e esperou o resultado.

"Você não está mentindo. Eu vejo."

Ela virou-se para preparar uma pomada pequena.

"Ainda assim…", murmurou, aplicando o bálsamo frio em uma área próxima ao cotovelo, "…três de uma vez? Que eficiência."

"Quatro, mas um fugiu. Sou uma ótima aluna."

Ela soltou uma risada e entregou a ele um pano para limpar o restante do resíduo.

"Tenta não fazer disso um hábito, senhor Thorne."

"Fique tranquilo, não gosto de confusão, senhorita."

E assim, ele se levantou novamente.

Costas retas.

Mandíbula firmada.

Pronto para o que o Diretor tivesse a dizer.

O escritório do Diretor era silencioso.

As paredes eram repletas de prateleiras, não com troféus, mas com artefatos: pergaminhos selados em tubos de cristal, armas desgastadas pelo tempo, pedaços de história que vibravam com mana esquecida.

Noel ficou de frente para a mesa, mãos nas costas.

Nicolaus Von Aldros sentava-se com os dedos entrelaçados sob o queixo. Seus olhos eram afiados, pensativos, mas impossíveis de decifrar—como alguém acostumado a jogar xadrez por muitas vidas.

Durante alguns segundos, permaneceu em silêncio.

Finalmente, falou:

"Você foi atacado por quatro estudantes."

"Correto." Noel respondeu de forma direta.

"Você reagiu com magia elementar dentro do campus. Em uma zona não sancionada."

"Também correto."

Nicolaus recostou-se na cadeira.

"Conte-me o que aconteceu."

Noel fez um relatório claro e objetivo. Sem desculpas—só os fatos. A emboscada, os feitiços, a retaliação… e o último fugindo do local.

Quando terminou, Nicolas ficou em silêncio novamente.

Depois, falou:

"Acredito em você."

Noel levantou uma sobrancelha.

"Eu… agradeço."

"A verdade nem sempre precisa de emoção para se validar," Nicolas disse.

"E eu vi os registros desses quatro. Estão alinhados com Dior. Talvez oportunistas, você pode dizer, imprudentes?"

Noel exalou.

"Então estou limpo, certo?"

Houve uma pausa.

Então, ele disse:

"Não."

Os olhos de Noel se estreitaram.

"Como assim?"

Nicolaus se levantou lentamente e caminhou até a janela, com as mãos às costas.

"Existem regras, Sr. Thorne. O uso de magia dentro do campus interno é regulamentado por uma razão. Mesmo que seja legítima defesa, você ainda causou impacto suficiente para ativar os mecanismos de emergência."

"O que eu deveria fazer? Deixar eles me queimarem?"

Nicolaus não se virou.

"Não. Você fez o que precisava. E não tenho culpa por isso."

Ele se virou agora, olhos calmos.

"Mas a academia não é só sobre justiça."

Mandíbula de Noel apertou.

"Então qual é a punição?"

Nicolaus voltou à sua mesa.

"De agora em diante, você será retirado do alojamento de Classe-S."

Noel respirou fundo.

"Você está brincando."

"Não estou."

"Isso é uma recompensa para eles."

Nicolaus não vacilou.

"E, no entanto, já está decidido."

"Estão castigando o cara que foi atacado porque os outros têm melhor imagem pública?"

"Estou preservando a estabilidade, Sr. Thorne."

Noel apertou os punhos, mas não falou nada.

Apenas concordou com a cabeça.

Mandíbula firme, a tensão percorrendo seus braços como ferro congelado.

Depois, calmamente, Nicolaus disse:

"Você não pareceu surpreso ao eu mencionar que você está na Classe-S."

Noel respondeu:

"Sabia que tinha sido escolhido antes mesmo da lista oficial sair."

Os olhos de Nicolaus se estreitaram ligeiramente, não com desconfiança—mas curiosidade.

"Como?"

Noel encarou sem hesitar.

"Não te devo uma explicação, né?"

Ele sorriu de modo amargo.

"Além disso, não estou mais na lista. Não faz diferença, certo?"

Nicolaus não insistiu.

"Tudo bem."

Noel virou parcialmente, mas parou novamente.

Sua voz baixou, mais fria.

"Você sabe que se Dior vencer…"

Pausa.

"…a academia vai mudar."

O rosto de Nicolaus permaneceu impassível. Cruzou as mãos outra vez sobre a mesa.

"Sim."

"A academia mudou diversas vezes desde que me tornei Diretor."

Uma centelha de algo passou por sua fala—memória, talvez.

"E, mesmo assim, sempre manteve seu prestígio."

Noel bufou.

"Quantos anos você tem, afinal?"

"De idade, suficiente."

Nicolaus sorriu quase imperceptivelmente.

"De idade para dizer que já vi mudanças que fizeram bem. E outras que fizeram mal."

Noel o fitou por um instante.

Então disse:

"Se o Conselho Estudantil cair em mãos ruins, essa mudança não será uma reforma. Vai degradar o prestígio que vocês tanto prezam."

Nicolaus inclinou um pouco a cabeça.

"Você sabe de alguma coisa?"

Noel fez uma pausa, olhos afiados.

"Não. Dessa vez… é só minha intuição."

Nicolaus não respondeu.

E Noel não esperou.

Virou-se e saiu do escritório na mesma atmosfera pesada de silêncio que entrou.

O corredor estava silencioso.

Parecia até demais.

Quando virou a esquina perto da escadaria principal, viu-os.

Os quatro estudantes.

Seus atacantes.

Um com o pulso enfaixado, outro mancando um pouco, mas de pé, andando e conversando em voz baixa.

Quando o perceberam, ficaram em silêncio.

Depois, sorriram.

Não em zombaria.

Nem em vitória.

Em reconhecimento.

Aquele tipo de sorriso que dizia: conseguimos passar por isso.

Noel não disse uma palavra.

Nem desacelerou o passo.

Mas na cabeça dele—

"Achavam que podiam me assustar. Espero que lembrem como isso acabou."

Ele continuou caminhando.

Mas a guerra já estava começando.

E, com esse golpe, ele poderia perdê-la.

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