O Extra é um Gênio!?

Capítulo 70

O Extra é um Gênio!?

Elyra estava ao lado do portão da academia, logo além do caminho do jardim externo, onde as patrulhas habituais não passavam até o meio-dia.

Ela usava preto.

Um casaco longo e ajustado com detalhes prateados e gola alta, feito para combinar elegância e praticidade. Seus cabelos, normalmente presos em uma trança apertada, estavam soltos ao redor dos ombros. Uma única gema rubi pendia em seu pescoço—pequena, discreta, mas inconfundivelmente Estermont.

Ela segurava duas parcas lacradas em uma mão.

Passes oficiais, assinados e convalidados.

E aguardava.

'Hoje preciso ter certeza, preciso entender esse sentimento estranho.'

Então veio o som de passos se aproximando.

Noel.

Ele usava um casaco azul-escuro—profundo, quase na cor da meia-noite—com fechos prateados e um brasão sutil do Thorne costurado em uma manga. Sua expressão habitual permanecia: indecifrável, casual, um pouco entediada.

Porém, seus olhos vasculhavam tudo, sempre.

Ele parou na frente dela, com as mãos nos bolsos.

"Então. Estamos quebrando a lei da escola ou apenas a estamos dobrando de forma criativa?"

Elyra sorriu, só levemente.

"Nem uma coisa nem outra. Estamos seguindo uma cláusula de exceção—página sete, parágrafo quatro."

"Você acabou de inventar isso, né?"

"Não."

Ela estendeu um dos documentos.

"Autorização especial. Dois estudantes por motivos pessoais. Assinado pelo meu bom amigo e presidente Myriel."

Noel pegou o pergaminho e ergueu uma sobrancelha.

"Você falsificou a assinatura da Myriel?"

"Por favor", ela respondeu seca. "Ela me entregou a tinta."

Noel olhou para as muralhas da cidade além do caminho do jardim.

"Melhor não ser alguma trama de assassinato."

"Apenas do seu nível de estresse."

Ela virou-se e começou a caminhar.

Noel a seguiu.

E assim, de repente, o portão se fechou atrás deles.

Sem missões.

Somente tempo.

Tempo emprestado.

A cidade de Valon tinha uma vida que a academia nunca conseguiria ter.

Lâmpadas de mana flutuavam acima das ruas de pedra, lançando padrões de luz suave que mudavam constantemente. Vendedores chamavam de barracas abertas repletas de bugigangas encantadas, frutas que brilhavam e pergaminhos de feitiço encadernados à mão. Músicos tocavam instrumentos alimentados por sigilos rítmicos, misturando som com pulsos suaves de cores.

E no meio de tudo isso—

Noel e Elyra caminhavam juntos.

Elyra se movia com firmeza, esquivando-se com facilidade pelo meio da multidão. Noel a seguia, com os olhos atentos a cada item estranho e detalhe.

Cachecóis flutuantes encantados para mudar de cor.

Orbás de vidro com pequenas ilusões de tempestades.

Uma banca de anões vendendo luvas resistentes ao fogo e poções de "não-letalidade garantida".

Pararam em um vendedor com bebidas geladas servidas em copos de gelo esculpido, o líquido brilhando suavemente com mana.

"Morango ou citrus frio?" perguntou Elyra, olhando por cima do ombro.

Noel deu uma olhada nela.

"O que estiver melhor."

Ela sorriu de leve e pediu dois citrus frio.

Quando ele provou, fez uma careta.

"Tá frio, amargo e um pouco eletrizante."

"Então você, né", respondeu Elyra, bebendo a dela sem mostrar expressão.

"Então… por que tudo isso?""O que estamos fazendo aqui, de verdade? É um encontro mesmo, ou é só algo ligado à Seraphina?"

Ela não respondeu de imediato.

Depois, finalmente:

"Tem uma coisa que preciso resolver."

A voz dela estava mais suave do que o normal. Não incerta—apenas… mais baixa.

"Algo que vem me incomodando há algum tempo."

As sobrancelhas de Noel se franziram levemente.

"Que tipo de coisa?"

Ela lhe deu um sorriso pequeno e evasivo.

"Você vai entender até o final do dia."

Noel estreitou os olhos.

"Críptico. Bem do seu estilo."

"Você teria me seguido até aqui se eu tivesse te contado de cara?"

Ele deu mais uma mordida no seu cítrico amaldiçoado.

"…Ponto justo."

O canal cortava o bairro antigo como uma fita de prata—sua superfície ainda, quase espelhada, sob o brilho das lanternas de mana suspensas. Cada luz flutuava sobre a água, sem escora alguma, formando halos suaves ao longo do caminho de pedra.

Noel e Elyra caminhavam lentamente.

Não havia pressa. Nenhum destino.

Apenas espaço para respirar.

Elyra caminhava um pouco à frente, com as mãos cruzadas atrás das costas. Noel mantinha seu passo constante, os olhos varrendo o ambiente com atenção habitual.

Então Elyra falou, sem olhar pra ele:

"Você é estranho, Noel."

Ele levantou uma sobrancelha, surpreso um pouco.

"Você age como se nada importasse", ela disse calmamente, "como se tudo estivesse aquém do seu interesse—mas você percebe tudo, cada detalhe pequeno."

Ela olhou de lado, para ele.

"Finge ser frio. Mas você é atento. Cuidadoso. Até… gentil às vezes."

Noel deu uma risadinha seca.

"Acusação perigosa."

"Não se preocupe", disse Elyra, com olhos voltados para frente novamente. "Não vou contar pra ninguém."

Prilharam um par de magos idosos discutindo sobre um tabuleiro de xadrez levitante, as peças brilhando suavemente enquanto pairavam e se chocavam no ar.

A Clara certamente pararia para assistir.

O Marcus teria desafiado um deles.

Noel não desacelerou.

Finalmente, Elyra perguntou:

"Quando foi a última vez que você se deixou simplesmente… existir?"

Ele não respondeu de pronto.

Seu olhar ficou na água, observando os reflexos distorcerem e se reformarem sob a luz das lanternas.

"…Faz um bom tempo."

Elyra o olhou, mas nada disse.

E Noel não acrescentou nada.

Continuaram caminhando.

Sentaram-se à beira da água, em um banco envelhecido esculpido na borda do canal. O ar estava calmo. As lanternas brilhavam suavemente acima deles, formando halos quentes na pedra.

Elyra ficou ereta, com as pernas cruzadas e as mãos descansando no colo. Noel recostou-se, olhando para as águas tranquilas, com o queixo levemente levantado, como se o céu fosse mais fácil de encarar do que a pessoa ao seu lado.

Mas ela não deixou passar.

"Você se lembra do que me disse naquele dia."

Deu silêncio. Sua expressão não mudou.

"Na antiga sala do conselho."

Ainda nada.

"Você estava sob o efeito daquele item—aquele que te obrigava a responder com a verdade. Três perguntas. Você se lembra da terceira?"

Noel respirou devagar.

"Sim."

"Na época, não dei muita bola para isso", continuou Elyra, com a voz tranquila. "Mas ficou na minha cabeça."

Ele ainda não a olhava.

"Você me disse que me apreciava."Pause."Não pela minha força. Nem pela minha inteligência. Nem mesmo pelo quão perigosa posso ser."

A voz dela ficou mais suave agora.

"Mas porque eu não finjo. Porque carrego coisas e nunca desvio o olhar. E porque, mesmo quando eu deveria ser escolhida, não sou."

Ela o olhou agora.

"Você quis dizer isso, não quis?"

Noel fechou os olhos por um momento, com a mandíbula tensa.

Depois, assentiu uma vez.

"Sim. Quis. Não tinha outra escolha, sabe."

"Você nunca mais disse algo assim."

"Porque não era pra ter sido dito em voz alta", ele murmurou.

"Eu não devia deixar essa parte escapar."

Elyra recostou-se um pouco.

"Você não. O item que falou por você."

Ele deu uma risada seca.

"Bode expiatório conveniente."

"Talvez." Sua voz ficou mais séria. "Mas ainda soava como o verdadeiro você."

Noel não discorda.

Porque ela tinha razão.

Pois era o Noel de verdade, aquele que apreciava os personagens do romance.

A loja ficava entre dois edifícios maiores, sua entrada marcada apenas por um sino de latão e uma placa de madeira com letras desgastadas: Æther & Ash – Curiosidades e Recordações.

Elyra os conduziu sem hesitar.

Dentro, o ar cheirava a madeira polida e antigas encantamentos. Prateleiras cheias de objetos artesanais—anéis que brilhavam com a luz da lua, colares com pedras que mudavam de cor, amuletos de couro que sussurravam feitiços se segurados com força.

Noel piscou uma vez.

"Este lugar… não é o que eu esperava."

"Exatamente por isso que te trouxe."

Ela se virou para uma prateleira cheia de acessórios—broches, pulseiras, pingentes de gola—enquanto Noel se aproximava de um espelho onde braceletes encantados e colares flutuavam no ar para inspeção.

Ele pegou um bracelete fininho, escuro, com sigilos suaves escriturados nele.

"O que faz esse aqui?"

A dona da loja, uma mulher mais velha, com cabelo branco preso num coque alto, olhou para ele.

"Ele brilha quando alguém pensa em você."

Noel pisca de novo. Rapidinho, colocou de volta.

"É, não, obrigado."

Elyra soltou uma risada baixa, ainda olhando as opções.

Por fim, ela puxou dois pingentes de prata: desenhos simples, com arestas agudas, que lembravam asas abstratas. Nada chamativo, leve. Apenas precisos.

"Experimenta esse", ela disse, atirando um na direção dele.

Noel pegou com uma mão só.

"Vai me comprar jóias agora?"

"Experimenta."

Ele suspirou, mas passou a corrente ao redor do pescoço e se olhou no espelho.

Não descombava com o visual dele. Na verdade,… funcionou.

Ele fez uma careta, ajustando um pouco a corrente.

De trás, Elyra falou—tão baixo que quase não quis dizer em voz alta.

"…Fofo."

Noel virou imediatamente.

"O quê?"

Os olhos dela se arregalaram por um segundo.

Depois ela virou-se, fingindo que nada tinha acontecido.

"Nada. Você imaginou."

"Tenho quase certeza que não."

"Se fizer eu repetir, vou negar com mais força que um nobre sob juramento."

O cliente, uma velha conhecida, soltou uma risada de satisfeito entendimento.

Noel olhou de volta para o espelho.

E não tirou o pingente.

Na caminhada de volta, o silêncio foi mais tranquilo.

Não aquele silêncio tenso, pesado, que fica após a risada se esvair e o desconforto dominar—mas um silêncio de relaxamento, de paz que ainda perdura.

Seguiram por uma rota mais lenta pelo caminho do jardim atrás do muro, onde lanternas flutuantes balançavam suavemente entre as árvores. O ar da noite era fresco, cortante na pele como a última brisa do inverno. Em algum lugar ao longe, um sino de vento tocou uma vez e se calou.

Noel caminhava com as mãos nos bolsos, com o pingente repousando frio contra o peito, sob o casaco.

Os passos de Elyra eram silenciosos ao seu lado.

Pararam pouco antes do portão lateral escondido, aquele que ela tinha aberto horas atrás.

O tempo parecia escorrer como água pelos dedos.

Pela primeira vez em meses, a mente dele não estava acelerada.

Sem previsões, sem planos.

Apenas… o agora.

Ele se virou para dizer algo—nem mesmo sabia o quê.

Mas Elyra deu o primeiro passo à frente.

Ela não pediu.

Não avisou.

Sua mão se levantou, os dedos tocando suavemente o colarinho do casaco dele, como se ajustando-o—

—e então seus lábios o beijaram.

Suave.

Deliberado.

Só calor e silêncio, com o leve aroma de citrus de inverno ainda pairando na respiração dela, a sensação de dedos de luva de seda pressionando suavemente ao lado do pescoço.

Noel não reagiu inicialmente.

Não conseguiu.

O mundo ficou muito imóvel.

E então acabou.

Ela recuou, quase imperceptivelmente.

Seus lábios ainda formigavam pelo contato.

Seu coração—droga—estava acelerado.

Elyra o olhou, olhos cinzentos calmos, indecifráveis… e então sorriu.

Não como seu sorriso habitual.

Algo menor.

"Bem", ela falou suavemente. "Eu confirmei."

Noel piscou.

"Eu gosto de você, Noel."

O rosto de Noel ficou vermelho de repente. Não só um rubor leve—um vermelho completo, como um tomate prestes a explodir.

"P–Por quê?? Por que você fez isso??" ele gaguejou.

Elyra inclinou a cabeça levemente, ainda sorrindo.

"Eu te falei. Eu gosto de você." Ela deu um passo para trás, cruzando os braços. "E, honestamente? Acho essa reação fofa. Não esperei que você corasse tão forte. Isso… isso parece mais o Noel de verdade—não aquele sério e sombio que você finge ser o tempo todo."

Ela virou-se de lado, fazendo um gesto de despedida enquanto caminhava embora.

"Até amanhã, Noel."

Ele abriu a boca, fechou novamente, e por fim levantou a mão.

"É… até amanhã."

A mão dele permaneceu no ar por alguns segundos demais, imóvel, enquanto sua mente tentava processar o que tinha acontecido. Ele não tinha certeza do que pensar.

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