
Capítulo 79
O Extra é um Gênio!?
Se passaram dois dias.
E mais estudantes desapareceram.
Noel encostou-se na moldura da janela de seu quarto, olhos fixos no pátio coberto de orvalho lá fora, mas sua mente não estava realmente ali.
'Isso está me enlouquecendo… Sei que é alguém de dentro. Mas quem?
Seus olhos estreitaram.
'Nicolas? Não. Impossível. Nenhum poderia impersonar o Diretor. Dior? Duvido—ele já saiu. Seraphina? Obviamente não, ela provavelmente está afogada em problemas só por causa de toda essa confusão.'
Ele bateu os dedos contra o vidro.
'Resta… os professores.'
Uma pausa.
'Instrutor Dauk? Não, só se preocupa com treino. Daemar? Nem pensar. É meu professor favorito—ele não faria… não poderia.'
A ideia pesou como uma pedra no estômago dele.
'Lereus…'
Ele endireitou-se levemente.
'Você é o único que parece estranho. Você não estava no romance original. E desde que Dior perdeu, tudo começou a desmoronar. É muita coincidência.'
Os olhos de Noel se estreitaram ainda mais.
'Vou ficar de olho em você, Professor.'
O ar matinal picou fundo.
Noel exalou forte, vapor saindo da pele enquanto brandia sua lâmina de madeira mais uma vez—andando—pelo ar coberto de orvalho.
Sua postura era afiada. Concentrada.
Mas ele não se sentia forte.
Nem cansado.
Apenas… esgotado.
Ele abaixou a arma e colocou uma mão no peito. A mana dentro dele parecia estável—mas lerda. Persistente.
Com uma respiração curta, sussurrou: "Status."
Uma tela azul pálida piscou à sua frente, brilhando suavemente à luz fria da manhã.
[Progresso Atual: 76,33% – Núcleo de Mana de Grau Iniciante]
Seu maxilar se tensionou.
'Três por cento em um mês inteiro…'
Ele olhou para o número como se tivesse recebido uma ofensa pessoal.
'Semana atrás, perseguindo sombras, perdendo sono, pulando refeições. E isso é tudo o que consegui?'
Uma exalação amarga escapou.
'Eu mal treinando… não deveria me surpreender…'
Com um movimento rápido dos dedos, a janela desapareceu.
Ele pegou uma toalha, enxugou o suor do rosto e voltou para seu quarto em silêncio.
Seu uniforme de inverno pendia arrumado na prateleira—escuro, justo, com detalhes prateados nas bainhas das mangas e ombros. O emblema do conselho estudantil vermelho estava costurado no peito, como um lembrete silencioso das expectativas.
Ele o vestiu peça por peça. Luvas. Botas. O último fecho na gola.
Pronto para sobreviver ao frio e seguir em frente.
"Ainda sinto que devia ter evoluído mais neste mês," murmurou. "Três por cento é patético… comparado com a velocidade que tinha antigamente."
Ele lançou um olhar para a janela coberta de orvalho.
A academia parecia igual.
Mas não parecia mais a mesma.
'Parece mais morta…'
O caminho até o prédio principal estava quase vazio.
Noel caminhava sozinho, seu casaco balançando suavemente com o vento matinal, botas fazendo barulho ao passar pelo piso de pedra coberto de orvalho. Alguns estudantes cruzavam o pátio aos pares, cochichando com urgência contida, olhando ao redor mais do que o habitual.
Senti como se algo tivesse se quebrado.
Como se a academia estivesse segurando a respiração.
'Parece que alguém acabou de anunciar a morte de… não sei. Da Internet de volta à Terra. Ou de chocolate. Algo que importava para todo mundo.'
Ele passou por um par de estudantes perto do arco do pátio, suas vozes baixas, mas claras.
"Você viu a Aileen? Faz dias que não a vejo."
"Sim. Oswald também ficou quieto. Costumava ficar perto da biblioteca do sul, lembra? Desde a semana passada não o vejo. Será que estão bem? Antes nos víamos todo dia..."
Noel continuou andando, com a cabeça baixa, olhos afiados.
'Ótimo. Perceberam. Agora é questão de tempo… para tudo vazar.'
A ideia ficou como gelo no estômago dele ao chegar ao corredor das salas de aula.
Noel entrou na ala administrativa principal, o ar mais quente, mas mais pesado. Os pisos de pedra polida refletiam a luz suave das laternas de mana acima, e a atmosfera tinha a calma de uma catedral.
Ele se aproximou da mesa de recepção com passos calmos.
"Olá," disse, tom gentil porém firme. "Gostaria de falar com o Diretor Nicolas. Tenho algo importante para discutir com ele."
A recepcionista, uma mulher na faixa dos quarenta anos, com rabo de cavalo arrumadinho e óculos redondos, levantou-se de uma pilha de pergaminhos.
"Claro. Qual é o seu nome?"
"Noel Thorne."
Ela assentiu e fez sinal para um banco próximo. "Sente-se. Avisarei ele."
Ele estava quase se sentando quando ela se levantou, caminhou até as portas duplas e bateu duas vezes antes de entrar.
Por uma fresta na porta, ouviram-se vozes abafadas trocando palavras.
Um momento depois, ela voltou e chamou do outro lado da sala.
"Sr. Thorne? Pode entrar."
Alguns estudantes sentados por perto se viraram para olhar.
Ele mal tinha chegado, e já estavam chamando-o.
Noel sorriu ao passar por eles sem perder o ritmo.
'Que sorte a sua. Hehehe.'
Dentro, o escritório do diretor era tão imponente e austero quanto sempre—mobília de madeira escura, estantes repletas de livros, um mapa do continente desdobrado atrás da mesa. Nicolas Von Aldros estava atrás dela, postura ereta, olhares já fixos em Noel.
Sem palavras, Noel aproximou-se e colocou delicadamente a corda embrulhada em tecido sobre a mesa.
"Encontrei em um dos túneis inferiores," disse. "Perto de onde ocorreu o ataque na festa. Não toquei diretamente."
O diretor não respondeu de imediato. Desenrolou o tecido com cuidado, examinando a corda, os dedos parando perto de uma mancha escura e seca.
Então, ele respirou.
Justo uma vez.
"...Está fedendo a sangue demoníaco."
Noel congelou.
Sua pele arrepiou.
"O quê? Mas… eu achava que havia um pacto de paz com os demônios?"
Os olhos de Nicolas não vacilaram.
"Existe. Mas você não pode esperar que uma raça imunda como a deles honre um pacto."
Nicolas reenrolou a corda com a fita, expressão inalterável, como sempre.
"Vou cuidar da investigação daqui em diante," disse calmamente, colocando o pacote dentro de uma maleta selada com glifos. "Ficarei pessoalmente responsável—mas vai levar algum tempo."
Noel assentiu rapidamente. "Entendido."
O diretor recostou-se um pouco na poltrona, entrelaçando os dedos.
"Enquanto isso, você deveria ir para a aula. Se ficar aqui, vai chegar atrasado."
Noel não argumentou. Ggrou a cabeça e saiu do escritório, entrando no corredor frio além.
Enquanto percorria a academia, o ritmo usual da vida estudantil tinha recomeçado ao seu redor—embora mais silencioso, mais tenso. Quando chegou à sala de aula, a primeira aula já havia começado.
Ele entrou silenciosamente e foi para seu assento na parte de trás.
Elena olhou para ele rapidamente ao se sentar.
"Você foi falar com o Diretor?"
Noel assentiu, com a voz baixa. "Entreguei a corda para ele. Disse onde encontrei. Ele falou que cheirava a sangue demoníaco."
Isso fez ela pausar no meio da nota.
"Sério?"
"100% sério."
Um silêncio tenso se estendeu entre eles por um instante.
Então Elena murmurou, mantendo os olhos na página, "Bom, isso explica muita coisa. E complica tudo."
Noel apoiou-se na cadeira, olhando fixamente para frente, mas com os pensamentos longe.
O ruído silencioso da sala envolvia-os—folhas sendo viradas, penas riscando, tosses ocasionais no ar frio. Mas, na parte de trás, Noel e Elena falavam baixo, suas palavras soterradas pelo barulho.
"Você acha que o Diretor suspeita de algo maior?" perguntou Elena, sem tirar os olhos das anotações.
Noel deu um leve encolher de ombros.
"Ele não disse muita coisa. Mas se acha que é demoníaco, então estamos muito além de criminosos comuns. Isso muda tudo."
Os lábios dela se estreitaram.
"Ninguém vai acreditar. A menos que alguém morra de novo."
"Já aconteceu," disse Noel. "Só não publicamente."
Uma pausa.
Ela virou uma página.
"Você acha que tem relação com a queda do Dior?"
Noel não respondeu de imediato. Checou um dedo na mesa.
"Acho que alguém está trabalhando nos bastidores. E a derrota do Dior deixou uma lacuna. Uma pessoa já está preenchendo."
Elena olhou nos olhos dele. "Quem você quer dizer?"
Antes que Noel pudesse responder—
Bati.
Um pedaço de giz acertou sua testa limpidamente.
Noel piscou uma vez, mais surpreso pela precisão do que pela dor.
No fronte da sala, o professor Lereus estava ao lado do estrado, uma mão descansando casualmente nele, a outra ainda levantada do lançamento.
Sua voz era calma.
"Sr. Thorne. Senhorita von Lestaria."
Todo o ambiente ficou silencioso num instante.
"A conversa acabou."
Noel lentamente se inclinou para trás na cadeira, levantando uma mão para massagear o ponto onde o giz o tinha atingido.
Elena, sem se importar, fechou o caderno com um estalo suave.
"Sim, Professor," respondeu com firmeza.
Lereus não falou mais nada. Voltou ao quadro, escrevendo um novo diagrama com traços graciosos e precisos.
Porém, Noel percebeu—antes que ele se virasse.
Aquele olhar de novo.
A aula se arrastou sob o peso do silêncio excessivo.
Até as rabiscadas e viradas de página parecerem mais contidas, como se a turma tivesse decidido não respirar alto demais após a última observação do professor.
Ele não anotou muito. Sua mente estava em outro lugar—revivendo o timing, as palavras, a forma como Lereus tinha acertado na mosca com aquele giz, sem parecer estar mirando.
Quando a aula finalmente terminou, os sons habituais voltaram. Cadeiras arrastando, livros sendo fechados, vozes baixas surgindo enquanto os estudantes se dispersavam em pequenos grupos.
Ele se levantou lentamente, jogando a mochila sobre o ombro, pronto para sair.
"Sr. Thorne."
Ele parou.
Lereus tinha se aproximado do estrado com uma postura perfeita, o casaco fluindo atrás dele como parte de sua postura. Sua voz era suave. Sem pressa.
"Se não se importar, passe no meu escritório mais tarde, após sua última aula… Gostaria de conversar com você sobre algo."
Noel inclinou um pouco a cabeça, avaliando o pedido.
"Tem algo que eu Precise saber antes?"
Lereus sorriu. Justo o suficiente.
"Apenas um assunto acadêmico. Uma conversa rápida. Nada formal."
Seus olhares se encontraram por um momento.
Noel deu uma leve inclinação de cabeça.
"Tudo bem. Passarei lá."
"Ótimo."
O professor se virou com um leve movimento de tecido, já recolhendo suas anotações como se nada tivesse acontecido.
No corredor, Elena apareceu ao lado de Noel, as sobrancelhas franzidas.
"O que ele queria?"
Noel ajustou a alça do ombro, com a voz neutra.
"Disse que quer conversar."
"Sobre o quê?"
"Ele não disse."
Juntos, passaram silenciosamente pelo corredor, além das paredes de pedra iluminadas pelas lanternas de mana pálidas.
Nenhum deles gostava daquela resposta.
O corredor fora da ala da faculdade estava silencioso, iluminado apenas por lanternas de mana azul tênues que piscavam suavemente contra as paredes de pedra. Noel ficou na frente de uma porta de carvalho pesada, marcada por uma placa de prata sutil:
Professor Lereus
Ele bateu uma vez.
"Entre."
A voz, como sempre, suave. Controlada.
Noel entrou.
O escritório estava tão polido quanto antes—prateleiras de mogno perfeitamente alinhadas, pergaminhos organizados por cor e comprimento, uma mesa baixa já com duas xícaras de porcelana e uma chaleira delicadamente fumegante entre elas.
Lereus estava perto da mesa, mexendo cuidadosamente em alguns papéis.
"Obrigado por vir, Sr. Thorne," disse sem olhar para cima. "Por favor, sente-se."
Noel obedeceu.
Lereus movia-se com precisão natural, despejando chá nas duas xícaras. O aroma era suave—menta, talvez—e algo floral que Noel não conseguiu identificar exatamente.
"Tenho observado seu progresso," disse o professor, com uma voz leve e constante. "Você evoluiu. Silenciosamente, mas com propósito. Respeito isso."
Noel não respondeu. Apenas observava.
"Esse tipo de crescimento," Lereus continuou, entregando-lhe uma xícara, "muitas vezes sinaliza um potencial… que esta academia valoriza."
Noel pegou a xícara. Os dedos tocando a porcelana. Ainda quente.
"Então, me convidou aqui porque estou indo bem?"
Lereus ofereceu um sorriso tênue. "Em parte."
Noel levantou um pouco a xícara, o vapor formando correntes que passavam pelo seu rosto.
"Tenho pensado em selecionar um assistente para tarefas avançadas," prosseguiu Lereus. "Alguém disciplinado. Discretto. Perspicaz."
Noel levantou a xícara até os lábios.
"E acho que você seria uma excelente escolha."
A xícara tocou seus lábios.
E o mundo se quebrou.
Não houve som. Nenhuma sensação. Nenhum tempo.
Apenas azul.
Um piscar de luz.
O aroma desapareceu. O calor sumiu.
Então—
Ele voltou à mesma cadeira.
Mesma postura.
Mesma xícara.
Levantando-se… mas ainda intocada.
Ainda em sua mão.
Noel não vacilou. Não piscou. Não respirou.
Mas sua mente ardia.
'O que acabou de acontecer?'