
Capítulo 80
O Extra é um Gênio!?
A xícara de porcelana ainda estava quente em suas mãos.
Noel a colocou de volta na saucer com calma deliberada, sua expressão impassível, mesmo enquanto a reverberação do Sigilo Ashen ainda permanecia na sua mente.
Seis segundos atrás, ele tinha dado um gole.
Agora, a xícara continuava intacta, sem que tivesse sido tocada.
Do outro lado da mesa, o professor Lereus continuava como se nada tivesse acontecido.
"Uma pessoa com seu perfil poderia se beneficiar bastante deste arrangement," disse ele suavemente. "E imagino que você não se importaria de ter acesso antecipado a materiais restritos dos anos mais avançados."
Noel inclinou-se ligeiramente para trás na cadeira, corpo relaxado, mãos descansando soltas no colo.
Por dentro, ele estava longe de estar calmo. Estava catalogando tudo.
O tom de Lereus.
A temperatura do chá.
O fato de seus olhos não terem se desviado sequer uma vez para a xícara desde que ele a ofereceu.
'O que quer que estivesse naquele chá… não era para me ajudar. Mas foi disfarçado para parecer que ajudaria.'
Noel permitiu-se um sorriso sutil.
"Tornar-me seu assistente parece… interessante."
Os olhos violeta de Lereus se estreitaram um pouco—não com desconfiança, mas com aprovação.
"Pragmático. Bom," disse ele, cruzando as mãos sobre a mesa. "Discrição e iniciativa—duas qualidades que valorizo bastante."
Noel assentiu uma vez.
'Você realmente valoriza a discrição, não é? Imagino que essa seja sua palavra favorita da semana.'
Mas, em voz alta, tudo que ele disse foi: "Quando começamos?"
Lereus pegou sua própria xícara e deu um gole lento, o vapor por um momento ofuscando as lentes de seus óculos.
Depois, casualmente, lançou um olhar para a bebida intocada de Noel.
"Não é do seu gosto?"
Noel não hesitou. "Sou mais de café."
Um instante.
Lereus soltou uma risada suave, colocando a xícara de volta na mesa.
"Audacioso. Combina com você. Vou preparar um na próxima vez."
Noel manteve a expressão neutra, o canto da boca se contornando em um sorriso educado, quase divertido.
Dentro dele, seus pensamentos estavam afiados como navalhas.
'O que quer que aquilo fosse… ativou o Sigilo. Esse anel não age a não ser que perceba perigo real. Podia ser uma magia, podia ser veneno. Tanto faz.'
Ele observou Lereus cuidadosamente agora—não apenas suas palavras, mas a maneira como se movia. Quão imóveis estavam suas mãos. Quão perfeitamente sincronizado cada gesto parecia.
'Você não se apressa. É isso que te torna perigoso.'
"Tenho um café excelente em casa," acrescentou Lereus casualmente. "Na próxima vez que te ver, trago um."
Noel assentiu discretamente. "Agradecido."
A troca de sorrisos foi quase invisível.
E ambos sabiam disso.
Lereus abriu uma gaveta e retirou um envelope lacrado, colocando-o entre eles.
"Ainda não é algo oficial. Apenas algumas tarefas preliminares—organizar avaliações, revisar relatórios de desempenho de feitiços e preparar materiais avançados para os anos mais velhos."
Noel pegou o envelope. "Entendido."
"Você também terá acesso limitado às seções restritas da biblioteca e poderá participar de sessões de planejamento de currículo. Naturalmente, espera-se confidencialidade."
'Sim, claro.'
Lereus o estudou por mais um momento.
"Não espero fidelidade completa. Apenas cautela. E inteligência. Ambos vocês demonstraram."
Noel inclinou-se levemente para frente, suficiente para parecer interessado, sem parecer ávido.
"Então, aceitarei a proposta."
Lereus deu um breve aceno de satisfação.
"Bom. Começaremos na próxima semana."
Mais uma taça de chá. Mais um movimento perfeito.
"Me avise se sua agenda mudar. Comunicarei à administração do conselho sobre seu papel acadêmico ampliado."
'Você quis me manter perto. Vou descobrir o porquê.'
Noel levantou-se.
"Obrigado pelo chá, professor," disse com frieza, virando-se para sair.
"A qualquer hora," respondeu Lereus, com aquele sorriso ainda pregado no rosto como uma máscara.
A porta se fechou com um clique atrás dele.
O corredor fora do escritório de Lereus estava silencioso, uma quietude proposital. Noel saiu lentamente, a porta se fechando atrás de si com um estalo.
Ele exalou pelo nariz, a mão tocando o anel no dedo.
O Sigilo Ashen agora estava frio.
Mas ele sabia exatamente o que tinha feito.
'Ele me salvou.'
E agora?
'Não vai ativar novamente por pelo menos um mês…'
Aquela certeza se firmou como uma pedra no seu peito.
'Uma rede de segurança. Adeus, merda.'
Ele deu um passo à frente, queixo cerrando.
Antes que pudesse virar a esquina, uma figura bloqueou seu caminho.
Uma assistente do corpo docente. Veste roupas claras, mãos juntas, rosto impassível.
"Senhor Thorne," ela disse de forma uniforme. "O Diretor gostaria de falar com você. Imediatamente."
Noel piscou uma vez.
Naturalmente.
Ele fez um aceno lento, abafando o suspiro que subia pela garganta.
'Não consigo nem respirar direito hoje.'
Dez minutos depois, Noel estava novamente diante das imensas portas de carvalho do escritório do Diretor. Diferente das visitas anteriores, não havia calor no ar, nem cumprimentos calmos aguardando por ele.
Apenas silêncio.
A assistente abriu a porta sem dizer uma palavra e Noel entrou.
Nicolas Von Aldros estava perto da janela do outro lado, braços cruzados atrás das costas, postura firme, olhar distante enquanto observava o campus.
Ele não se virou.
"Feche a porta."
Noel obedeceu sem questionar.
Só então o Diretor falou novamente—sua voz baixa e firme.
"Conte-me tudo. Sem filtros, sem omissões. Quero cada detalhe."
Noel piscou.
Esse tom…
Algo tinha mudado.
'O que diabos aconteceu?'
Ele manteve uma postura relaxada, mas seus olhos se aguçaram.
"É sobre a corda?" perguntou cuidadosamente.
Nicolas virou-se, expressão fria e pesada.
"Está pior do que pensávamos."
Ele caminhou lentamente em direção à mesa, cada passo controlado.
"Não foi apenas contaminada por demônio. Os rastros que encontramos—mesmo residual—só poderiam ter vindo de alguém extremamente poderoso."
A respiração de Noel permaneceu calma, mas algo profundo dentro dele travou.
"Quão poderosa?"
Nicolas cruzou o olhar com ele.
"Um demônio de nível Adept. Próximo ao de nível Ascendente."
'Não.'
'Não, isso é impossível.'
'Demônios desse nível não deveriam aparecer até o Ato III…'
Nicolas colocou uma pasta espessa e lacrada na mesa, mas não deslizou à frente.
"E tem mais," disse ele. "O resíduo tinha estrutura. Propósito. Não foi deixado por acidente."
"Que tipo de magia era?" perguntou Noel, mal segurando a voz firme.
O Diretor não piscou.
"Magia de sangue."
As palavras caíram pesadamente.
Noel cerrando lentamente os punhos ao lado do corpo.
"Isso é uma escola proibida," disse ele.
"Uma das mais antigas. E uma das piores. Magia de sangue não apenas machuca—ela prende. Controla. Distorce."
Os pensamentos de Noel estavam girando em espiral.
'Já estão aqui. Alguém tão forte… e estão escondidos à vista de todos. Talvez até entre nós.'
Seus dedos tocaram novamente o anel na mão, embora soubesse que agora não tinha mais utilidade.
"O que você quer que eu faça?" perguntou.
A sala ficou pesada em silêncio por alguns segundos após a pergunta de Noel.
Nicolas finalmente se moveu, recuando atrás da mesa. Não se sentou. Suas mãos descansaram planas na superfície, como se buscasse ancorar-se.
"Continue investigando. Seja o que for que encontrou, o que estiver perseguindo—não pare."
Noel assentiu uma vez. "Não tinha intenção de parar."
"Mas isso..." a voz de Nicolas diminuiu um pouco. "Isso já vai além da academia. Se há um demônio desse nível envolvido, então isso não é mais uma questão de estudante. Você está entrando em algo mais profundo. E mais sombrio."
Noel não respondeu.
O olhar do Diretor endureceu.
"Estou te dando acesso para continuar, mas ouça bem—não se coloque em perigo."
Uma pausa.
Noel manteve sua expressão firme, os lábios comprimidos em uma linha reta.
Por dentro, seus pensamentos sussurraram de volta.
'Se ao menos eu pudesse fazer o que você está pedindo.'
Mas tudo que disse foi: "Entendido."
Nicolas pareceu observá-lo por mais um momento, como se tentasse decidir se aquela resposta era a verdade.
Noel virou-se para sair, seus passos silenciosos contra a pedra, enquanto a porta se fechava com um estalo atrás dele.
O corredor fora do escritório do Diretor estava silencioso, ladeado por luminárias de mana que lançavam um brilho pálido, sem nada que conseguisse dissipar o frio que se instalava no seu peito.
Ele caminhava lentamente, mas seus pensamentos não.
'Magia de sangue… de um demônio tão forte? Um Adept, quase Ascendente?'
Sua mão tocou o tecido sobre o peito, onde o anel do Sigilo Ashen repousava sob seu casaco.
'Ele me salvou uma vez. E agora tenho um mês antes que possa confiar nele novamente.'
Ele expirou pelo nariz.
'Muito cedo. Tudo está acontecendo cedo demais.'
Ele passou por um par de estudantes conversando em vozes baixas, mas suas palavras não foram compreendidas. Sua mente estava cheia—nítida demais.
'Quem quer que esteja por trás disso não é apenas forte. São pacientes, precisos e sabem se esconder muito bem.'
E agora ele fazia parte disso.
Não por escolha.
Mas porque não tinha outra opção.
Ele parou na beira da escadaria leste, olhando through uma grande janela arqueada que dava para o horizonte coberto de neve.
Tudo parecia igual.
E, ainda assim, nada mais parecia familiar.
Quando Noel chegou às portas externas da academia, o céu já havia se transformado em um cinza pálido, tingido com a névoa incolor do fim da tarde. Os guardas não questionaram sua saída—sua autorização como membro do conselho estudantil era suficiente para passar direto.
A estrada rumo à capital se abriu à sua frente. O vento frio pressionava seu sobretudo, mas ele não diminuiu o ritmo.
Ele tinha um destino.
E uma lembrança do romance.
Havia uma loja. Quase mencionada. Escondida atrás de linhas de uma narração vaga e diálogos de personagens secundários. O protagonista do livro nem chegou a notar.
Porque ele não sabia como ativar o evento.
'Para entrar, tinha que ganhar do dono da loja no pôquer.'
Mas não era um pôquer comum.
Essa versão do jogo respondia ao fluxo de mana. Recompensava intuição, manipulação e ritmo. Você não jogava apenas as cartas—jogava a mesa. As pessoas. A magia no ar.
E o dono?
Um anão meio bêbado, olho-pardo, com a atitude de um veterano de guerra e a memória de um deus.
'Se você o vencer, a loja abre. Se perder, ele esquece que você veio.'
Noel sorriu levemente, sem humor.
'Vamos ver se ainda lembro das regras.'
Ele cruzou uma ponte de pedra que levava aos bairros mais antigos de Valon, seguindo vielas tortuosas e cantos sem marcação, deixando o instinto guiar mais do que a memória.
Não tinha certeza de como o jogo funcionava de verdade agora.
Mas sabia de uma coisa: não era questão de sorte.
Era questão de controle.
E ele tinha toda a intenção de vencer.
Antes de desaparecer nas vielas labirínticas de Valon, Noel parou justo na beira da escadaria leste, perto de uma estreita arco de pedra que enquadrava o horizonte nevado.
Ele pegou uma pequena folha de papel e um lápis de carvão do bolso.
Não ia escrever uma mensagem longa.
Só o essencial.
Ele riscou o que era importante:
Elena, preciso sair da academia por algumas horas. Está relacionado às desaparecimentos e ao que conversamos. Se algo acontecer—ou se eu não voltar ao anoitecer—revise o sistema de túneis. Você vai saber o que procurar. – N.
Ele dobrou o papel uma vez, selou com um pouco de mana, e assobiou suavemente.
Da ponta do muro, um pombo messenger cinza—treinado na academia—despencou, pousando no seu braço. Ele o encarou com uma expressão vazia, mecânica.
"Para Elena von Lestaria," disse baixinho.
O pombo piscou uma vez, pegou delicadamente o bilhete com o bico e alçou voo com um suave bater de asas.
Noel o assistiu desaparecer nas nuvens.
'Ela vai saber o que fazer.'