
Capítulo 74
O Extra é um Gênio!?
A Grande Salão da Academia Imperial de Valon fervilhava sob uma superfície de tensão.
Centenas de estudantes ocupavam os assentos de mármore em degraus, seus mantos se movendo suavemente, vozes abafadas. Esferas de cristal flutuavam acima do palco central, brilhando com luz de mana, prontas para transmitir cada palavra e expressão.
O debate final estava prestes a começar.
Noel entrou pelo arco lateral e subiu até a terceira fila.
Roberto já estava lá, de braços cruzados, observando o palco.
"Chegaste atrasado," disse sem olhar.
Noel deslizou ao seu lado e se sentou.
"Desculpa. Estava no banheiro," respondeu secamente. "Mas o debate de hoje… vai ser interessante."
Roberto finalmente o encarou.
"Parece que você já sabe o que vai acontecer."
Noel recostou-se, com os olhos fixos na plataforma principal, enquanto os candidatos avançavam.
'Vamos ver quanto tempo essa sua paciência aguenta, Dior. Uma máscara dura só até a pressão ser demais e ela se partir.'
Roberto percebeu o sorriso malicioso surgindo no canto da boca de Noel.
"O que te faz sorrir assim?"
A resposta de Noel foi baixa.
"O que você acha?"
"Elyra?"
"O quê?!?"
"Calma, relaxa, tá reagindo demais só pelo nome dela."
Naquele momento, o Professor Lereus levantou a mão para dar início.
O nome "Selene von Iskandar" apareceu no ar, em letras brilhantes, invocado pela magia do cristal.
Noel permaneceu sentado, imóvel.
Porém, sorriu ainda mais wide.
O Professor Lereus ficou no centro do palco, com postura impecável.
A luz ambiente de mana acima dele cintilava com uma calma intensa. Atrás dele, Dior e Seraphina ocupavam seus respectivos lados—duas figuras feitas do mesmo molde, mas influenciadas por forças diferentes.
"Começaremos com as posições iniciais," anunciou Lereus, com tom firme e formal.
"Cada candidato terá dois minutos para apresentar sua visão para o cargo de Presidente do Conselho Estudantil."
Dior avançou primeiro.
Postura perfeita.
Tom—eloquente, confiante.
"A academia está às vésperas de uma nova era. O que preservamos hoje define aquilo que seremos amanhã. Acredito na tradição, na estrutura, em fortalecer o que torna esta instituição grandiosa."
Seu olhar percorreu o salão.
"Com muita frequência buscamos novidades, esquecendo a base construída por quem veio antes de nós. Como presidente, farei questão de manter o legado de excelência que fundou a Academia Imperial de Valon."
Follow de aplausos—principalmente da ala nobre.
Seraphina se pronunciou a seguir.
"Esta academia sempre se manteve elevada, não apenas por tradição—mas pelos estudantes que lhe deram propósito. De todas as terras, de todas as linhagens."
Ela fez uma breve pausa, varrendo as filas com o olhar.
"Se eleita, expandirei os programas de apoio, reforçarei a representação justa nas decisões do conselho e abrirei novas oportunidades acadêmicas—independentemente de nome ou aliança."
Uma onda de aplausos a acompanhou—mais ampla desta vez. Mais forte.
Lereus assentiu, de forma profissional.
"Vamos agora para o primeiro segmento de perguntas diretas. As respostas devem ficar dentro do limite de um minuto."
Ele levantou a mão, e um cristal gravado com mana flutuou para frente.
As primeiras perguntas eram rotineiras:
Como lidariam com disputas entre departamentos.
Opiniões sobre a distribuição atual de recursos de treinamento.
Uma breve declaração sobre a representação da academia em assuntos externos.
Dior respondeu com respostas polidas.
Seraphina, com clareza calma.
Foi civil.
Porém, Noel, sentado na terceira fila, inclinou-se um pouco à frente.
Porque a verdadeira questão ainda não tinha sido feita.
O Professor Lereus levantou novamente a mão.
O cristal flutuante girou, emitindo um suave zumbido enquanto analisava os participantes pré-selecionados.
Um instante.
Um clarão de luz.
E então o nome apareceu em letras brilhantes acima do palco:
"Selene von Iskandar."
murmúrios se espalharam pelo público.
Selene levantou-se da cadeira sem hesitar.
Postura exata. Olhar afiado.
Ela caminhou pelo corredor central, com a varinha ao lado—não retirada, mas presente.
Lereus assentiu em direção a ela.
"Você pode fazer sua pergunta."
Ela não olhou para Seraphina. Não olhou para Lereus.
Seus olhos estavam em Dior.
E sua voz, tão fria e clara quanto a magia que dominava, iniciou:
"Se eleita," começou, "como pretende tratar os estudantes que não vêm de famílias nobres ou ricas, sabendo que eles representam 75% dos alunos dentro da academia?"
Uma pausa.
Então:
"Você está construindo uma estrutura que os exclui?"
O salão ficou quieto.
Quieto ao ponto de Noel ouvir alguém se mover na cadeira três filas atrás.
No palco, Dior piscou uma vez.
Só uma.
Ele ajustou levemente a gola do uniforme, depois sorriu.
"Acredito em recompensar o mérito," disse de forma suave. "E acho que a academia prospera quando seus estudantes recebem estrutura. Uma estrutura que naturalmente reconhece quem carrega responsabilidade—incluindo os nobres."
O olhar de Selene não se moveu.
"Então, é um sim?"
Um pequeno brilho.
Quase imperceptível.
Mas existia.
Sorriso de Dior se fechou mais.
Lereus interveio antes que a pausa se prolongasse demais.
"Obrigada, Senhora von Iskandar. Pode retornar ao seu assento."
Ela cumpriu, em silêncio.
Sem alterar a expressão.
Porém, ao passar pela fila de Noel, ela lançou-lhe um breve olhar—
Frio, preciso.
Mas satisfeito.
Porque a fagulha já havia sido acesa.
Selene voltou ao seu lugar sem dizer mais uma palavra.
O silêncio no salão permaneceu como um suspiro suspenso.
Porém, nem todos estavam vendo da mesma forma.
De seu lugar no centro do palco, Lereus—ou melhor, Kaelith Drosen, escondido sob uma ilusão cuidadosamente tecida—ficava imóvel, postura impecável, expressão indescritível.
Por dentro, ele estava menos divertido.
'Claro. O pequeno príncipe só se revela quando alguém cutuca seu orgulho. Avistei eles. Dior não passa de um jeito polido de mal humor com um título.'
Seu olhar desviou discretamente para o menino à sua esquerda.
O sorriso de Dior ainda lá, mas perdeu a ponta—duro nos cantos, ombros muito tensos.
'Deixa-o se enveredar na sua própria espiral. Isso não muda nada. Essa eleição não importa. Não no jogo longo.'
Lereus ajustou o cristal com um movimento de mão, com voz calma e timing perfeito.
"Próxima pergunta."
Quebrar sua reputação, que se dane.
Até pode ser divertido.
O brilho da pergunta de Selene mal tinha se apagado, quando outra mão se ergueu.
Depois outra.
E mais uma.
Lereus—com expressão ainda composta—apontou para o próximo estudante.
"Diga seu nome e turma."
Um menino na segunda fila se levantou, com voz clara:
"Edric. Turma B, segundo ano. Você acha que estudantes sem sobrenome familiar merecem o mesmo acesso a recursos de combate que os nobres?"
Dior piscou.
"Temos políticas que refletem o desempenho."
Lereus não esperou uma continuação. Outra voz entrou pelo lado esquerdo.
"Por que vocês não treinam conosco?"
"Você sempre usa instalações particulares—está escondendo algo?"
'Bem, essa pergunta foi meio vaga, eu também treino sozinho, sou esquisito igual a ele?'
Uma terceira voz gritou antes que ele pudesse responder.
"Você sabe os nomes das pessoas que deveria representar?"
O auditório virou uma tempestade.
Vozeadas sobre vozeadas.
Perguntas sem filtro.
Acusações sem filtro.
E Dior?
Sua expressão começava a se desfazer.
O sorriso desapareceu.
Seu maxilar travou. Seus dedos tremeram.
Ele levantou a mão para falar—e uma quarta pergunta veio como uma lâmina:
"Você teve alguma coisa a ver com as mudanças de última hora na lista de Classe S?"
Essa última foi obra de Elyra.
Ela acertou em cheio.
De um jeito duro.
Da terceira fila, Noel incluiu-se um pouco para frente, de braços cruzados, olhos gelados.
'Agora você sente.'
'O peso de todos os outros.'
Dior respirou fundo.
tentou falar,
mas outra voz surgiu lá de cima, da varanda distante:
"Você disse que todos somos iguais—por que suas políticas só protegem os nobres?"
O ambiente deixou de ouvir.
Querendo—exigindo.
E Dior?
Dior não respondeu mais.
Ele se preparava, visivelmente.
Mostrava-se.
Dior levantou a mão—com força, rígida.
A audiência silenciou o suficiente para que sua voz fosse ouvida.
Porém, não estava calma.
Tremia.
"Quer honestidade?"
Olhou através de um mar de faces.
Bravo.
Desrespeitoso.
"Tudo bem. Cansei de fingir."
Sua voz cortou o salão como vidro quebrado.
"Metade de vocês nem devia estar aqui. Entraram por cotas. Por causa de caridade."
Sussurros ecoaram.
Noel recostou-se na cadeira, olhos fixos.
" acha que esta academia é forte porque deixamos qualquer um entrar? Porque fazemos de tudo por histórias tristes?"
Dior virou-se para a ala nobre.
Até eles—principalmente eles.
"E vocês—não acham que são melhores. Fracos. Covardes. Fazendo diplomacia com os outros só para dormir melhor à noite."
Suas mãos tremiam levemente.
Porém, as palavras não pararam.
"Estoy rodeado de incompetentes. Pessoas que não sabem o que é carregar legado, proteger força."
"Quer mudança? Então veja: vou queimar tudo isso até o que deveria ter sido."
Silêncio.
Silêncio absoluto invadiu o salão.
A respiração de Dior estava alta—agora audível, áspera e irregular.
O Professor Lereus não falou.
Não se moveu.
Mas seu olhar direcionava-se a Dior—
Sem uma palavra de compaixão.
O silêncio após a explosão de Dior durou vários segundos longos.
Ninguém se mexeu.
Ninguém ousou.
Então, lentamente, Seraphina de Valor se levantou.
Ela não elevou a voz.
Não precisava.
Sua postura era perfeita. Sua expressão, indecifrável—como mármore esculpido.
Ela avançou e falou:
"Liderança não é sobre sangue."
Suas palavras ecoaram.
"Não é sobre quem você é quando as coisas estão fáceis. É sobre quem você se torna quando as coisas dão errado."
Ela olhou para Dior—mas só por um instante.
"Já vimos quem reage à pressão com raiva. Quem se divide quando a unidade é necessária."
Ela virou-se para o público.
"Não prometo perfeição. Mas prometo isto: não desprezo as pessoas que espero representar."
Noel exalou suavemente, de braços cruzados.
"Droga," murmurou Roberto ao lado.
"Ela nem se mexeu e já deixou ele no chão."
Elyra não falou nada.
Porém, Noel olhou para ela, vendo o mais leve brilho de satisfação em seus olhos.
'Boa.'
Do outro lado da sala, Dior continuava de pé—paralisado, com os punhos cerrados, a mandíbula tensa.
Mas agora, não importava mais.
O dano já havia sido feito.
A cristal acima do palco começou a escurecer, sinalizando o fim do debate.
O Professor Lereus tossiu e falou:
"Esta conclui o último debate do conselho. A votação acontecerá em três dias. Espera-se a participação de todos os estudantes."
Noel levantou-se enquanto a multidão começava a se erguer.
Ele não se apressou.
Não sorriu.
Mas, na sua cabeça, uma certeza se firmou claramente:
'Um a menos.'