O Extra é um Gênio!?

Capítulo 73

O Extra é um Gênio!?

A parte de treinamento público da academia ainda estava despertando.

Lanternas de mana brilhavam suavemente sob o céu matutino, e o chão estava escorregadio com calafrios matinais—alguns naturais, a maior parte não. Alguns calouros estavam fazendo treinos na extremidade afastada, mas a plataforma principal permanecia silenciosa.

Dois figuras se moviam por ela com ritmo deliberado.

Noel, com o cabelo molhado de suor, expirou de forma abrupta quando mais um espinho de gelo surgiu de sua palma—fininho, controlado, e se cravou em um manequim de madeira a vinte pés de distância. Seu braço esquerdo doía levemente de tanto repetir o esforço, mas ele gostava da sensação de queimar. Isso significava que estava melhorando.

"Glacialis."

Outro fragmento. Mais afiado e reto.

Ainda… não completamente certo.

'O tempo ainda não está bom. Boa concentração, mas ainda não se traduz em eficiência real.'

Ele deu um passo atrás e girou o ombro, soltando a tensão.

A poucos metros dali, Selene von Iskandar era um borrão de movimento e precisão. A longa trança balançava suavemente atrás dela enquanto passava de uma postura para outra, varinha traçando sigilos no ar que se congelavam antes de explodir em lanças fractais de simetria perfeita.

Ela não piscou.

Não errou.

Cada golpe era limpo.

Perfeito.

Se a técnica de Noel era moldada por instinto e adaptação, a dela era arte feita de disciplina.

Ele a observava conjurar um anel de geada no ar e lançá-lo através de uma série de runas flutuantes—cada uma se quebrando em sequência com estalos precisos, como vidro quebrando.

'Droga, ela realmente é uma gênio. Mesmo eu me considerando um gênio também.'

O pensamento lhe arrumou um sorriso de canto.

Terminou sua sequência, recuou um passo e pegou uma garrafa de água gelada na mochila.

Então, tão naturalmente quanto respirar, caminhou em direção a ela.

Ela tinha acabado de concluir uma combinação final e estava abaixando a varinha, respirando controladamente, mas visivelmente exausta—suor nas têmporas, o peito subindo e descendo sob o uniforme de treinamento adaptado ao clima do norte.

Noel estendeu a garrafa de água.

"Você esqueceu um pouco."

Selene piscou uma vez, os olhos passando da garrafa para ele, depois de volta.

Ela a aceitou sem dizer nada e tomou um longo gole.

Ele esperou.

Quando ela terminou, limpou a boca com o dorso da mão.

Noel deu um meio-gesto com os ombros.

"Tem um minuto?"

A voz de Selene foi fria. "Você já está falando comigo."

"Aí é que está…", ele fez um gesto na direção da trilha de geada deixada pelo último ataque dela, "... se alguém sabe como parar de gastar mana com feitiços de gelo, é a prodigiosa do norte."

Um leve trejeu no canto da boca dela. Não era um sorriso.

Mas também não era nada.

"Você não é ruim", ela disse simplesmente. "Só está demais tensa."

Noel deu mais um passo para perto, acompanhando seu ar calmo.

"Estou sempre tenso."

"Então nunca vai dominar o gelo."

Ele levantou uma sobrancelha.

Selene devolveu a garrafa.

Noel tomou a água de volta e inclinou a cabeça.

"O que quer dizer com isso?"

"Preciso estar relaxada para usar gelo?"

Selene cruzou os braços, com a varinha ainda numa mão.

"Mais ou menos."

Seus olhos se estreitaram um pouco, como se medisse se ele realmente tinha interesse ou só estava brincando com ela.

Noel não disse nada.

Essa já era uma resposta suficiente.

Selene olhou na direção dos manequins de treino, cujas superfícies agora estavam cobertas de marcas de impacto e pingentes de gelo irregulares, resultado dos feitiços dela mais cedo.

"Deixa eu simplificar pra você. O que você pensa ao ver neve?"

Noel piscou.

"… Que é frio?"

Selene suspirou—como uma professora corrigindo um aluno lento.

"Isso é superficial. As pessoas sempre associam gelo a estar dormente. Congelado. Parado. Mas isso é só a aparência."

Ela tocou a varinha contra a parte interna do pulso, onde uma fina corrente de geada brilhava brevemente antes de desaparecer.

"A verdadeira frieza é questão de controle. Ela se move quando precisa. Mantém tudo o mais parado. Gelo não hesita—decide."

Noel levantou uma sobrancelha, levemente impressionado.

"Você fala assim o tempo todo?"

"Só quando as pessoas fazem perguntas que valem a pena responder."

Ele riu brevemente e balançou a cabeça.

Depois mudou levemente de postura.

"Você treina como se fosse questão de vida ou morte."

"De onde eu vim, é mesmo."

'Droga, então as montanhas do norte não brincam se alguém como ela diz isso.'

Isso o silenciou por um momento.

Então ele disse:

"Acho que somos parecidos, então."

Selene não respondeu, mas a postura dela relaxou um pouco.

Depois, Noel deixou o momento passar—

E resolveu mudar de assunto.

A quietude se prolongou por um segundo a mais do que o necessário.

Justo o bastante para Noel avançar calmamente, passando a mão na testa com o antebraço.

Depois, como quem joga uma pedra em um lago calmo, disse:

"Ei… já ouviu falar daquele novo lugar na esquina de baixo?"

Selene inclinou a cabeça levemente.

Ele não parou.

"Aquele que abriu na semana passada—especializado em cortes ao estilo do norte, assados na fogueira. Costelas de auroque, veados gigantes selados no osso, ensopado de alces de geada… tudo preparado em pedras encantadas, como nas antigas tradições."

Os olhos de Selene se arregalaram.

Ela não piscou, mas algo na expressão dela se quebrou um pouco.

Noel percebeu.

'Peguei você.'

Ele continuou, com tom descontraído, como se não ligasse muito.

"Aparentemente, eles importam as carnes direto das montanhas. Bichos glaciais de verdade. Marinados em redução de berries de geada."

O olhar de Selene fixou-se nele agora. Totalmente.

"…Faz ensopado de alces de geada?"

Noel conteve um sorriso.

"Com raiz de gelo assada e glaze de especiarias fermentadas. Segundo o cara que administra o lugar, é o mais próximo possível da culinária tradicional do acampamento do norte."

Houve silêncio.

Selene o encarou, e pela primeira vez desde que o conhecia—

Parecia confusa.

As bochechas estavam levemente avermelhadas, talvez por causa do treino ou de algo mais.

Ela passou a língua nos lábios, sutilmente.

Depois, aclarou a garganta.

"Talvez eu tenha ouvido alguma coisa… vagamente."

Noel deu um passo à frente, jogando de leve a garrafa de água vazia na lixeira com um movimento da mão.

"Estava pensando em ir. Mas é um lugar que não se frequenta sozinho, né?"

Selene hesitou.

Depois gemeu:

"…talvez."

'Quase lá.'

Noel cruzou os braços.

"Precisamos de alguém que saiba a diferença entre o verdadeiro tempero do norte e só pôr sal e chamar de tradição."

Selene olhou para baixo.

Depois falou, sério:

"Se for ruim, nunca vou te perdoar."

Noel sorriu.

"Combinado."

Selene terminou de prender a trança de novo, o olhar neutro—o calor de antes tinha desaparecido, substituído pela mesma frieza precisa que ela levava a cada duelo.

"Então. O que você quer de mim?"

Noel não titubeou.

'De volta ao normal, pelo jeito.'

'Sei exatamente como você gosta da sua carne, Selene. Assim como seus feitiços—limpos, afiados, direto das montanhas.'

"Preciso de um favor", ele disse. "Durante o debate, nada de atos arriscados."

Selene cruzou os braços.

"Seja específico."

"Você vai poder fazer uma pergunta. Quero que use ela para sacudir o Dior um pouco—sem agressividade. Só algo que tire a máscara que ele construiu, que toque na sua verdadeira face."

Ela inclinou a cabeça.

"…Máscara?"

Noel a encarou.

"Você é inteligente. Então deve saber o que quero dizer. Acho que, no fundo, você já suspeita de quem ele realmente é."

Selene demorou um segundo antes de responder. Olhou para ele por um longo instante—analisando.

Depois:

"E se eu recusar?"

Noel sorriu levemente.

"Então vai perder aquela costela de auroque assada na fogueira. Sei bem como estão suas finanças… alguém precisa te convidar, né?"

Os olhos de Selene se arregalaram um pouco. Só um relance de surpresa.

Esse tipo de detalhe não era público.

"…Como você sabe disso?"

Noel virou de meio lado, já caminhando em direção à fonte de água próxima.

"Tenho uma fonte confiável, extremamente digna de confiança, veja bem."

Selene estreitou os olhos, mas não insistiu.

Em vez disso, desfez o cruzamento de braços e disse:

"Mande a frase pra mim. Se estiver ruim, eu reescrevo."

'Armadilha, isca e anzol.'

E assim, o primeiro passo para desmontar Dior começou oficialmente.

A sala de reuniões estava escura, como sempre.

O antigo espaço do conselho tinha se tornado seu quartel-general não oficial—um lugar onde a política da academia era silenciosamente posta em ação.

Noel entrou logo após o meio-dia.

Elyra já estava sentada na mesa comprida, folheando um caderno de pergaminho com sua calmo habitual, o casaco dobrado cuidadosamente sobre a cadeira.

"E aí?"

Noel se acomodou na cadeira do lado dela.

"Ela disse que sim."

Agora ela olhou para cima.

"Selene?"

Ele assentiu.

"Condicionalmente. Ela quer uma revisão final da formulação da pergunta."

Elyra sorriu levemente.

"Faz sentido."

Ela puxou do bolso interno do casaco um pergaminho dobrado e deslizou na mesa.

"Já preparei três opções. Escolha a que mais combina com o tom dela."

Noel desdobrou e leu o conteúdo.

A primeira era muito branda.

A segunda tinha uma armadilha sutil: uma referência à iniciativa fracassada do Dior no ano passado, formulada como uma pergunta genuína.

A terceira…

Ele sorriu.

"Essa. É a mais limpa."

"É a mais afiada", corrigiu Elyra.

Noel recostou na cadeira.

"Acha que ele vai reagir?"

"Sabendo dele? Sim, sem dúvida."

Ele assentiu uma vez, em silêncio.

'Conto meus dias, espero que o sistema me recompense de novo quando o Ato II terminar. Hahaha, que venha uma boa recompensa dessa vez também.'

Noel saiu da antiga sala do conselho, fechando a porta com um clique suave.

O corredor ainda estava silencioso. Um raio da manhã tardia filtrava por uma das janelas estreitas, projetando longas linhas no chão de pedra.

Os passos dele ecoaram suavemente enquanto caminhava.

Com as mãos nos bolsos. Ombros relaxados.

Sua mente, nem tanto.

'Bom… acho que cumpri minha palavra.'

'Disse que ficaria nas sombras. Só observando. Movendo peças sem ser visto.'

Ele deu uma risadinha silenciosa.

'Sim. Isso não durou muito.'

'Mas é verdade que ainda estou cumprindo minha palavra porque já não estou mais nas sombras.'

Virou uma esquina, indo em direção à ala leste—onde os estudantes já começavam a se reunir para as aulas do meio-dia.

'Agora faço parte da história. Talvez até seja importante para ela.'

'Até o Dior tem agora meus olhos sobre ele.'

Seu maxilar se tensionou levemente ao pensar nisso.

'A vida é assim.'

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