
Capítulo 75
O Extra é um Gênio!?
O inverno tinha chegado à Academia Imperial de Valon.
A mudança não foi anunciada com pompa, mas estava em toda parte.
O vento agora tinha dentes, assobiando pelos corredores de pedra como um aviso. Geada desenhava delicadas veias nas janelas externas dos salões principais, e os estudantes se moviam rapidamente pelos jardins da academia, a respiração formando névoa no ar frio.
Os uniformes tinham mudado com a estação.
As vestes agora eram longas, até o chão.
Azuis profundos e cinzas substituíam os tons mais claros de outono. Alguns estudantes usavam jaquetas em camadas sobre os ombros, com detalhes nas cores familiares ou em símbolos de suas casas pessoais.
Noel caminhava com as mãos nos bolsos do sobretudo, ombros levemente curvados—não por causa do frio, mas pelo cansaço constante que parecia nunca lhe abandonar.
As consequências do debate ainda pairavam no ar.
Estudantes se agrupavam em cantos do corredor, sussurrando e rindo. Alguns em descrença. Outros com satisfação de súbito.
Até os nobres—aqueles que antes se sentavam altivos na esquina de Dior—estavam mais silenciosos agora.
Um estudante do terceiro ano, trajando uma túnica de prata impecável, murmurou perto da entrada:
"Seraphina nasceu para liderar. Pelo menos ela não grita com a gente por respirar e nos vê como seres vivos comuns."
Outro completou:
"Sempre soube que Dior era um idiota. Era só uma questão de tempo."
Noel passou por eles sem parar, olhos fixos à frente, queixo firme.
Ele não precisava ouvir, porque conhecia Dior melhor do que ninguém aqui.
'Eles não estão errados, só um pouco atrasados.'
Ele virou a esquina em direção à torre central—local onde, mais tarde naquela mesma noite, uma reunião tinha sido agendada.
Uma reunião privada.
Seraphina de Valor.
Elyra von Estermont.
E ele.
A sala de reunião era quente—levemente iluminada por dois abajures de maná de luz suave, fixados perto do teto. O cheiro era sutil de tinta, lenha queimando e um leve aroma de pergaminho encantado.
Elyra estava sentada com a postura habitual—pernas cruzadas, braços cruzados, expressão indecifrável.
Noel ficou perto da janela alta, com as mãos nos bolsos, a luz do inverno refletindo no vidro coberto de geada.
Então a porta se abriu.
Seraphina de Valor entrou, composta como sempre. Não sorria, mas sua presença enchia o ambiente como se não precisasse fazê-lo. Seu sobretudo era preto, com detalhes prateados e fixado com o emblema de sua família.
Ela acenou com a cabeça para cada um deles.
"Imagino que vocês já tenham ouvido."
Noel a encarou.
"Ele vai embora?"
Seraphina não vacilou.
"Ele vai se retirar da academia pelo resto do ano. Voluntariamente." Ela fez uma pausa. "À minha insistência."
O sobrancelha de Elyra se levantou levemente.
Noel manteve-se imóvel.
Seraphina deu um passo mais perto.
"Aquilo que aconteceu lá fora não pôde ser apagado. Nem que eu quisesse. A explosão dele garantiu isso."
Ela olhou entre os dois.
"Então, vim para agradecer a ambos."
Noel encolheu os ombros.
"Não me olhe. A Elyra fez todo o trabalho."
Elyra virou a cabeça, finalmente lançando um olhar para Noel.
Ele acrescentou:
"Eu só apareci e ofereci carne para alguém."
Elyra, surpresa: "O quê?"
"Nada. Só ofereci uma carne—o que, é tão estranho assim?"
Seraphina olhou entre eles, e, pela primeira vez naquela noite, sorriu.
Algo próximo de sincero.
"Mesmo assim... Vocês executaram perfeitamente. Ambos."
Seraphina sentou-se na cadeira oposta a Elyra, apoiando as luvas na mesa com uma elegância natural, sem parecer forçada.
Noel permanecia de pé perto da janela, postura relaxada, mas olhos atentos.
Ela olhou para ambos.
"Vou reorganizar o conselho assim que os resultados oficiais forem divulgados."
Elyra não piscou.
"Quer dizer, assim que terminarem de contar os votos que você já ganhou?"
Seraphina sorriu de leve.
"A formalidade importa, Ely."
"Diz a garota que nunca ligou para aparências, a não ser que sejam estratégias."
Noel olhou de um para o outro, em silêncio.
Não havia maldade nas palavras deles.
Seraphina olhou para ele a seguir.
"Noel, quero você no conselho. Oficialmente."
Noel balançou a cabeça uma vez.
"Não é bem meu estilo, isso é muita responsabilidade, sabe."
Seraphina levantou uma sobrancelha.
"Você teria liberdade. Mais do que a maioria. Não me importo com formalidades—me importo com resultados."
Elyra também olhava para ele agora, uma perna cruzada sobre a outra.
"Você ainda teria seu tempo. Ela oferece um papel flexível, não uma coleira."
Noel respirou lentamente.
Ainda não convencido.
Seraphina continuou, olhos calmos.
"Um pedido. É só isso que peço. Faça uma coisa por mim."
Antes que Noel pudesse responder, Elyra interrompeu, casual:
"E não esqueça do nosso acordo."
Seraphina inclinou ligeiramente a cabeça.
"Quando eu deixo de esquecer?"
A troca entre eles era fácil. Duas mentes que há anos estavam jogando esse jogo.
Noel não interrompeu—mas também não desvia o olhar.
Mesmo assim—rindo, provocando—Seraphina parecia intocável. Majestosa, à sua maneira.
Seraphina se inclinou para frente, os cotovelos descansando levemente na mesa.
Sua voz era suave, mas clara.
"Tem uma coisa que vou precisar de você, Noel."
Noel levantou uma sobrancelha.
"Deixe-me adivinhar. Não é opcional?"
"Você já concordou em fazer parte do conselho. Isso faz parte do papel."
Ele suspirou pelo nariz.
"Ok. O que é?"
Ela não respondeu de imediato.
Em vez disso, sorriu—pensada, deliberada.
"Você vai saber quando chegar a hora. Mas, quando eu pedir, vou esperar."
Noel não gostava de acordos vagos. Mas algo na maneira como ela disse aquilo…
Ele assentiu.
"Então quero alguma coisa em troca."
Saraphina não vacilou.
"Diga o que for."
Noel recostou-se para trás.
"Quero permissão irrestrita para sair dos terrenos da academia quando eu quiser, não vou faltar às aulas, então não se preocupe."
Isso fez ela pause—mas não em negação.
Ela olhou para Elyra.
Elyra já estava de olho nele.
Depois, em silêncio:
"Para quê?"
Noel manteve o olhar fixo nela.
"Preciso disso. É só isso que vou dizer."
Elyra estreitou os olhos um pouco.
Antes que pudesse perguntar mais, Seraphina inclinou a cabeça em direção à amiga com um sorriso discreto.
"Você é desconfiada, Ely. O que, está com ciúmes que eu tenho um favor dele?"
Elyra revirou os olhos.
"De você? Nunca."
Noel permaneceu imóvel, o olhar oscilando entre elas.
A atmosfera na sala mudou.
O peso político da conversa diminuiu—pelo menos o bastante para que algo mais humano escapasse.
Seraphina recostou-se na cadeira, com os braços cruzados agora.
Seu sorriso ficou mais afiado.
"Então… não estava imaginando coisas."
Noel olhou para ela de lado.
"Que coisas?"
Seraphina lançou um olhar para Elyra, com uma diversão na voz.
"Você realmente a beijou?"
Elyra nem piscou.
"Sim."
Seraphina parou no meio do sorriso, em choque.
"Espera—de verdade? …Era só uma brincadeira."
Elyra virou um pouco a cabeça, apoiando a bochecha na mão, completamente tranquila.
"Gosto dele. Ele já sabe."
Noel tossiu uma vez, os olhos se dirigindo para a janela como se aquilo pudesse ajudar.
Seraphina se ajustou na cadeira, puxando um fio de cabelo solto atrás da orelha.
"Você… impressionantemente direta nisso."
"Por que não seria?" Elyra respondeu com elegância. "Não tenho vergonha de nada disso."
Seraphina a encarou por mais um momento, depois exalou.
"Entendo."
Noel ainda não tinha dito uma palavra.
Ele parecia calmo.
Na verdade, não estava.
'Era para ser uma conversa tranquila, normal, sobre as eleições e os resultados.'
'Agora estou envolvido em uma espécie de subenredo romântico. Não que eu desgoste, mas ainda assim é estranho.'
O silêncio voltou à sala.
Seraphina quebrou a pausa com uma respiração—andamento composto, porém deliberado.
Ela se levantou, alisando o sobretudo, adquirindo novamente a postura nobre que sempre ostentava quando algo importante precisava ser dito.
"Então, fico feliz."
Elyra olhou para cima, levantando uma sobrancelha.
"Feliz?"
"Que estamos do mesmo lado." O olhar de Seraphina passou de Elyra para Noel. "Vou precisar de pessoas em quem confie. Pessoas que não me deixem na mão quando for preciso ou quando as coisas ficarem difíceis."
Noel não respondeu com palavras.
Apenas assentiu uma vez.
'Quer dizer, tive que fazer, agora preciso me preparar para a tempestade que vem com toda essa mudança.'
Seraphina caminhou até a porta, mas parou de repente e voltou.
Sua voz ficou mais suave desta vez.
"E… obrigada. Por me ajudar a enxergar as coisas com clareza."
Ela não especificou quem ela quis dizer.
Ela não precisava.
Depois, ela saiu, deixando a sala sob uma luz tranquila, como o fogo do crepúsculo.
Noel respirou fundo lentamente, jogando-se em um dos sofás e esfregando a nuca.
"As coisas estão acontecendo rápido."
Noel nem olhou para ela.
"Sempre acontecem."
Um instante passou.
A porta se fechou com clique atrás de Seraphina.
O silêncio voltou, mas desta vez não era político.
Era frio e acolhedor.
Elyra se virou da janela, seus olhos cinzentos atentos a Noel, que ainda estava deitado no sofá, com um braço apoiado no encosto.
Ela não cruzou os braços. Não suspirou.
Ela simplesmente perguntou:
"Então?"
Noel a olhou lentamente.
'Era isso, eu sabia que isso iria aparecer mais cedo ou mais tarde.'
Ele não estava confuso.
Sabia exatamente o que ela quis dizer.
E, pela primeira vez, não teve uma resposta engenhosa.
Sentou-se um pouco mais ereto.
"… Você pode me dar um tempo?"
Elyra inclinou a cabeça.
Sem decepção.
Apenas observando.
"Posso."
Ela deu um passo à frente, colocando a mão sobre a mesa entre eles.
"Mas você sabe que eu sempre consigo o que quero—"
"—Sim," interrompeu Noel, fazendo contato visual.
"Sei. Pode deixar. Mas, sério… só me dá um tempinho."
Elyra o estudou por um momento.
Depois, soltou o mais leve dos acenos de cabeça.
"Esperarei."
Noel exalou, finalmente se reclinando, os olhos na abóbada do teto.
'As coisas realmente não são mais tão simples assim.'