
Capítulo 84
O Extra é um Gênio!?
A suaveza do tilintar de talheres e o murmúrio tranquilo das conversas matinais preenchiam a cantina da academia. A luz do sol deslizava pelas janelas encantadas, lançando um brilho quente sobre as fileiras de estudantes começando o dia. Elena sentava-se numa das mesas laterais, com uma bandeja à sua frente, quase intocada — apenas um pedaço de pão e uma xícara de chá de ervas fumegante.
Seus dois amigos mais próximos, Mira e Tessa, estavam em ambos os lados dela. Mira, a mais falante das duas, fincava o garfo impacientemente contra o pires de sua tigela de aveia.
"Você realmente acha que ela está bem?" ela perguntou, numa voz baixa, mas insistente. "Já faz uma semana, Elena."
Elena mexia seu chá, observando a fumaça subir antes de responder.
"Vamos não pensar o pior. Ainda não há evidências de que algo ruim esteja acontecendo," ela disse, com um tom calmo, mas nervoso nas pontas. "Não podemos tirar conclusões precipitadas."
Tessa, que sempre era cética, inclinou-se um pouco para frente. "Mas não é estranho? Ninguém teve notícias dela. Nenhuma carta, transmissão mágica, nada. Se ela foi embora por conta própria, teria dito algo."
Elena assentiu lentamente, os olhos na líquidos rodopiantes. "Sei. Pensei nisso também. Mas entrar em pânico não vai ajudar. Agora, só podemos torcer para que, onde quer que ela esteja… esteja segura."
Mira inclinou a cabeça, olhando ao redor antes de sussurrar: "Você realmente acha que ela vai voltar?"
Os olhos âmbar de Elena levantaram-se do chá, calmos, mas firmes.
"Acredito que sim. Ela é forte. Mais inteligente do que muitos supõem. Tenho fé que ela vai retornar."
"Certo, vamos mudar de assunto. E então?" uma delas perguntou, deixando a colher de lado. "Tem algum rapaz que chamou sua atenção ultimamente?"
Elena olhou para cima, um pouco surpresa com a pergunta.
"Hã?"
"Ah, vamos lá, Elena," outra pressionou, inclinando-se com um sorriso de provocação. "Você sempre foge desse assunto, mas não pode ficar se escondendo pra sempre."
A elfa piscou. Então, olhou para baixo em seu chá, mexendo suavemente com a colher.
'Talvez… Noel…?'
"Não sei," ela finalmente disse, mas seu tom não era tão convincente quanto esperava.
As duas garotas trocaram um olhar. Depois, voltaram a olhar para ela.
"Tem alguém, não é?"
Elena não respondeu. Ela simplesmente levantou a xícara até os lábios, como se o vapor pudesse esconder sua expressão deles.
O campo de treinamento ainda estava úmido pela névoa matinal, mas já fervilhava de atividade. Noel permanecia à margem, observando em silêncio enquanto Marcus, Garron, Clara e Laziel se aproximavam.
Clara acenou com a mão. "Lá estão."
Noel assentiu. "Aconteceu alguma coisa?"
Marcus sorriu de canto. "Que bom te ver também."
Noel levantou uma sobrancelha, despreocupado com as provocações. "Precisam de alguma coisa, ou…?"
'Laziel parece perdido de novo… Já fazem dias isso.'
Marcus coçou a nuca. "Pois é. Encontramos algo na nossa última patrulha. Clara não tinha certeza se deveríamos te contar, mas—"
Clara cruzou os braços. "Ainda não sabemos o que significa."
"Tudo bem," continuou Marcus. "Disse a ela que podemos confiar em você. Você foi quem pediu pra compartilhar qualquer coisa estranha que descobrissem."
'Isso é verdade. Depois do Baile, recebemos todo o crédito… mas sei quem realmente movimenta as peças nos bastidores.'
Garron assentiu. "Ele falou isso mesmo. Não há motivo para ser cauteloso."
Laziel sussurrou calmamente, "Pois é…"
Noel lançou mais um olhar para ele. 'Ainda não é normal. Depois dou um jeito de descobrir.'
"Então," disse Marcus, "detectamos vestígios de sangue. Nada humano, achamos. Mas, de repente, fresco."
A expressão de Noel não mudou, mas sua mente já trabalhava rapidamente.
"Obrigado por avisar. Reporte ao diretor. Melhor deixar as autoridades superiores lidarem com isso."
Marcus piscou. "Assunto resolvido assim?"
"Tenho um compromisso."
E, num piscar de olhos, Noel virou-se e foi embora.
Marcus ficou assistindo, exalando. "Ele nem se despediu…"
Laziel repetiu baixinho. "Pois é…"
Garron deu um tapinha nas costas de Laziel. "Força aí, cara. Parece um fantasma há uma semana."
Noel bateu levemente na porta do escritório.
"Entre," veio a voz calma de dentro.
Ele entrou e encontrou o Professor Lereus sentado na mesa, como sempre, impecável. O ambiente tinha um leve cheiro de pergaminho e tinta de ervas. Alguns papéis estavam espalhados, e um grande livro-razão aberto à sua frente.
"Você chegou cedo," Lereus notou sem levantar o olhar.
"Prefiro assim."
"Bom. Então, me ajude com esses," ele disse, indicando uma pilha de papéis numa mesinha ao lado. "Organize por assunto e data. O gavetão direito tem etiquetas."
Noel movimentou-se silenciosamente, pegando a pilha e fazendo o que foi pedido. Alguns minutos passaram em silêncio, com apenas o som de o papel sendo manuseado.
"Passa pra mim também os registros do quadro de horários," Lereus pediu.
Noel entregou.
Lereus olhou para ele rapidamente. "Você se sai bem nisso. Quase como se já tivesse trabalhado com administração antes."
"Só me adapto rápido."
Uma breve pausa, depois Lereus recostou-se na cadeira.
"Isso é suficiente por hoje. Pode sair mais cedo. Tenho uma reunião marcada em breve."
Noel deu um aceno curto. "Entendido. Até amanhã, Professor."
Ao se virar para sair, seu olhar ficou mais aguçado.
'Pra onde quer que vá, duvido que seja por negócios da escola.'
Ele fechou a porta silenciosamente atrás de si.
A noite permanecia silenciosa. Apenas o suave sino distante das torres da academia ecoava na brisa.
Noel moveu-se como uma sombra pelos telhados—baixo, silencioso, intencional. Vestia roupa de couro escura, feita para o stealth, nada parecido com o uniforme da escola. Um manto negro cobria seus ombros, com capuz puxado para baixo para esconder seu rosto.
'Estou parecendo um maldito ninja,' pensou, ajustando a pesada da Lâmina do Refúgio nas costas. 'Vamos ver o que você está aprontando esta noite, Laziel.'
De seu lugar, viu o garoto saindo sorrateiramente do dormitório pelo setor norte. Laziel andava sozinho, com ombros tensos, passo firme, mas cuidadoso. Algo não estava certo.
Noel o seguiu, pulando entre telhados e beirais sombreados com precisão. Quando Laziel virou uma esquina em um pequeno pátio, Noel saltou para baixo, aterrissando na escuridão.
Foi então que viu.
Uma silhueta alta saiu de trás de uma das colunas de pedra—Professor Lereus.
Noel parou congelado.
'Que diabos…?'
Os dois trocaram algumas palavras em sussurros. Noel não conseguiu entender de longe, mas Laziel assentiu. Então, Lereus olhou ao redor e acenou para que ele acompanhasse.
Juntos, partiram em direção ao portão leste—um que geralmente é trancado à noite.
Noel moveu-se rápido, mantendo-se na sombra. Uma leve luz brilhante pulsou perto do portão por um instante antes de se abrir silenciosamente. Magia.
Somente eles passaram pela entrada, desaparecendo na floresta escura além.
Noel respirou fundo, devagar.
'Então é verdade. Você está envolvido em algo… e agora eu tenho provas.'
Ele ajustou o capuz, dando um passo à frente, seguindo-os na noite escura.