
Capítulo 85
O Extra é um Gênio!?
A noite envolvia a capital como um manto pesado e silencioso. Quanto mais eles se afastavam do centro da cidade, mais as ruas se enredavam na decadência. Janelas quebradas, lampiões que piscavam, vielas com cheiro de mofo e podridão.
Noel se movia pelas sombras, leve nos pés, mantendo uma distância prudente atrás de Lereus e Laziel. Os dois não tinham falado desde que passaram pelos portões da academia. Isso, mais do que qualquer outra coisa, deixava Noel tenso.
Eles passaram pelas últimas avenidas iluminadas e entraram em um bairro esquecido pela coroa. Sem guardas. Sem comerciantes. Apenas silhuetas trêmulas nos cantos, os sem-teto, os bêbados, os descartados.
— Para onde vocês vão...? Aqui cheira a problema.
Ele desacelerou quando fizeram uma curva e pararam diante de uma estrutura em ruínas. O prédio parecia abandonado há anos—janelas fechadas com tábuas de madeira tortas, a porta da frente quase arrancada das dobradiças. Sem sinal, sem luz, sem vida.
Sem hesitar, Lereus empurrou a porta e entrou. Laziel o seguiu, com os ombros curvados.
Noel permaneceu na sombra, com os olhos estreitados.
— Vocês certamente não estão vindo conversar sobre notas.
Noel não se moveu imediatamente. Ele escaneou a rua mais uma vez, certificando-se de que ninguém os observava. O silêncio aqui era anormal—até o vento parecia prender a respiração.
Ele circundou lentamente o prédio, tomando cuidado para não pisar em vidro quebrado ou em cascalho solto. A maioria das janelas estava fechada com tábuas grossas, mas uma—no terceiro andar—emitia um leve brilho através de uma pequena fresta entre as tábuas.
— Lá. Alguém esqueceu de terminar o serviço.
Com uma exalação silenciosa, deu alguns passos para trás e pulou, agarrando-se a uma quina acima de uma loja destruída. De lá, subiu—com as mãos encontrando rachaduras na parede, os pés apoiados em canos e tijolos—até alcançar a beirada do terceiro andar.
O brilho agora era mais intenso, passando por entre a fenda estreita nas tábuas.
Ele apoiou as costas na parede e respirou fundo por um momento.
— Foi preciso um esforço... Agora vamos ver o que você está escondendo.
Com cuidado, Noel inclinou-se para frente, aproximando um olho da abertura.
E então, congelou.
Da fresta estreita, Noel conseguiu ver uma sala fracamente iluminada, cheia de poeira e silêncio total. Laziel estava rígido no centro, de frente para uma mesa de madeira gasta. Do lado oposto, Lereus.
Mas não era mais Lereus.
O corpo do homem estava—sutilmente—não, claramente—mudando. Sua pele escurecia a cada segundo, veias se arrastando como vinhas sob a pele. Garras obsidianas se estendiam dos dedos, afiadas e anormais. Seus traços, que antes eram elegantes, torciam-se, ossos alongando-se, o rosto se estreitando numa feição que mal parecia humana.
Então, seus olhos se abriram.
Dois globos de cristal derretido em fogo.
— Muito melhor, não acha, meu pequeno assistente? —sussurrou Lereus.
Laziel reagiu com um sobressalto. Os lábios se abriram como se fosse responder, mas apenas um aceno vacilante veio à tona.
A garganta de Noel apertou.
— Isso não é mais Lereus... É um demônio.
Ele pressionou o corpo contra a parede, a pedra fria contra as costas.
Dentro, Lereus ergueu-se lentamente da cadeira.
Ele se afastou da mesa, o piso rangendo sob seu peso desumano. Atrás dele, contra a parede ao fundo, havia seis figuras—encapuzadas, imóveis.
Os olhos de Noel se arregalaram.
Eram estudantes.
Cada um preso por cordas encantadas que brilhavam levemente em vermelho. Uma delas era uma elfina de cabelos castanhos macios e orelhas pontudas. Noel a reconheceu imediatamente—uma das amigas mais próximas de Elena. As outras... seus rostos também eram familiares.
— Eu os vi todos... ajudaram durante o Banquete Sangrento.
Não havia civis ali. Apenas estudantes escolhidos a dedo.
— Então é isso. Você está mirando em todos que atrapalharam naquela época. Por isso trouxe Laziel. Logo, Marcus... Clara... Elyra... também estão na sua lista.
Lereus parou diante da elfa. Sua mão com garras avançou lentamente, suave como o toque de um amante.
— Vamos ver o que temos para o jantar hoje.
De forma assustadora, perfurou o pulso dela com a ponta do dedo.
A guria se contorceu, um gemido abafado escapando dos lábios.
Começou a escorrer sangue vermelho escuro, lentamente, para um copo raso sobre a mesa.
— Ah... o sangue de alguém tão jovem… e de uma elfa, ainda por cima. Exquisito, —murmurou Lereus, fechando os olhos em prazer doentio.
Noel mordeu o lábio com força suficiente para escorrer sangue.
— Você está bebendo o sangue deles como vinho...
Lereus virou um pouco o rosto, seus olhos rubros agora fixos em Laziel.
— Você não gostaria de experimentar, Laziel? — perguntou, suavemente, com uma voz sedutora e doce como veneno no mel.
Laziel balançou a cabeça, com a voz quase inaudível. — Não, senhor... e acho que já deu por hoje, né? Fiz tudo que pude para ajudá-lo, não foi?
O sorriso de Lereus desapareceu.
— Ajoelhe-se.
O corpo de Laziel se projetou para baixo, como se fosse puxado por correntes invisíveis. Ele caiu no chão com força, joelhos batendo na madeira podre. Seus braços tremiam ao lado do corpo. O rosto se contorceu—não com dor, mas com medo. Medo puro, impotente.
Lereus deu uma volta lenta ao redor dele.
— Veja bem, meu pequeno Laziel... por causa do incômodo que você e seus amiguinhos causaram, tive que agir antes do que queria. Mas, agora que começamos... bem, você será bastante útil para mim.
Soltou uma risada baixa, gutural.
— E você não consegue resistir a mim. Já provou isso.
— Não—, Murmurou Laziel, quase inaudível. — Como... como você sabe todos esses nomes? Por que tem uma lista?
Lereus se agachou na sua frente, os olhos brilhando.
— Você sabe por quê. Vocês todos atrapalharam meus planos. E, como professor… —ele colocou uma garra sob o queixo de Laziel delicadamente— —Tenho todo o direito de punir meus alunos desobedientes.
Noel rangeu os dentes, com os punhos brancos contra a parede.
—Seu filho da puta doente.
Noel permaneceu congelado na janela, com a respiração curta.
Logo abaixo, o cômodo transpirava sangue e podridão. A criatura retorcida que um dia foi Lereus agora passeava, saboreando cada segundo de sua exibição. Laziel ajoelhado como uma marionete com os fios cortados. Os estudantes atrás dele nem se moveram. Alguns ainda respiravam—por pouco.
O estômago de Noel virou.
Seus dedos se fecharam firmemente na borda do madeiramento. Sua garganta queimava, a pressão aumentando a cada segundo.
— Respire. Respire. Não perca o controle agora.
Mas o gosto de bile já subia.
Ele pressionou a mão contra a boca, tentando contê-la.
Ainda assim… um sussurro escapou.
— Droga...
Mal saiu dos seus lábios quando algo na sala mudou.
Uma quietude.
Como se o próprio ar recuasse.
Lereus—não, o demônio—parou no meio de um passo. Sua cabeça inclinou-se ligeiramente, não como um humano, mas com uma nitidez meio mecânica, cortante. Uma das garras foi levantada, pairando no ar, congelada, como se percebesse uma brisa onde não deveria haver.
Depois, seus olhos se voltaram.
Lentos. Calculados. Como um predador que captura o calor.
De baixo, Noel sentiu—a pressão, um peso, uma força que subia pela espinha como gelo imerso em óleo. Ele ficou imóvel, paralisado.
Ele não respirou, não piscou.
Os olhos vermelhos do demônio vasculharam o teto por menos de um segundo.
E o encontraram.
Preso.
Se olharam através do vão de madeira, pelo pequeno furo que Noel achou seguro, e cruzaram o olhar com uma precisão impossível.
O sangue de Noel gelou.
O peito apertou. Sua mão escorregou levemente da madeira, úmida de suor.
O demônio não falou imediatamente. Sorriu.
Devagar.
Um sorriso que não deveria pertencer a algo feito de carne.
Então, sua voz, baixa e suave, deslizou pelo ar:
— Acho que temos companhia.
O coração de Noel pulsou forte.
— Droga.