O Extra é um Gênio!?

Capítulo 77

O Extra é um Gênio!?

As ruas de Valon haviam se tornado silenciosas, a escuridão se acumulava como tinta espessa derramada sobre uma tela. A luz fria da lua filtrava-se pelas nuvens finas, projetando padrões assustadores nos paralelepípedos antigos e desgastados. A maioria dos cidadãos já tinha recuado há muito tempo para a segurança de suas casas, restando apenas lanternas tênues brilhando atrás de janelas trancadas.

Kaelith movia-se silenciosamente pelas ruas vazias, com passos graciosos e deliberados. Com seu manto escuro e postura serena e digna, parecia um nobre qualquer apreciando um passeio noturno. Os poucos transeuntes que o percebiam rapidamente desviavam o olhar, instintivamente sentindo que era melhor evitar sua presença.

Ele virou numa rua mais estreita, serpenteando entre prédios antigos e dilapidados—bem longe das principais vias, além do alcance de olhos atentos.

Só então Kaelith parou, deixando que a noite se assentasse ao seu redor.

Lentamente, levantou as mãos, examinando-as enquanto o glamour se dissipava, revelando a pele pálida de suas pontas dos dedos escurecendo rapidamente, transformando-se em garras de obsidiana.

Ele expirou suavemente, com os olhos fechados. Seu corpo torceu-se e remodelou-se discretamente—ossos alongaram-se, suas feições elegantes ficaram mais afiadas, veias escuras emergiram por toda a pele que ficava cada vez mais negra e áspera.

Seus olhos se abriram de repente, ardendo brevemente em um vermelho profundo, como se fundido ao magma.

Um sorriso tênue surgiu nos lábios enquanto ele flexionava suas novas garras, observando-as com uma apreciação despreocupada. Essa forma sempre lhe parecia mais honesta, mais satisfatória.

"Muito melhor," ele sussurrou ao ar frio da noite.

Kaelith inclinou ligeiramente a cabeça, expandindo seus sentidos. Ouviu atentamente os murmúrios distantes da cidade, procurando pelo pulso mais tênue de calor, pelo fluxo tentador de sangue vital.

Nesta noite, ele iria se alimentar. Nesta noite, ele ficaria mais forte.

E Valon—tão orgulhosa e poderosa—alimentaria involuntariamente sua própria destruição.

Kaelith moveu-se silenciosamente, adentrando ainda mais o labirinto de vielas esquecidas de Valon. A cada passo, sua presença se expandia como uma teia invisível, estendendo-se na escuridão. Ele parou, ouvindo com atenção.

Lá.

O ritmo sutil do pulso de um coração, como um tambor distante. Um sussurro de calor, atraindo-o para mais perto.

Virou mais uma esquina e a viu—uma jovem mulher, agasalhada sob um lampião tremeluzente, apressando-se para chegar a casa. Ela olhava ao redor nervosamente, sentindo o perigo, mas incapaz de apontar sua origem.

Kaelith sorriu suavemente, avançando na luz tênue da lâmpada. Instantaneamente, sua forma monstruosa foi encoberta por uma breve faísca de ilusão, aparecendo como um nobre inofensivo com olhos gentis.

"Perdida, hein?" ele disse suavemente, sua voz suave, tranquilizadora—quase melodiosa.

A mulher se assustou, virando bruscamente. Seus olhos encontraram os dele, momentaneamente desconfiados, antes de se amolecerem inexplicavelmente.

"Eu... só virei pelo caminho errado," ela murmurou baixinho. "Estou bem."

"Ah, tenho certeza de que sim," Kaelith comentou suavemente, aproximando-se. "Mas aqui à noite é perigoso. Deixe-me acompanha-la."

A hesitação dela desapareceu, seu olhar ficando distante enquanto o charme de sua voz a dominava. Ela assentiu lentamente, hipnotizada, caminhando em direção a ele.

Kaelith ergueu uma mão, acariciando suavemente sua bochecha, sentindo o pulso sob sua pele quente. Ele se inclinou mais perto, sussurrando com suavidade, quase com ternura:

"Relaxe…"

Num instante, sua ilusão se quebrou. Sua mão gentil transformou-se em garras negras que apertaram com força sua garganta, embora ela não resistisse—não pudesse, sob seu domínio.

Seus olhos queimaram em vermelho profundo na escuridão.

O hálito dela tremeu uma última vez antes de ficar imóvel, hipnotizada por uma calma terrível.

A outra mão de Kaelith pairou a poucos centímetros de seu peito, com os dedos espalhados. Com uma palavra sussurrada em uma língua antiga e gutural, fios escarlates de sangue emergiram de seus poros, flutuando para cima em direção à sua mão aguardando.

À medida que os rios de sangue brilhantes tocavam sua palma, suas veias pulsaram e escureceram visivelmente. Uma energia poderosa se enchia, fortalecendo-o, alimentando uma fome que ia muito além da carne.

A pele da mulher ficou rapidamente pálida, seus olhos vazios. Ela nunca gritou. Nunca teve a chance.

Quando as últimas gotas de vida se esgotaram, Kaelith a soltou, permitindo que sua forma oca desmoronasse suavemente sobre os paralelepípedos. Ele permaneceu imóvel, com os olhos fechados, saboreando a nova força que corria em suas veias.

"Um passo mais perto," ele sussurrou, virando-se para a escuridão.

"Um passo mais perto de reconstruir tudo."

Sem deixar rastros, além das sombras, ele desapareceu mais uma vez na noite silenciosa de Valon.

Na sombra silenciosa de uma viela estreita, Kaelith parou novamente. Cerrando os olhos, respirou calmamente enquanto a súbita força do sangue roubado se dissipava lentamente em uma calmaria controlada.

Um instante depois, seu corpo começou a mudar novamente.

As garras escurecidas retraíram-se, dando lugar a dedos longos e elegantes. Sua pele demoníaca, áspera, suavizou-se, recuperando a aparência pálida e nobre de antes. Seus olhos vermelhos ardentes arrefeceram para um violeta profundo e sereno. A presença monstruosa diminuiu, encoberta por uma máscara de refinamento.

Com um leve ajuste nas mangas e uma brisa tranquila em seu manto, Kaelith desapareceu. Em seu lugar, estava o Professor Lereus—quieto, digno, e completamente discreto.

Ele ergueu brevemente uma mão, ajustando o colarinho do paletó da academia, certificando-se de que não restava nenhum sinal de sua alimentação noturna. Satisfeito, avançou para a rua principal, emergindo da escuridão sob o brilho suave dos lampiões, agora apenas mais uma figura entre os pedestres vespertinos.

Como Lereus, caminhou firmemente em direção à Academia Imperial, cada passo cuidadosamente medido, cada movimento preciso e comum. Alunos e funcionários o cumprimentaram educadamente, sem suspeitar da escuridão oculta por trás de sua reverência cortês e sorriso tênue.

A mente dele já retornava à sua tarefa—planejando cuidadosamente os alunos que logo chamaria, apagando ameaças antes que se tornassem problemas.

A fome daquela noite fora saciada.

As tarefas do amanhã aguardavam.

Com a confiança serena de um predador disfarçado, o Professor Lereus seguiu adiante, fundindo-se novamente à vida de Valon.

O escritório de Lereus estava com luz fraca, iluminado apenas por uma pequena lâmpada de mana em sua mesa. Prateleiras com livros ordenados silenciosamente eram lânguas de prateleiras, conferindo ao ambiente uma sensação de calma dignificada. No entanto, essa paz contrastava fortemente com a lista cuidadosamente preparada espalhada sobre a mesa de madeira polida.

Sentado confortavelmente, Lereus inclinou-se para frente, sua pena traçando levemente o papel enquanto revisava os nomes.

Gideon von Hall – Primeiro ano, capacidade de mana irrelevante. Baixa prioridade.

Maya de Solren – Segundo ano, potencial, mas dispersa. Baixa prioridade.

Jeric von Donnell – Primeiro ano, reflexos rápidos, ameaça mínima. Baixa prioridade.

Ele avaliava meticulosamente cada estudante, categorizando seus pontos fortes, fraquezas e níveis de ameaça de forma ordenada na sua mente.

À medida que seus olhos desciam pela lista, os nomes tornaram-se cada vez mais relevantes:

Garron Bale – Forte fisicamente, disciplinado, eficaz sob pressão. Ameaça potencial.

Laziel Varn – Inteligente, astuto, influente socialmente. Próximo alvo.

Selene von Iskandar – Prodígio de mana, fria, precisa. Perigosa.

Marcus – Espadachim talentoso, líder carismático. Alta prioridade.

Clara de Nivaria – Rápida, estrategista talentosa. Ameaçadora.

Roberto – Forte fisicamente, observador. Monitoramento próximo.

No topo da lista, destacadamente sublinhado duas vezes:

Noel Thorne – Capacidade imprevisível, habilidades desconhecidas. Maior prioridade.

O olhar de Kaelith permaneceu pensativo sobre o nome de Noel, suas íris violetas se estreitando sutilmente. Um sorriso frio e discreto contornou seus lábios.

"Você já está causando encrenca," ele murmurou suavemente, diversão colorindo seu tom. "Mas isso não vai durar muito."

Cuidadosamente, dobrou o papel e deslizou-o para um compartimento discreto de sua mesa.

Seu próximo passo era claro. Laziel Varn seria seu primeiro passo para desmantelar qualquer resistência futura.

E ninguém suspeitaria de nada até já ser tarde demais.

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