O Extra é um Gênio!?

Capítulo 63

O Extra é um Gênio!?

O auditório estava lotado.

Mais de quatrocentos estudantes estavam sentados de frente para o palco—fileiras de uniformes alinhados, brasões familiares costurados nos ombros, sussurros que se espalhavam como vento pela multidão. Alguns trocavam notas silenciosas. Outros se inclinavam para murmurar previsões. A maioria apenas aguardava.

Noel estava na parte superior do terço do salão, levemente curvado, braços cruzados, observando sem expressar reação.

Roberto sentava ao seu lado, com a cabeça inclinada, mexendo preguiçosamente com um amuleto preso ao cinto.

Então as luzes se apagaram.

E o silêncio tomou conta.

Do lado direito do palco, uma garota alta entrou em cena. Cabelos curtos e azuis, olhos azul-marinho, uniforme com corte preciso e afiado. Ela não sorriu.

Myriel von Astralis.

Presidente do Conselho Estudantil. Dois anos na liderança. Sem contestação.

Ela avançou até o púlpito—uma estrutura de madeira de ébano polido, entalhada com runas de prata—e deixou o silêncio respirar antes de falar.

"Vou ser breve."

Algumas risadinhas nas primeiras fila.

"Nos últimos dois anos, as coisas foram boas—não fáceis, não perfeitas, mas, mesmo assim... boas."

Ela olhou para a plateia, firme e confiante.

"Enfrentei incursões de monstros, visitas políticas, mudanças de regras, e mais de uma brincadeira de mal gosto de alguns nobres."

Isso causou mais risos.

"Mas ano que vem será meu último na academia. O que significa que chegou a hora de passar a liderança para alguém mais."

Ela fez uma pausa.

Noel se inclinou um pouco mais para frente.

"A partir de hoje, o caminho para a presidência do conselho está aberto. A eleição começa agora. Se você acha que está pronto, levante-se. Se acredita que alguém mais deve liderar, apoie-o. É assim que seguimos em frente."

A voz dela não elevou o tom. Não precisava.

"Boa sorte. Não enfeite tudo."

Ela se afastou do púlpito, deixando apenas o silêncio e a possibilidade no ar.

A sala começou a se movimentar.

Noel não se mexeu.

'E lá vamos nós.'

A sala ainda não se acalmou.

Sussurros espalharam-se como ondas na água—nomes, previsões, risadinhas nervosas. Alguns estudantes olhavam para as fileiras de elite, onde os herdeiros nobres geralmente se sentavam, esperando para ver quem daria o primeiro passo.

Dior do Valor não hesitou.

Levantar-se do assento na fileira central-esquerda, ajustar seu casaco vermelho escuro com um movimento preciso, e caminhar com graça treinada até o palco.

Estudantes assistiam em silêncio enquanto ele subia os degraus e se voltava para enfrentar a multidão, a poucos passos de Myriel, que permanecia com as mãos nas costas, observando.

Dior colocou uma mão sobre o peito.

"Bom dia a todos."

Sua voz era suave—clara, calma e perfeitamente controlada.

"A maioria de vocês sabe quem eu sou. Para aqueles que não: sou Dior do Valor. E pretendo ser o próximo presidente do conselho."

Não houve suspiros, sinais de choque. Apenas murmúrios baixos de uma verdade que todos já tinham intuído.

Ele prosseguiu.

"Nossa academia é fundada na disciplina, na estrutura e no legado daqueles que vieram antes de nós. Estamos onde estamos por causa da tradição—e por causa do respeito à força que nos mantém unidos."

Ele examinou a sala.

"Como presidente, reforçarei essa força. Protegerei a ordem que nos permite crescer, competir e representar nossas casas e nações com orgulho."

Ele baixou um pouco a cabeça.

"Obrigado."

E, assim, deu um passo atrás.

Alguns aplausos.

Fortes entre os nobres. Polidos entre os demais.

Dior caminhou para um lado do palco, com postura, mãos behindadas.

Depois, uma figura apareceu.

Noel não precisou se inclinar para ver quem era.

Seraphina.

Ela caminhou sozinha pelo corredor central—direta, alta, ombros relaxados, presença pesada sem ser barulhenta.

Seu manto era de um violeta profundo, rematado em prata, com o brasão entrelaçado na gola. As botas não faziam som ao tocar o piso de pedra.

Ela parou no centro do palco e encarou a sala. Sem se curvar. Sem apresentações.

"Sou Seraphina do Valor. E também vou concorrer à presidência."

Dessa vez, não houve murmúrios.

Apenas atenção.

Sua voz era calma, mas mais afiada que a de Dior. Mais controlada.

"Não vou fazer promessas de tradição. Respeito nossa história, mas não a sirvo."

Uma pausa.

"Meu dever é com a academia. Com seus estudantes. Com cada um de vocês."

Ela olhou pelos degraus.

"Seja humano ou não. Nobre ou não. Com nome ou sem nome. Se trabalhar para melhorar este lugar—a melhoraremos juntos."

Silêncio.

Então, uma mão bateu palmas.

Depois outra.

E de repente, o som cresceu—não uma aplauso polido, mas algo mais pesado. Verdadeiro.

Noel não aplaudiu.

Mas assentiu discretamente.

'Ela já está ganhando. Isso é bom—deve significar menos trabalho para mim daqui para frente.'

o grande salão como uma onda que ficou tempo demais.

Sussurros se espalharam instantaneamente.

Grupos se formaram rapidamente—nobres, comuns, estudantes de origem estrangeira, observadores silenciosos. O ambiente fervilhava de especulação e reorientações instintivas.

"Claro que Dior vai se candidatar."

"Ele praticamente já garantiu."

"Seraphina disse 'todos vocês'. Ela quer dizer isso mesmo."

"Ela é séria. Você ouviu o tom dela?"

Noel saiu ao sol com Roberto ao lado, mãos nos bolsos, expressão indecifrável.

"Eu estou chamando agora", disse Roberto. "Dior vai vencer por uma margem enorme entre os nobres."

Noel não respondeu.

'Sem novidade, Sherlock.'

Observava dois estudantes do segundo ano—ambos de beastkin—falando com esperança na voz. Outro grupo perto da fonte discutia quietamente, um deles lançando olhares nervosos na direção de Dior.

"...e se ele for eleito, metade da escola vai acabar presa por tradição de novo."

De trás de uma coluna de mármore, um par de estudantes do terceiro ano sussurraram entre si:

"Ouvi dizer que Dior já garantiu a maioria dos votos apoiados pela Casa."

Noel virou levemente a cabeça.

Seraphina tinha saído após Dior, sem falar com ninguém, seus assistentes logo atrás. Ela não parecia arrogante. Também não parecia insegura.

'Ela veio preparada.'

Em contraste, Dior estava debaixo do arco do Ala leste, já cercado por nobres dando a mão, apertando-lhe os ombros, congratulando-se como se tivesse acabado.

A câmara do conselho estudantil estava quieta, sua mesa longa vazia, salvo alguns pergaminhos lacrados e o brilho âmbar das lanternas suspensas.

Myriel von Astralis permanecia à janela, com as mãos juntas atrás das costas, observando os estudantes dispersarem-se pelo pátio abaixo.

Elyra entrou sem cerimônia.

A porta bateu ao fechá-la.

"Quer falar comigo?"

Myriel virou levemente, de modo a lançar um olhar sobre o ombro dela.

"Queria saber sua opinião."

"Sobre os candidatos?"

Myriel confirmou com um suspiro silencioso.

"Estou me afastando. Isso quer dizer que estou recuando."

Ela fez uma pausa.

"Mas você... ainda está aqui."

"Quer minha opinião?"

"Quero seu instinto."

Um momento de silêncio.

Então, Elyra sorriu—só um pouco.

"Já sei quem vou apoiar."

Myriel virou-se para encará-la de frente, uma sobrancelha levemente levantada.

"Sério?"

"Sim."

"E aí?"

Elyra encarou o olhar dela sem piscar.

"É um segredo."

Myriel deu uma risada suave pelo nariz.

"Claro que é; a especialidade da Elyra, né?"

Elyra se afastou da mesa, caminhando lentamente enquanto falava.

"Você sabe que títulos de fora nunca fizeram diferença aqui na academia. Foi por isso que te apoiei meio ano atrás, quando cheguei."

Ela olhou para trás, sobre o ombro.

"O que importa aqui é o que você faz, não de onde você vem."

"Então, você vai apoiar quem proteger o que a academia representa."

"Mais ou menos isso."

"Você acha que os outros também vão apoiar essa pessoa?"

"Eles te apoiaram por dois anos. Por que não fazer de novo—with alguém diferente?"

Elyra esboçou um sorriso de canto.

"Eles sempre apoiam. No final das contas."

Os corredores do Ala Oeste estavam quase vazios.

As aulas ainda não haviam começado, mas os estudantes já se dispersaram, formando grupos e trocando vozes pelo caminho. Noel e Roberto caminhavam em ritmo tranquilo até os dormitórios, sem pressa.

Roberto quebrou o silêncio primeiro.

"Não gosto do Dior."

Noel olhou de lado.

"Sério?"

"Sério. Parece que ele quer mudar como a academia funciona. E não de um jeito bom."

Noel concordou com a cabeça, sem hesitar.

"Concordo. Não suporto ele. A gente sabe que, se o Dior ganhar, quem não tiver riqueza ou sangue nobre vai acabar sendo expulso ou achando impossível ficar."

Roberto sorriu.

"Então acho que sei em quem você vai votar."

"Provavelmente na mesma pessoa que você," disse Noel. "Mas a gente precisa ficar de olho nele. Ver o que ele está planejando."

Roberto levantou uma sobrancelha.

"Você conhece o príncipe tão bem? Achei que essa fosse sua primeira vez vendo ele."

Noel soltou uma respiração lenta, com os lábios se curvando levemente.

"Se você soubesse... Não sou alguém que confio fácil, só isso."

"Então vou seguir minha intuição também. Não me parece certo."

Caminharam mais alguns passos em silêncio, até que Roberto olhou pra ele de relance.

"Quer planejar alguma coisa 'heroica' de novo?"

Noel fez uma expressão de viseira.

"O que é isso pra você?"

"Vamos lá. A gente sabe que foi você quem mais ajudou na ataque ao banquete."

Noel balançou a cabeça.

"Errado. Marcus foi quem realmente salvou a situação. Ele e a equipe dele, você sabe disso."

"É, sim, o que você disser... espectro."

Noel não riu—mas havia algo na sua respiração como se estivesse se segurando.

E, ao ver o prédio dos dormitórios ao longe, seus pensamentos vaguearam.

'Bom... já decidi que vou participar da história. Então, qualquer coisa que venha a acontecer—que venha.'

A noite no Hollow estava mais fria que o habitual.

Mais fria que de costume.

Noel pousou à beira do desfiladeiro, exatamente quando o vento mudou de direção, levando poeira fina pelo chão, como cinzas sussurrantes. O céu acima, sem estrelas, as falhas nas cliffs altas e irregulares pareciam dentes quebrados.

Ele encolheu os ombros.

Seu manto estava jogado sobre uma pedra lisa.

As botas afundavam na terra rachada, que já mostrava trilhas de passos repetidos—seus próprios passos.

Retirou a Lâmina Revenante das costas.

A lâmina vibrava—não um som, mas um peso, que se assentava na mão como uma memória.

E então, ela apareceu.

Dez metros à frente, próximo ao bordo da crista.

A sombra.

Como sempre.

Noel inclinou a cabeça.

"Lá está você de novo."

A sombra não se mexeu.

Noel moveu um pouco a lâmina na mão.

"Você nunca aparece quando alguém está por perto. Tá com vergonha, é?"

Silêncio.

Ele sorriu de canto.

"Pois é. Sem resposta. Já não sei o que esperava."

O vento uivou entre as rochas novamente.

Noel plantou os pés firmemente.

"Tudo bem. Vamos voltar ao trabalho."

A sombra se moveu.

E ele também.

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