O Extra é um Gênio!?

Capítulo 64

O Extra é um Gênio!?

A ala nobre da academia ia mais do que paredes e brasões. Era uma expectativa gravada — pisos de mármore polido, vitrais que exibiam sigilos das Cinco Grandes Casas, e lustres que nunca piscavam, independentemente do vento ou do fluxo de mana.

Dentro de um de seus salões maiores, uma dezena de cadeiras cercava uma mesa central adornada com frutas, queijos finos e garrafas de vinho mágico bem gelado.

E na cabeceira, de pé, com a confiança silenciosa, estava Dior do Valor.

Ele deixou o silêncio instalar-se antes de falar.

"Precisamos de uma mudança."

Alguns dos estudantes levantaram as sobrancelhas — curiosidade, não preocupação.

Dior sorriu suavemente.

"Não porque algo ruim esteja acontecendo. Mas porque o passado… mudou."

Ele deu um passo à frente, os olhos encontrando os de cada herdeiro na sala, um a um.

"Houve um tempo em que a academia representava algo maior. Era um santuário de prestígio, onde os mais fortes e nobres eram moldados para liderar."

Ele fez uma pausa — medido, deliberado.

"Mas, na última década, as coisas mudaram. O propósito foi diluído — distorcido, até corrompido."

Ninguém se mexeu.

"A academia foi fundada com base na Ordem, no legado e na força herdada — não na popularidade superficial ou em histórias de lágrima."

Alguns sorrisos suaves, alguns olhares de entendimento.

Dior continuou.

"Se quisermos que este lugar continue sendo aquilo que deveria ser — um farol de excelência — não podemos deixá-lo virar palco para experimentos de mal gosto ou reformas que só visam o bem-estar momentâneo."

Então, ele parou bem em frente à mesa.

"Como presidente, vou restaurar o que está escorregando. Reforçar o que ainda funciona. E garantir que o conselho permaneça como deve ser — composto por aqueles que nasceram para liderar."

A sala ficou silente.

Depois, começaram a assentar pensamentos.

Sussurros baixos.

Uma rodada de aplausos suaves e confiantes.

Ele tinha dito exatamente o que queriam ouvir.

E mais de alguns já haviam decidido: o cargo era dele.

A ala norte da academia se estendia larga, construída com pedra lisa, janelas altas arqueadas que brilhavam ao sol do fim da manhã. Era a parte mais movimentada do campus — estudantes de todas as origens cruzavam por ali entre aulas, treinamentos e refeições.

E Serafina do Valor atravessava diretamente pelo coração dela.

Só ela. E um assistente, que caminhava três passos atrás, silencioso e atento.

Enquanto Dior forjava alianças atrás de portas polidas e bandeiras bordadas, Serafina andava onde as vozes eram mais altas.

Ela parou ao lado de um grupo de estudo atulhado numa bancada — estudantes diversos: um meio-elfo, um anão, uma garota humana de pele escura com um livro de feitiços aberto e duas penas quebradas.

Serafina não ficava de butuca.

Ela se abaixou ao nível deles.

"Estão sem materiais?" ela perguntou suavemente.

A garota piscou.

"Falamos nisso semana passada, mas o escritório de suprimentos disse que não era prioridade."

Serafina assentiu.

"Agora é."

Ela se levantou de novo, sem esperar agradecimento.

Mais à frente, dois estudantes de espécies bestiais quase se afastaram quando a viram. Ela os deteve com um gesto silencioso.

"Ainda estão desiguais nos turnos de patrulha?"

Eles trocaram olhares.

Assentiram lentamente.

"Vamos resolver. A próxima rodada começa segunda-feira."

Um deles hesitou.

"Você vai mesmo concorrer a presidente?"

Serafina respondeu com um único aceno de cabeça.

"Vou."

"Por quê?"

Ela respondeu sem hesitar.

"Porque esta academia foi feita para ser o lugar onde todos ficam iguais. Onde o que importa é o que você faz — não de onde você vem."

Já se formava uma pequena multidão — nada barulhenta, nada formal.

Somente a presença.

"Ninguém deveria ter vantagem só por linhagem sanguínea. Aqui não. Deve continuar assim, mas melhor."

A sala de jantar privada do corredor leste brilhava com encantamentos que faziam os talheres de prata reluzirem sem nunca perder o brilho, e os linho permanecerem limpos, mesmo com vinho derramado.

O aroma era de coelho de mana assado, óleo de trufas defumadas e tortas de pera com canela — trazidas, literalmente, de uma propriedade nobre.

Na cabeceira da mesa, Dior do Valor estava com postura relaxada, voz calma, dedos relaxados ao redor de um copo de licor herbal transparente.

Ao redor, sentavam-se pelo menos vinte nobres, rindo e comendo.

Brasões das Casas brilhavam em seus ombros.

Cada um tinha um nome que importava.

"Os discursos da Serafina são encantadores," disse uma com uma risada suave, "mas charme não faz leis."

"Ou as financia," acrescentou outro.

Dior sorriu, sem interromper. Apenas ouvindo. Medindo.

Depois, falou.

"Mudar soa nobre… até você perceber que isso custa a estrutura."

A mesa concordou.

"A tradição nos mantém unidos," continuou. "Deixar a emoção ditar a política leva ao caos."

Do outro lado da sala, um jovem nobre acrescentou:

"Meu pai diz que não devemos deixar as 'linhas de fora' entrarem na discussão, já que não nasceram para isso."

Vários riram.

Dior não.

Ele apenas tomou um gole do copo.

Não disse nada.

Não corrigiu.

Não aprovou.

Simplesmente deixou o momento passar, como tantos outros.

Fora da sala, dois estudantes — comuns — passaram pelo vidro. Não ouviram as palavras, mas viram a mesa:

Brilhante.

Risonha.

Intocável.

A sala de aula era uma das maiores do ala leste — filas de carteiras largas dispostas em degraus ascendentes, paredes com canais rúnicos que pulsavam suavemente durante aulas de teoria de feitiços.

Hoje, o professor Daemar ensinava sobre sincronização de fluxo de mana em feitiços cooperativos.

Mas ninguém realmente escutava.

Pelo menos, não como de costume.

Noel estava na terceira fila de trás, com queixo na mão, olhos semicerrados — mas atento. Não ao professor.

Às pessoas.

Dior sentava-se próximo ao front, cercado por estudantes nobres. Todos bem arrumados, postura reta, olhos alertas quando Dior falava, entediados quando Daemar ensinava.

Cada vez que Dior fazia uma pergunta — ou respondia uma — os nobres ao redor dele concordavam, riam, reagiam.

Mais atrás, sentado duas filas atrás e um ponteiro à esquerda, Serafina anotava calmamente, sem quem a acompanhasse.

Mas as pessoas olhavam para ela.

Com frequência.

Noel percebeu.

O abismo já estava lá.

Os nobres se agrupavam perto de Dior.

Todo o resto — Heranças várias, estrangeiros, sobrenomes menos conhecidos — se aproximava de Serafina.

No centro de tudo, Marcus, sentado com Clara e Sélene, inclinava-se para o lado de Serafina. Laziel também. Garron, de braços cruzados, parecia desconfortável, mas ficava perto.

'Claro.'

'A protagonista perfeita com o senso de justiça perfeito, ao lado da candidata nobre — porém progressista.'

'Que cenário mais típico.'

A biblioteca nunca ficava totalmente silenciosa.

Não para alguém como Noel.

Não era o som de páginas virando ou o leve zumbido das lâmpadas de mana que o incomodava — eram as vozes. A mudança de opinião. A tensão que preenchia as lacunas entre conversa e silêncio.

Ele se sentava no canto esquerdo de trás, com um livro aberto à sua frente.

Não vira a página há vinte minutos.

Dois mesas adiante, um grupo de alunos do segundo ano cochilava furiosamente. Uma delas — uma elfa — repetia que Dior era a única opção "estável". Os demais pareciam inconvincentes.

No extremo, um grupo de bestas se compartilhava pão e estratégias: o que a presença de Serafina significava, como a mudança poderia se parecer.

Mais perto, alguém escrevia discretamente uma lista de lealdades às casas num pedaço de pergaminho. Noel o observava com o canto do olho.

Seus olhos voltaram ao livro na sua frente — um volume sobre ciclos de feedback elementais em lâminas encantadas.

Irrelevante.

Inútil.

'Ela precisa ganhar.'

Ele fechou o livro.

Devagar.

'Na linha do tempo original, Dior venceu.'

'E a partir daquele momento, tudo começou a desmoronar.'

'Corrupção no conselho. Expurgos no currículo. Divisões cada mês mais profundas.'

'Não aconteceu de uma hora para a outra. Mas começou aqui. Com aquela eleição.'

Ele se recostou na cadeira.

Com os dedos batendo na capa fechada do livro.

'Não posso deixar isso acontecer de novo.'

'Não me importo se preciso atuar nas sombras como da última vez, ou parecer o protagonista. Se for preciso, vou trapacear o sistema eu mesmo.'

'Serafina precisa vencer se eu quiser sobreviver.'

A torre parecia abandonada por fora.

Estava perto do limite da zona leste da academia, a zona com melhor vista da cidade.

Só uma fechadura antiga — enferrujada, gasta, agarrada ao trinco como se tivesse algo valioso para proteger.

Claro que Noel ignorou.

Pegou sua espada, deu um golpe e quebrou a fechadura.

Agora, ele estava no telhado.

Escalou por uma janela estreita, com cuidado para não deslocar o vidro. As telhas de ardósia sob ele estavam frias, anguladas e firmes. De lá de cima, toda a academia se estendia em sombras e luz de lua prateada, e, um pouco mais distante, a cidade de Valon.

Ele se deitou, com os braços cruzados atrás da cabeça, o manto espalhado como um tapete.

Por um bom tempo, ficou parado.

Apenas respirando.

Apenas ouvindo.

O vento frio, o céu limpo — tranquilo e intocado.

Mas lá embaixo, tudo borbulhava de movimento.

Votos. Promessas. Mentiras. Tudo ecoando mais alto que o vento.

Daqui?

Silêncio.

Ele exalou.

"Bem," ele murmurou para si mesmo, fitando as estrelas, "o Ato II começou bem."

Ele levantou a mão, com os dedos estendidos em direção ao céu.

"Status."

Uma tela azul surgiu no ar, pairando silenciosamente sobre a palma da mão:

[Núcleo de Mana: Patente de Novato]

[Progresso Atual: 73,33%]

[Espada Equiparada: Presa do Revenant — Grau: Único (Despertado)]

[Anel Equipado: Sigilo de Cinzas — Grau: Não Despertado]

[Missão: Salvar o mundo.]

Noel soltou um suspiro quase de risada.

"Nada mal."

Olhou para a mão, depois para a lâmina ao seu lado.

"Presas do Revenant estão despertas."

"E ganhei esse anel bem bonito, Sigilo de Cinzas."

Virou a cabeça para o lado.

Olhos fechados.

O peso do dia aos poucos se esvaía de seus ombros.

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