O Extra é um Gênio!?

Capítulo 65

O Extra é um Gênio!?

A câmara do conselho não tinha mudado.

As mesmas paredes de pedra polidas por décadas de discussões silenciosas. As mesmas janelas altas filtrando uma luz tênue e suave. A mesma mesa longa de ébano, com inscrições nos sigilos dos Dez Assentos.

Mas as pessoas ao redor dela sim tinham mudado.

Myriel von Astralis sentada na cabeceira, de olhar afiado e silenciosa, sua presença agora mais cerimonial do que funcional. Ela tinha falado uma vez no começo da reunião — "Mantenham o respeito" — e não falou mais nada desde então.

Outros nove membros estavam distribuídos ao redor da mesa.

E o ar entre eles era pesado.

Um nobre falou primeiro.

"Dior representa a continuidade. Ele entende como as coisas funcionam — como sempre funcionaram."

Outro, de nobre linhagem, assentiu em concordância.

"Ele tem o respaldo da tradição. Isso deveria valer algo nesta sala."

No lado oposto da mesa, uma jovem maga das províncias externas franziu o rosto.

"E Seraphina representa todos os demais."

"Esta academia não é um tribunal real", alguém murmurou.

"Não", respondeu uma voz calma do extremo oposto. "Mas está começando a parecer com um."

Os olhares se voltaram para Elyra von Estermont.

Ela apenas saboreava seu chá, deixando o silêncio ficar mais denso.

Myriel não interferiu.

Ela apenas os observava — suas sucessoras — traçando suas linhas.

E ela sabia: Isso não seria decidido em uma única sala.

Ou por um único voto.

Mas a batalha tinha começado.

A câmara foi se esvaziando lentamente.

Cadeiras arrastadas uma a uma. Capas sibilando enquanto os nobres saíam em pares. Sussurros que ficavam mais longos do que as pessoas que os proferiam.

Elyra não se movia.

Permaneceu em seu lugar, com os dedos suavemente batendo na beirada da xícara vazia, seus olhos fixos no mapa de sigilos esculpido no centro da mesa.

Dez casas. Dez assentos.

E agora, dois futuros.

Ela não precisava anotar nada. Já tinha tudo na cabeça.

Três nobres firmemente ao lado de Dior. Dois indecisos fingindo neutralidade. Três aliados discretos inclinados para Seraphina — provavelmente irão seguir sua liderança. E então ela.

E Myriel, ainda observando do seu lugar na cabeça, como um fantasma que desaparece com dignidade.

Elyra, finalmente, levantou-se.

A voz de Myriel quebrou o silêncio antes mesmo dela chegar à porta.

"Você já decidiu, não é?"

Elyra se virou.

"Claro, te avisei ontem."

"Então por que ainda não declarou?"

"Porque o momento importa mais que a decisão."

Myriel lançou um sorriso leve.

"Você aprendeu isso aqui."

Elyra deu uma ligeira cabeça para cima.

"Por isso não vou deixar cair nas mãos erradas."

Ela saiu do cômodo.

E não voltou para seus aposentos.

Seguiu pelo corredor leste, em direção a uma câmara silenciosa, que ela conhecia bem.

Ela tinha mais uma peça para mover.

E sabia exatamente quem precisava.

A sala não tinha mudado.

A poeira ainda cobria as prateleiras superiores. A longa cortina de veludo ainda estava presa com um pedaço de fio de prata gasto. Uma das luminárias piscava de vez em quando, como se não pudesse decidir se queria ficar acesa ou apagar.

Elyra sentou-se onde sempre se sentava — na segunda cadeira à frente da janela, com as costas retas e os dedos entrelaçados no colo.

Noel entrou sem bater.

Seus passos não ecoaram. Ele cuidou de que fosse assim.

Encostou-se na moldura da porta, com os braços cruzados, deixando o silêncio se estender por um instante antes de falar.

"Ouvi dizer que você estava me procurando."

Elyra não olhou para cima.

"Eu sabia que você viria parar aqui."

Noel entrou, fechando a porta com um clique atrás de si.

"Não é difícil quando você só tem um esconderijo."

"Esconderijo implica vergonha", ela respondeu. "Aqui é só... distância estratégica."

Ele sorriu discretamente e foi até a janela, olhando para fora antes de se virar de volta para ela.

"Então. Qual é o favor?"

Finalmente, Elyra olhou para ele — olhos afiados, mas não frios.

"Preciso que você ajude a Seraphina a vencer."

Noel levantou uma sobrancelha.

"Só isso?"

"Só isso."

Ele inclinou a cabeça.

Depois deu de ombros.

"Faz seu favor."

"Eu já ia fazer isso de qualquer jeito."

Os olhos de Elyra não se arregalaram. Mas a pausa antes de ela responder já dizia o suficiente.

“…Assim que é?”

Noel sentou-se na borda da antiga mesa perto da parede.

"Ela precisa ganhar. Você sabe disso. Eu sei, todo mundo com mais de dois dedos de senso comum também sabe."

"Se Dior ficar com aquela cadeira, a coisa vai pro brejo, vai ser como se a gente voltasse no tempo."

Os lábios de Elyra exibiram um leve sorriso.

Não de divertimento.

De reconhecimento.

"Já esperei que você dissesse isso."

Mas ela não tinha terminado.

Nem perto disso.

Noel esticou as pernas um pouco, apoiando as mãos na borda da mesa atrás dele. Parecia relaxado — Elyra sabia melhor do que ninguém que era só uma fachada.

"Então é isso, né?" ele perguntou. "Favor liberado?"

Elyra inclinou a cabeça.

"Não."

Noel estreitou um pouco os olhos.

"Não fui eu que acabei de concordar com sua causa?"

"Foi."

Ela se levantou, alisando o uniforme com os dedos distraídos.

Depois olhou nos olhos dele.

"Então, preciso usar o favor em outra coisa."

Noel exalou lentamente pelo nariz.

"Tudo bem, acho que não é justo, mas vá lá."

Ela não sorriu, mas tinha algo por trás dos olhos — um brilho, uma conta feita sob controle, escondida na compostura.

"Quero um encontro."

O silêncio tomou conta do cômodo.

Noel piscou uma vez.

"…Como é? Acho que não te ouvi direito?"

"Um encontro", repetiu. "Com você."

Ele a encarou, esperando a piada final.

Quando ela não veio, ele se inclinou um pouco para frente.

"E qual o motivo dessa loucura?"

Elyra virou-se para a janela.

Não olhou para ele ao responder.

"Preciso confirmar uma coisa."

E isso foi tudo.

Sem mais explicações.

Sem justificativas.

Só isso.

Noel ficou olhando para a nuca dela por um momento mais prolongado.

Depois olhou para o teto.

"Filho da mãe."

Elyra não se mexeu.

"Quer dizer que é um sim?"

"Tenho escolha?"

"Não."

O ar no cômodo voltou a ficar mais quieto.

Noel se recostou na mesa, com os braços cruzados, assistindo Elyra com um misto de diversão e resignação.

Ela, por sua vez, permaneceu de pé, perto da janela, com uma mão na moldura e a outra pendurada ao lado do corpo.

"Você sempre dá um jeito de torcer as coisas", ele murmurou. "Nem parece surpreso quando eu aceito ajudar."

"Porque eu te conheço", ela disse sem se virar.

"E sei que você não ficaria ao lado e permitiria que Dior ganhasse."

Noel soltou uma risada breve.

"Já escutei essa história antes — e já sei como ela acaba."

Elyra olhou de volta para ele.

"Então entende o que está em jogo."

Ele assentiu.

"O conselho muda tudo. Orçamento, políticas e influência pública."

"Se Dior assumir, a coisa volta a ser dos nobres primeiro. Os estudantes estrangeiros, os beastkin — eles serão os primeiros a pagar o pato. Depois, os demais vão seguir."

Elyra saiu da frente da janela, sua voz firme, mas mais pesada.

"Seraphina é a única que consegue manter o equilíbrio. Quem sabe até mudar isso pra sempre."

Noel não contestou.

Não falou nada.

Só ficou por um momento observando o chão, pensativo.

E então perguntou:

"Você já fez alguma coisa sem uma segunda camada de significado?"

"Nunca desde os dez anos."

"Isso explica muita coisa."

Ela se acomodou no mesmo lugar onde ele costumava descansar no colo dela.

"Você acha que a Seraphina consegue realmente tirar isso do papel?"

"Com as peças certas?" Elyra respondeu. "Sim."

Noel balançou a cabeça lentamente.

"Certo. Um passo de cada vez, então."

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