O Extra é um Gênio!?

Capítulo 62

O Extra é um Gênio!?

A sala estava silenciosa, mas não vazia.

Grandes janelas permitiam a entrada de uma suave luz matinal, projetando sombras longas pelos pisos de madeira escura polida. Cortinas de tom vermelho-carmesim estavam parcialmente fechadas, deixando o ambiente aquecido por um brilho acolhedor. O aroma de tinta, pergaminho e rosas de inverno em botão preenchia o espaço—uma mistura delicada de diplomacia e disciplina.

Seraphina do Valor permanecia no centro—sem trono atrás de si, sem guardas ao seu lado, sem necessidade de encenação.

Apenas ela, uma mesa longa e uma dúzia de documentos cuidadosamente organizados.

Registros de desempenho dos estudantes.

Atribuições do corpo docente.

Agenda de eventos.

Gráficos sociais.

Uma cópia dobrada do estatuto da academia repousava em um canto, selada com fio dourado.

Ela analisava o material em silêncio, dedos alongados repousando levemente na margem de uma pasta marcada com os nomes dos calouros com melhor desempenho.

Sua expressão era neutra.

Seu pensamento, não.

"Eles apoiam Dior porque ele é filho. Um menino. Mas eu serei quem eles seguirão, porque darei algo em que acreditar. Não somente tradição, mas Direção."

Ela virou-se para a janela, olhando para o pátio leste onde estudantes começavam a se reunir para o dia.

Seu reflexo mal era visível no vidro.

Nem era importante.

Ela não estava ali para admirar-se, como fazem as pessoas ao verem seu reflexo.

Estava ali para vencer.

"Preciso do favor das próximas gerações," ela murmurou em voz alta, calma, deliberada.

"Por isso, preciso me tornar presidente do conselho."

Seraphina andava sem guardas, mas ninguém ousava bloquear seu caminho.

Dois atendentes a seguiam a uma distância respeitosa, carregando uma maleta de couro com seus documentos pessoais e uma prancheta com anotações do Escritório de Ligações Imperiais. Nenhum falou. Sabiam que era melhor assim.

Ela atravessou lentamente o pátio externo, deixando que seus passos ditassem o ritmo da academia ao seu redor.

Olhos a observavam por onde quer que fosse.

Não apenas por causa do título ou de sua presença—embora esses fatores ajudassem.

Mas porque ela observava tudo.

Cada grupo de estudantes.

Cada hierarquia em movimento.

Marcus e Clara, rindo com um par de estudantes do segundo ano.

Laziel e Garron trocando notas sob uma árvore.

Selene treinando à distância, atraindo uma pequena multidão.

Dior, de pé nos degraus do ala leste, cercado por nobres. Seu sorriso era polido, postura casual. Mas seus olhos vasculhavam por fraquezas como um predador tentando não parecer faminto.

'Você é uma cobra, meu querido irmãozinho,' ela pensou. 'Vamos ver quanto tempo consegue manter essa máscara.'

Então—

Impacto.

Alguém veio correndo na curva, com botas arrastando no pedra. O corpo atingiu seu ombro com força. Seraphina nem se mexeu.

O rapaz cambaleou, apoiando-se na parede, a respiração ofegante.

Ela virou-se.

Olhos travados.

Suor grudava às feições agudas, a tensão se enroscava sob a pele, e por trás daqueles olhos compostos queimava uma energia selvagem e indomada.

Noel Thorne.

Seu costas endireitou-se instantaneamente.

"…Você devia cuidado onde pisa." disse Seraphina.

Sua voz era seca, direta.

Sem pânico.

Sem admiração.

Apenas palavras.

"Pois é. Desculpe."

Ele não esperou.

Não explicou.

Não perguntou.

Ele passou por ela com urgência controlada, a capa tocando-lhe o lado ao passar.

"Não posso me atrasar."

E então ele desapareceu.

Ela ficou imóvel, o olhar fixo no espaço que ele ocupava segundos antes.

Seu ajudante se mexeu ao seu lado.

"Deveríamos—"

"Não."

Ela virou-se, avançando novamente, mas seus pensamentos permaneciam fixos.

No jeito como ele se moveu.

No modo como não desviou o olhar.

'Então é assim que você é.'

Ela continuou caminhando.

Porém, um nome surgiu silenciosamente na sua mente.

Noel Thorne.

A câmara privada usada pelo conselho estudantil não era opulenta, mas era precisa.

Estantes de livros preenchiam a parede de trás, não com grimórios de magia, mas com registros, agendas e volumes espessos de política da academia. Lanternas de mana flutuavam acima da longa mesa de carvalho no centro, emitindo uma luz suave, âmbar. Tudo exalava um leve aroma de tinta, óleo de limão e papel.

Elyra estava sentada na mesa, com uma perna cruzada sobre a outra, lendo um relatório com seu foco silencioso habitual. Seu uniforme estava impecável—preto, com detalhes em prata, com o emblema vermelho do conselho bordado no ombro.

Seraphina entrou sem bater.

Elyra continuou a leitura, sem olhar para cima.

"Você chegou cedo," ela disse calmamente.

"Você está sempre aqui," respondeu Seraphina.

Ela fechou a porta atrás de si, deixou seus acompanhantes aguardando lá fora, e se aproximou da mesa com passos suaves e ponderados.

Havia apenas uma outra cadeira.

Senteu-se.

O silêncio permaneceu por alguns segundos.

Então, Seraphina quebrou o silêncio.

"Vou concorrer à presidência—porque preciso ser a escolhida."

Elyra olhou para cima, piscando uma vez.

"Não é surpresa, já imaginei isso."

"Ele também vai," acrescentou Seraphina.

Elyra não perguntou quem era "ele".

Ela sabia.

Dior, o Príncipe Imperial do Valor.

Seraphina se inclinou um pouco para frente, entrelaçando as mãos sobre a mesa.

"Preciso de aliados cujo o conselho escute. Vozes importantes. Pessoas que me ajudem a mudar as coisas."

"Então você está na sala certa."

Seraphina quase sorriu com isso.

Quase.

Ótimo. Ela ainda é afiada, como sempre.

Ela vasculhou as pilhas de papéis na frente de Elyra.

Depois, de forma casual:

"Me fale sobre Noel Thorne."

A sala se alterou.

Não fisicamente.

Mas a energia mudou—sutil, mas imediata.

Os dedos de Elyra pararam de se mover. Sua expressão, não.

Porém, ela piscou uma vez, lentamente.

"Isso… é bastante específico."

A voz de Seraphina não mudou.

"Ele não participou da cerimônia de homenagem quando entreguei as medalhas, então tenho certa curiosidade sobre ele."

Elyra recostou-se na cadeira.

Calma ainda.

Porém, a pausa antes de responder já dizia muito.

"Ele foi bastante ferido."

Seraphina inclinou a cabeça.

"Durante o banquete da academia?"

"Sim." Uma pausa. Depois: "Salvou muita gente, mas não levou os créditos que merecia."

Seraphina recostou-se na cadeira, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça, olhando para o teto.

"Ah, isso não foi mencionado em nenhum dos relatórios. É útil saber—obrigada por me contar e por passar um tempo perto dele."

Elyra lhe lançou um olhar.

"Você tem observado mim?"

"Talvez, ainda sou nova aqui, mas gosto de observar."

"Bem, ele não gosta de atrair atenção."

"É raro por aqui?"

"Você me diz, garota. Acho que você já viu como as coisas funcionam por aqui. As pessoas pulam na menor oportunidade de se destacar—não hesitam por um segundo."

Seraphina sorriu.

"Justo."

Elyra continuou, com tom pensativo, porém descontraído.

"Ele parece uma pessoa fria, mas na verdade é calculista e gentil—embora pareça durão e frio. Não gosta de perder tempo, e também parece se puxar demais."

Seraphina inclinou a cabeça.

"Isso parece útil."

"É—mas não faça parecer que ele é apenas uma ferramenta."

Uma pausa.

Seraphina o olhou de lado, um leve sorriso nos lábios.

"Ah? Não sabia que você agora gosta de meninos. Essa é sua opinião profissional?"

Elyra lhe lançou um olhar sério.

"Não comece."

"Só estou dizendo. Geralmente você não é tão generosa ao descrever pessoas, homens especificamente."

"Porque a maioria não vale o esforço."

"E ele vale?"

Elyra não respondeu imediatamente.

Bebericou seu chá, estreitando um pouco os olhos.

"…Ainda não decidi."

Seraphina sorriu de novo, mas não insistiu mais.

Já tinha sido suficiente—pelo menos por enquanto.

A tensão havia passado. Agora, estavam confortáveis—duas jovens mulheres nascidas do poder.

Elyra colocou a xícara no prato.

Seraphina deu uma batida leve com a unha na mesa.

"Vou precisar da sua ajuda."

Elyra ergueu uma sobrancelha.

"Finalmente decidiu falar."

Seraphina se recostou um pouco, olhos sobre Elyra, além da borda da xícara de chá.

"Você me conhece bem o suficiente—não gosto de pedir nada às pessoas."

Elyra deu uma risada suave.

"Sei bem. Quinze anos de te observar fingindo paciência em todas as ceias de família dizem o bastante."

Seraphina sorriu.

"Justo."

Elyra colocou a xícara na mesa, com tom calmo, mas firme.

"Mas também sabe que nada é de graça para os Estermont."

"Claro. Não esperaria diferente, minha amiga."

Seraphina se endireitou, seu tom mudando para algo mais quieto—mas mais pesado.

"Se eu me tornar a próxima rainha, os Estermont terão direitos exclusivos de fornecer recursos à família real."

Elyra piscou uma vez. Depois, ergueu uma sobrancelha.

"Isso… é generoso. Até para você, Seraph."

Seraphina sorriu de lado.

"É inteligente. Ter a família mais forte de Valor ao meu lado é uma tradição. Não vejo motivo para quebrá-la."

Elyra inclinou a cabeça.

"Então… suponho que quer que eu apoie sua candidatura a presidente do conselho estudantil?"

"Entre outras coisas."

Elyra tomou um gole do chá.

"Deveria fazer você implorar um pouco."

"Você não vai."

"Não," Elyra disse com uma risada baixa. "Não se preocupe, foi uma piada."

O ambiente voltou a ficar tranquilo, de forma natural.

Embora o acordo, embora ainda não declarado explicitamente, já estivesse feito.

Os dormitórios da Classe S eram silenciosos à noite.

O silêncio ali não era apenas preferido—it was expected. Guardas patrulhavam sem fazer som. Lanternas de mana diminuíam a intensidade para um brilho suave. Cada centímetro de mármore e veludo sussurrava a presença de poder contido, não exibido.

Dentro do seu quarto, Seraphina estava sentada na escrivaninha.

Cortinas fechadas. A luz de vela tremeluzia sobre um diário grosso, de capa de couro, aberto pela metade. Sua caligrafia era aguda, uniforme, elegante, sem um único toque decorativo.

Uma página tinha um cabeçalho único, centrado no topo com tinta preta fina:

Aliados Potenciais – Fase I

Abaixo, uma lista:

Marcus: forte, visível, respeitado pelos colegas.

Clara de Nivaria—competente, composta, útil sob pressão.

Selene von Iskandar: Gênio do Norte.

Elena von Lestaria—alto prestígio, popular, ideal como rosto público, se necessário.

Sua caneta pairou por um momento.

Depois, logo abaixo do último nome, ela escreveu:

Noel Thorne— imprevisível, perigoso, não busca influência. Observar de perto. Interesse amoroso potencial da minha melhor amiga???

Ela fez uma pausa.

Bateu uma vez na ponta da caneta contra o canto da página.

"Você é uma curiosa."

Seraphina fechou o livro lentamente, passando a mão uma vez sobre a capa.

Amanhã, as coisas começariam a mudar.

E ela estaria pronta.

Comentários