O Extra é um Gênio!?

Capítulo 52

O Extra é um Gênio!?

Noel estava sentado com as pernas cruzadas no chão do dormitório, sem camisa, o frio da pedra penetrando na sua pele. Uma única janela permitia a entrada da luz pálida do amanhecer, lançando longas sombras sobre a cama, a escrivaninha e a espada encostada silenciosamente na parede.

Ele não estava meditando.

Estava encarando a janela do sistema flutuando diante dele.

[Progresso do Núcleo]

Núcleo Atual: Novato

Crescimento Total Acumulado: 47,32%

Ele inclinou levemente a cabeça, os lábios formando um sorriso seco e amargo.

"Então… quatro meses de aulas, treinos, modelagem de mana e fingir que se importa: trinta e dois por cento."

Pausa.

"Depois, um mês de apunhalar coisas na floresta como um louco... e boom, quinze por cento."

Ele soltou um suspiro curto. Não exatamente uma risada, mas perto disso.

"Não é à toa que os velhos nobres adoram guerra. O crescimento parece muito melhor quando alguém mais está morrendo por ele."

Ele fechou a janela com um movimento de dedo, deixando os números desaparecerem da vista, mas não da sua mente.

Ao se levantar, estalou o pescoço e rolou os ombros, a dor muscular lembrando que progresso ainda tinha um preço.

Ele olhou para a Lâmina do Espectro repousando no canto, o metal opaco sob a luz da manhã.

"Quarenta e sete por cento," murmurou. "E ainda quase no último degrau da escada."

Seus olhos se estreitaram.

"Droga, preciso de mais dessas caçadas, é muito mais eficiente."

A espada permaneceu silenciosa.

Mas algo no seu âmago—ela escutava.

Ele podia senti-lo.

Noel estava sozinho em uma mesa nos fundos da biblioteca, uma pilha de bestiários empoeirados e mapas topográficos espalhados à sua frente. A maioria dos estudantes ainda estava começando o semestre—fazendo barulho, conversando sobre eletivas, trocando horários.

Ele não tinha interesse em eletivas.

Folheou uma página com dedos precisos, examinando o cadastro de habitats de criaturas mágicas na região ao redor. Seus olhos varriam linhas de marcações de terreno, zonas de perigo e perímetros de contenção.

"O lugar é muito monitorado... os monstros muito fracos… ou já foram exterminados…"

Murmurou baixinho enquanto descartava cada zona, o lápis batendo na margem do mapa com cada vez mais impaciência.

Até que encontrou.

Uma faixa estreita na parte inferior da floresta, marcada com tinta desbotada: Vazio de Varn — oficialmente marcado como instável, mas não fechado. A descrição era vaga: um ravina caído, alta atividade de mana, possível presença de criatura de Rank-Rara. Sem posto de guarda oficial. Sem rotas de patrulha ativas.

E, mais importante: sem oubs de rastreamento ou supressão no local.

Ele se recostou levemente e cruzou os braços.

"Vazio de Varn… parece um bom lugar para ser devorado."

Ele sorriu de lado.

"Perfeito."

Escreveu a localização numa página dobrada e a colocou no bolso. Depois fechou os livros, empilhou-os cuidadosamente e se levantou.

Noel passou por alguns estudantes concentrados em diagramas de magias, que sequer o notaram. Um deles cochichou algo sobre teoria do núcleo. Outro sobre simulações de batalha.

Ele não diminuiu a velocidade.

'Vocês podem continuar simulando. Eu já cansei de esperar.'

Enquanto caminhava pelo corredor externo do prédio principal, ouviu passos apressados atrás de si.

"Ei! Não finge que não me ouviu, seu maldito."

Ele virou metade do corpo, justo a tempo de ver Roberto correndo ao seu lado com aquele sorriso habitual no rosto.

"Eu não estava fingindo," disse Noel com frieza. "Estava simplesmente te ignorando."

Ai. E eu achando que ausência faz o coração crescer."

"Não quando quem volta é você."

Roberto riu, despreocupado, e entrou no ritmo ao lado dele. "Então… como está o gênio? Já recuperou totalmente? Ou ainda acorda suando frio de tanto abraço de monstrinho?"

Noel não respondeu de imediato. Olhou pelo corredor à frente—estudantes conversando, professores se movendo entre escritórios, ninguém prestando muita atenção neles.

"Parece que os rumores se espalham rápido, mesmo longe da academia." Suspirou. "Pois bem," falou finalmente. "Estou apenas voltando à rotina."

Roberto deu uma risadinha. "Rotina? Meu amigo, mudou tudo aqui enquanto você tava fora. Já viu o novo módulo de professores? E estão remanejando os dormitórios de novo—um novo sistema de quartos pra estudantes de maior classificação."

Noel deu um aceno indiferente, mais para mantê-lo falando.

"E tem mais: agora estão monitorando os movimentos dos estudantes. Tipo controle na entrada se você tentar sair do perímetro interno."

Sua expressão permaneceu inalterada, mas por dentro, seus pensamentos pararam.

'Cês estão de brincadeira, né? Tava planejando caçar uns monstros, e agora eles vêm com esse controle? Deve ser piada de mau gosto.'

O problema não era encontrar monstros para caçar.

O problema era sair da academia sem ser visto—ou, pior, sendo registrado.

Ele não podia passar pelo portão principal, e entrar sorrateiramente pelos muros agora exigiria mais do que uma capa e um passo silencioso.

'Ótimo. Não posso nem começar a caçar alguns monstros sem quebrar as regras.'

Roberto olhou para ele. "Vai ficar bem?"

"Sim," disse Noel. "Só estou pensando."

"Você parece que vai explodir alguma coisa."

"Só se me obrigarem a assistir outra aula de teoria da mana."

Roberto riu. "Beleza. Me avise com antecedência. Eu trago uns lanches."

Não respondeu, mas um sorriso sutil cruzou seu rosto—por um segundo.

Depois, desapareceu.

Nessa noite, enquanto a maioria dos estudantes revisava o conteúdo das aulas ou trocava bilhetes nos ambientes de estudo, Noel estava debruçado sobre um grande mapa de pergaminho da região do distrito central de Valon.

Conseguiu uma cópia com um estudante de Classe C, em troca de duas moedas de prata e uma ameaça vaga de "incineração acidental".

Sua porta do dormitório estava trancada. As cortinas fechadas. Velas tremulavam suavemente enquanto ele traçava o caminho com um pedaço de carvão.

Primeiro problema: as muralhas da academia.

Desde o incidente do Banquete, os protocolos de barreira tinham sido reforçados. A vigilância por orbs girava a cada quinze minutos, mas ainda havia zonas mortas—normalmente durante resets mágicos ou troca de rotas dos orbs entre segmentos.

Ele marcou três pontos possíveis de brecha.

Segundo problema: as muralhas da cidade de Valon.

Esse era o verdadeiro desafio.

Haviam postos de controle em todas as entradas oficiais. Artefatos de invisibilidade não seriam suficientes—agora, as runas de identificação estavam integradas às defesas de saída.

Por isso, virou-se para os subterrâneos.

Roteiros do sistema de esgotos. Túneis de entrega. Corredores de utilidades usados por funcionários da academia e fornecedores de comércio. Os registros não eram completos, mas os pedaços que coletara nas últimas semanas ajudaram a montar um quadro geral.

'Muitos olhos vigiando lá de cima—professores, comandantes, e provavelmente alguns feitiços de detecção também. Andar por ali é pedir para ser pego. Então… vou pelo subterrâneo. Menos atenção, menos perguntas.'

Ele precisaria se mover durante a noite, provavelmente duas vezes—uma para testar o percurso, outra para fazer a fuga completa.

Depois veio o terceiro problema: o tempo.

Ele não podia ficar fora por mais de 48 horas sem levantar suspeitas. Mais do que isso, alguém começaria a questionar.

Seu plano tinha que ser eficiente.

Quebrar a barreira da academia.

Navegar por baixo de Valon.

Alcançar o perímetro externo.

Entrar na floresta pelo leste.

Caçar para fortalecer, sobreviver para ver outro dia e continuar avançando—pois, neste mundo, ficar parado era apenas outra forma de morrer.

Voltar sem ser notado.

Uma linha reta levaria um dia.

Ele previa três.

Marcava o destino final: Vazio de Varn, uma pequena cicatriz na ponta do mapa. Território sem dono.

'Lá está.'

Ele se recostou, os olhos fixos nas linhas de carvão que havia desenhado.

"Só para ficar mais forte," murmurou.

Um sorriso—agudo, cansado, verdadeiro—se abriu no rosto dele.

"…Sim. Faz sentido."

A academia estava quieta à noite.

Não silenciosa—nada nunca é realmente, mas o tipo de silêncio que permite ouvir a própria respiração enquanto Noel agachado no terraço do terceiro andar do prédio da biblioteca, envolto na sombra e na tensão.

Ele esperou.

Depois esperou mais um pouco.

O orbe de vigilância flutuou pelo quadrante oeste, seguindo seu percurso curvo habitual antes de piscar por breves segundos durante o reset do ciclo de mana.

'Dezoito segundos de cegueira. Essa é a minha janela.'

Ele se moveu.

Subir na parede externa da biblioteca não tinha sido difícil. Nem desativar o sensor de pressão na última corcova. O difícil era calcular o pulo—daquele telhado até a inclinação logo abaixo da parede de perímetro da academia.

Não tinha força suficiente para saltar sem auxílio.

Mas alterar a peso com mana e canalizar força pelas pernas com controle?

Isso, ele conseguia fazer.

"Quem diabos esperaria alguém sair pulando por cima," murmurou, ajustando as luvas.

Noel correu três passos e pulou.

A aterrissagem foi limpa.

Deslizou pela inclinação curva de pedra, agarra forte na beirada externa e puxou-se para cima. Agora ele estava ajoelhado na parede do perímetro externo, logo abaixo de um brasão decorativo que projetava uma longa sombra à noite.

Daquele ponto, podia ver tudo.

As torres centrais. O brilho das luzes de mana. Até os dormitórios superiores onde dormiam estudantes de Classe A, inconscientes de que um deles já estava quase cometendo uma infração passível de expulsão.

Ele caiu silenciosamente na grama fora da parede e se moveu para dentro da linha de árvores.

Fase um: concluída.

As árvores o envolveram rapidamente.

Noel avançou sem hesitar, cortando mato e pedra até chegar à borda do distrito de serviço externo—uma zona abandonada de edifícios rachados e pilares de proteção esquecidos, logo além do alcance da academia.

Ele se escondeu atrás de uma parede em ruínas e desenterrara a grelha enferrujada sob ela, semioculta por terra e raízes. A entrada dos túneis.

Ele não a abriu imediatamente.

Em vez disso, sentou-se, pegou o quadro-negro da jaqueta e começou a desenhar os caminhos que estudara nos últimos dias. Distâncias. Curvas. Estimativas de tempo.

Depois de dez minutos, levantou-se e entrou na grelha.

Não iria escapar hoje.

Hoje, ele estava memorizando.

O túnel se abria ao redor dele, escuro, úmido e silencioso. Movia-se devagar, mas com confiança, seguindo a rota exata que planejara: pelos canais de drenagem do setor industrial, passando pelos junções colapsados e pelas antigas grades de segurança enterradas sob o bairro nobre de segundo nível.

Cada trecho, cada curva, ele contava os passos.

Parava às vezes para colocar etiquetas de mana leves em pontos-chave—o suficiente para ajudar a refazer o trajeto se algo desse errado.

Depois de duas horas, saiu silenciosamente pelo outro lado, subiu por um shaft de manutenção semi-enterrado e registrou a entrada escondida atrás de um antigo armazém.

Marcou no mapa. Depois voltou atrás.

Quando voltou ao muro de perímetro da academia, o céu já estava negro como breu.

Subiu silenciosamente, saltou a mesma seção de telhado de antes e aterrissou dentro do recinto escolar sem fazer barulho.

Dez minutos depois, estava de volta no quarto, sem camisa novamente, encharcado de suor, olhando para o teto.

'Amanhã à noite.'

Ele fechou os olhos.

O verdadeiro treino começaria em breve.

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