
Capítulo 53
O Extra é um Gênio!?
A sala de aula estava quente.
Noel estava sentado perto da última fila, com a cabeça apoiada na mão, olhos semicerrados enquanto o Professor Lereus falava vagamente sobre estruturas de mana defensivas em períodos de atraso após a conjuração. A voz do homem era firme, clara… e desesperadamente monótona.
A luz de vela da parede lateral tremeluzia o suficiente para tornar as palavras na lousa um pouco borradas. Era o bastante.
Noel piscou lentamente uma vez… depois outra… e, de repente, seu cabeça caiu para frente.
Impacto.
Uma fagulha de mana explodiu na borda de sua mesa.
Ele impulsivamente se assustou — justo a tempo de ver um pedaço de giz se dissipando em cinzas perto de sua mão. Alguns estudantes olharam na direção dele. Um ou dois sorriram discretamente.
O Professor Lereus não parou de falar, mas levantou uma sobrancelha em direção a Noel enquanto fazia um gesto preguiçoso com a mão.
"Tente não morrer de tédio, senhor Thorne."
Noel endireitou as costas, fingindo estar alerta.
"Sim, senhor."
Sua voz era calma. Neutra.
Por dentro, no entanto, ele gritava.
'Entregar-se ao sono… que beleza. Vai tudo bem.'
Ele riscou uma linha sem significado em suas anotações só para parecer ocupado, e depois voltou a fingir que se interessava por técnicas de proteção.
Hoje à noite, ele estaria desviando de garras e rasgando carne.
Mas, por ora, estava preso sob giz e luz de vela.
Mais tarde, a aula virou uma lição prática — Tramas de Feitiços Avançadas, antes conduzida pelo falecido Caldus.
Agora, cabia ao Professor Lereus.
Ele parecia demais, impecável. Cabelo arrumado. Movimentos precisos. Vestes perfeitamente passadas, sem brasão algum. Seus olhos — azul gelo, estranhamente errados — pareciam mais cristais de vigilância do que olhos humanos.
Noel percebeu a presença do homem assim que ele entrou.
'Eles estão procurando substitutos rápidos.'
Ele caminhava como se nada estivesse errado. Rosto vazio. Por dentro, sua mente já escaneava possibilidades.
Os estudantes receberam manequins individuais para praticar construções de mana aprimoradas. Era trabalho de rotina enfeitado como refinamento.
Roberto apareceu ao lado dele, ajustando a braçadeira no pulso.
"Você está bem, cara? Parece um lixo."
Noel não olhou para ele.
"Obrigado. Cuido da pele."
"Sério mesmo," murmurou Roberto, em voz baixa. "Você está pior do que quando foi envenenado na Aula de Condicionamento Físico."
"Isso foi diferente. Pelo menos naquela época eu não tinha que ouvir teoria de mana morrendo de barriga cheia."
Roberto deu uma risada. "Se tu morrer aqui, não vou arrastar teu corpo pra lugar nenhum."
"Você ia deixá-lo na metade do corredor e fingir que nunca me viu."
"Claro que sim."
Noel estendeu a braçadeira e lançou uma linha simples de mana em direção ao manequim.
Ele desabou no meio do caminho. Mana torceu, desalinhou e piscou em luz inútil.
'Legal. Nem mesmo consigo manter um canal básico agora.'
Do outro lado do salão, Lereus virou um pouco o rosto, observando com uma expressão indecifrável.
Roberto se inclinou. "Ei… sério. Você está bem?"
"Estou ótimo," respondeu Noel. "Só vivendo de ressentimento, café e três horas de decepção. Aquilo é o sonho."
Roberto piscou. "Foi poético."
"Tento o meu melhor."
A aula terminou vinte minutos depois, com a maioria dos estudantes limpando seus condutores e esticando as mãos doloridas.
O Professor Lereus ficou perto do centro da sala, oferecendo comentários ocasionais enquanto os estudantes se aproximavam para perguntar ou receber feedback. Seu tom era uniforme, suas palavras claras — refinadas, profissionais.
Porém, Noel percebeu algo.
Lereus sorria um pouco mais quando se dirigia a Marcus.
Quando era Elena.
Quando era Clara.
Até Garron, após detonar seu manequim com força bruta, recebia um aceno e uma piada seca.
Noel? Nada. Nem mesmo um olhar.
Ele sentou-se na bancada perto do canto, ajustou a braçadeira no pulso e os observava com olhos semicerrados.
'Certo. Jogar bem com os brilhantes.'
Ele não se sentia deixado de lado.
Preferia assim.
Noel trancou a porta atrás de si e foi direto para o canto onde guardava seu equipamento.
Não precisava de muito.
Só o suficiente para matar algo e voltar antes do amanhecer.
Deitou o essencial na cama — uma pequena sacola, um manto enrolado, uma faca de campo, um par de luvas curtas de bloqueio de mana, dois remédios menores.
Sem comida. Sem equipamentos de abrigo.
Ele não ia ficar fora por muito tempo.
'Entrar e sair. Rápido.'
Checou as tiras das botas, reforçou as almofadas sob o casaco e colocou o mapa dobrado no bolso interno. Sabia cada caminho de cor.
Não podia se dar ao luxo de perder a aula.
Agora não.
Quando os olhos voltassem a se fixar nele novamente, alguém perceberia.
Se parecesse muito limpo, alguém perguntaria.
Se parecesse machucado demais, alguém conversaria.
Ele estendeu a mão em direção à Presa do Espectro, o punho frio sob sua palma, e deu uma volta lenta nela antes de deslizando-a pelas costas.
Viu as horas na parede.
Faltavam quatro horas até o amanhecer.
'10 matar. Talvez 20.'
'Depois, volto antes que alguém perceba que eu perdi.'
Colocou a capa e saiu pela janela silenciosamente.
O pátio da academia estava silencioso, envolto em um silêncio suave, polido — aquele tipo de silêncio que transmite segurança.
Noel se moveu como uma sombra pelos canteiros do jardim, atravessou o pátio vazio e subiu na parede externa da biblioteca.
Escalou com eficiência, as mãos encontrando as fissuras na pedra como se já tivesse feito isso meia dúzia de vezes.
Não parou para admirar a vista.
Saltou o último trecho do telhado, cruzou de gatas na encosta e chegou ao topo da parede em segundos.
Acima: apenas estrelas.
Abaixo: cidade aberta, coberta por névoa e luz de lampião.
Ele pulou.
Amortizou a aterrissagem perfeitamente.
Depois desapareceu na floresta atrás do perímetro da academia como se fosse uma extensão dela.
Sem alarmes.
Sem passos.
Apenas a sensação de calor se dissipando na pedra fria.
Os túneis sob Valon já não pareciam mais um labirinto.
Noel os atravessou com a precisão tranquila de quem já memorizou o trajeto umas cem vezes. Passou por junções, virou cada esquina, se abaixou sob vigas colapsadas e deslizou por baixo de uma grade de esgoto quebrada sem perder o ritmo.
Sem interrupções. Sem vozes. Apenas o som suave de suas botas sobre as pedras e o zumbido do silêncio pulsante de mana.
Levou quarenta minutos até chegar à saída mais distante — um tubo de manutenção enferrujado escondido atrás de um galpão abandonado perto do anel externo da cidade.
Abriu a tampa e emergiu na noite.
Sem lua. Apenas estrelas e um sussurrar tênue do vento entre árvores que não parecem pertencer a qualquer bairro planejado da capital.
Andou mais vinte minutos por entre mato e trilhas esquecidas, seu ritmo firme, cuidadoso e silencioso.
Então, viu.
Varn's Hollow.
Não uma garganta, como o nome sugeria — mas uma planície irregular de rochas montanhosas e terreno rachado, meio coberto de névoa. Aguçadas de pedra escura pontilhavam como costelas de algo antigo e enterrado há muito tempo. O ar aqui era diferente — mais pesado, como se algo estivesse pressionando contra a parte de trás dos dentes.
Ele se deixou esconder atrás de uma crista afiada e examinou a área abaixo.
Algumas árvores quebradas.
marcas de arranhões na pedra.
E mana no ar.
Fera. Crua.
Exatamente o que ele precisava.
"Vamos começar."