O Extra é um Gênio!?

Capítulo 54

O Extra é um Gênio!?

As árvores se estreitaram até virar rocha fragmentada e ar morto.

Noel passou por entre uma bagunça de raízes retorcidas e seguiu a encosta descendente, com botas silenciosas na terra seca. A floresta atrás dele já havia ficado quieta, como se não quisesse ter nada a ver com o que o aguardava à frente.

Vazio de Varn.

Não era um vale. Era uma ferida na terra — penhascos irregulares, pilares afiados, blocos de pedra quebrados erguendo-se como dentes partidos. Vapor escapava de pequenas fissuras, e a mana no ar pulsava de forma bruta e irregular, como se algo tivesse rasgado aquilo e nunca tivesse fechado o ferimento.

Ele se abaixou atrás de uma encosta de pedra carvão, com os olhos varrendo o campo abaixo.

Árvores apodrecidas. Marcas de garras nas rochas. Uma carcaça — algo que costumava ser um cervo, agora aberta ao meio, membros curvados de maneira errada. Sem sinais de alimentação. Só destruição.

Abriu a palma da mão, convocou uma fina linha de mana e enviou-a adiante — procurando.

A resposta veio rápida: um borrão de presença corrompida circulando a área. Mais de uma.

Então uma se aproximou.

Ela surgiu do detrás de uma pedra inclinada — um Caçador do Vazio, quadrúpede e esquelético, com um torso humano alongado fusificado nas costas, como se tivesse tentado ficar de pé, mas não tivesse conseguido. Sua boca era desalinhada, cheia de presas irregulares. Seis olhos piscavam em velocidades diferentes.

Noel não vacilou.

Ele se levantou lentamente, com o manto baixo, mana se acumulando nas pontas dos dedos.

"Vamos ver do que você é feito."

O Caçador do Vazio reagiu com um tremor.

Seu corpo se moveu com espasmos rápidos, semelhantes aos de insetos, com as costelas visivelmente se expandindo sob a carne rasgada. Uma de suas garras frontais arranhou a pedra enquanto se arrastava para frente, tremendo como uma marionete quebrada. O torso humano deformado nas costas pendia sem força, com a boca presa em um grito silencioso.

Noel não hesitou.

Ele levantou a mão esquerda e convocou mana, deixando que ela se acumulasse e se condensasse em uma única esfera densa.

"Bola de fogo."

A chama se materializou instantaneamente — sem espetáculo, sem explosão de calor. Apenas destruição compactada, sob pressão, brilhando entre seus dedos.

O Caçador do Vazio gritou ao lançar-se para frente, muito mais rápido do que seu corpo quebrado tinha direito de se mover.

Noel deu meio passo para trás e lançou a Bola de Fogo direto na face dele.

Impacto.

A esfera explodiu contra o crânio, incendiando parte da cabeça. Osso estalou. Músculo queimou. Fumaça subiu. Mas a maldita criatura não parou.

Ela gritou mais alto e avançou de novo, agora de maneira selvagem e de perto.

Noel abaixou-se, escorregando para o lado, enquanto uma garra raspava seu ombro e rasgava o tecido do seu manto.

'Muito superficial. Preciso incapacitar.'

Enquanto se movia, estendeu a mão direita e traçou uma runa afiada na terra sob seus pés. Mana acelerou — fria e precisa.

"Pirolice."

Uma lança irregular de gelo surgiu do chão e perfurou a perna dianteira do Caçador, cravando-se na articulação. A criatura vacilou, gritando de dor, presa na rocha.

Noel não deixou tempo para ela se recuperar.

Ele puxou a Gadanha do Fantasma com um movimento preciso e se aproximou.

Sem grito de guerra. Sem hesitação.

Ele desceu a espada com um arco diagonal brutal — cortando pescoço, tendão e osso até ficar na metade da espinha. Com um grunhido, colocou o pé no ombro e ripou a lâmina.

O Caçador do Vazio reagiu com um único tremor.

Depois ficou imóvel.

Fumaça saiu do ferimento cortado.

Noel permaneceu de pé sobre ele, respirando devagar, coração tranquilo.

O sistema acionou suavemente na sua visão.

[Progresso do Núcleo: +0,04%]

Ele dispensou a notificação sem pensar duas vezes.

'Um. Até que ficou legal.'

Ele limpou a lâmina na pele destruída da criatura e voltou a olhar para as sombras além.

Haveria mais.

Sempre havia.

A segunda fera veio mais rápido do que a primeira.

Noel não a viu — ouviu: garras raspando pedra, um grito úmido, e então um borrão de movimento vindo da esquerda.

Ele pivotou, mana já pulsando pelo braço.

"Arco de chamas."

Uma onda horizontal de fogo explodiu de sua palma num movimento limpo, queimando a encosta do penhasco e lançando a criatura para o lado na hora do pulo. Ela rolou pelos rochedos, soltando assobios de fogo, até se erguer de novo — um de seus membros agora queimado até o osso.

Era um Devoraluz, com forma insetoide, mas duas vezes maior que um homem, com uma carapaça segmentada pulsando com luz roxa opaca. Seu tórax parecia uma lanterna rachada, vazando fumaça e resíduo de mana.

Noel não esperou.

Correu para frente.

Mana voltou a pulsar em seus dedos.

"Pirolice."

Outra lança de gelo surgiu debaixo da criatura enquanto ela recuperava o equilíbrio — perfurando-a pela parte de baixo e congelando seu centro no meio do grito.

Ele nem desacelerou.

Mais uma veio de cima — uma rastejante menor, de quatro patas, com torso blindado de ossos e sem cabeça visível.

Noel levantou a mão esquerda.

"Muralha de geada."

Uma grande placa de gelo se materializou entre ele e a criatura, forçando-a a aterrissar forte e quicar no meio do ataque. Ela cambaleou, atordoada.

"Bola de fogo."

No ponto.

A explosão cortou suas pernas limpo.

Ele passou pelo corpo em chamas, com botas triturando cascalho e sangue, e escaneou procurando por mais.

'Gelo para prender. Fogo para quebrar. Repetir até acabar.'

Não era elegante. Não era equilibrado.

Mas funcionava.

E ele ficava mais rápido.

[Progresso do Núcleo: +0,11%]

Dez minutos depois, já tinha três monstros a mais e tinha aprendido mais três coisas:

O Bola de Fogo funciona melhor em movimento.

A Muralha de Geada é pouco confiável em terreno inclinado.

Arco de Chamas pode interromper ataques de canalização… mas só uma vez.

Sua capa estava chamuscada nas bordas.

Seu braço de espada queimava com o ciclo repetido de magias.

Seu fôlego permanecia firme.

E ele ainda se mexia.

A quarta onda não veio do chão.

Ela caiu de cima.

Noel mal conseguiu rolar a tempo quando um peso massivo caiu onde ele tinha estado uma batida antes, destruindo pedra e levantando poeira.

A criatura que surgiu da colisão era diferente das outras.

Uivador de Espinhos.

Seu corpo era semi-humanoide, com membros alongados em arcos brutais. Sua pele era escura, cinza, segmentada, coberta por espinhos ósseos articulados que faziam um clique suave a cada respiração. Sua cabeça era baixa e curvada, uma mandíbula aberta escondida sob um capacete de chifre cru. Quatro linhas brilhantes pulsavam no peito, como veias de mana expostas e tremendo.

Ela não avançou de forma agressiva.

Ela marchou — lenta, deliberada, cada passo transmitindo pressão ao chão.

Noel levantou as duas mãos.

'Não há tempo para pensar demais.'

"Muralha de Geada."

A barreira se encaixou na frente dele — mas o Uivador de Espinhos não parou.

Ele atravessou o gelo com uma carga de ombro única, quebrando tudo como vidro frágil e lançando pedaços que passaram por seu rosto.

Um fragmento rasgou sua coxa.

A dor foi ardente e súbita. Sua perna vacilou.

Ele cerrando os dentes.

Não gritou.

"Pirolice."

A lança saiu do chão — mas o Uivador de Espinhos torceu no meio da passada, deixando a lança roçar na lateral ao invés de perfurá-lo.

Ela estava aprendendo.

'Você é mais inteligente que os outros.'

Ele avançou.

Disseca a primeira garra ao abaixar a cabeça, reagindo com um golpe de Revenant Fang — metal encontrando espinha com um clang agudo. A lâmina cortou, mas não fincou profundo.

A criatura torceu-se e empurrou o cotovelo contra suas costelas. Ele recuou cambaleando, tossindo, mal conseguindo lançar a mão à frente.

"Arco de Chamas!"

A explosão queimou o peito da criatura — veias de mana explodindo em vapor e sangue, desacelerando ela por um instante.

Era tudo que ele precisava.

"Bola de Fogo."

"Pirolice."

Ele combinou os dois feitiços, um após o outro — explosão para desequilibrar, gelo para terminar.

A criatura desabou em um montão tremente, meio congelada e fumegando.

Noel ficou de pé sobre ela, respirando fundo, uma mão apoiada na ferida aberta na sua coxa.

[Progresso do Núcleo: +0,21%]

Ele cuspiu de lado e mancou de volta até uma formação rochosa defensável.

Rangeu os dentes, limpando o suor da testa enquanto se recolhia atrás da rocha.

'Sábio o suficiente para ler seu ritmo. Forte o bastante para aguentar o golpe. Rápido o bastante para acabar com tudo.'

'Ótimo.'

Engoliu um elixir de recuperação em silêncio, limpou o suor da testa e se levantou de novo.

O tempo virou uma névoa.

Noel continuou se mexendo — sem hesitação, sem dúvida, sem palavras.

Ele passou de sombra em sombra, de matar em matar, de movimento em movimento, como um pêndulo afiado até um ponto. Não havia hesitação. Nenhuma estratégia além do que seu instinto, refinado pela dor, já tinha mapeado.

Um monstruoso após o outro.

Uma Boca de Vidro com um crânio translúcido — decapitada com uma lança de gelo atravessando a mandíbula.

Um Andador de Veias que agarrou seu braço — arrancado e assado vivo com uma Bola de Fogo de perto.

Três Bestas de Medula vieram em grupo, fundidas pelo enfeiamento e amarradas nos membros. Noel as guiou entre pilares de rochas afiadas, destruindo uma com um Arco de Chamas, e usando a Muralha de Geada para dividir as outras, isolando-as tempo suficiente para terminar a tarefa.

Sangue secou em suas luvas. Suor encharcou o colarinho.

Sua magia já começava a ficar irregular, mas seu corpo agora conhecia os movimentos. Sua mana alinhava-se com sua violência. Sua mente silenciou.

Sem pensamentos.

Apenas controle.

A última eliminação foi caótica — uma Caçadora do Vazio em recesso que se recusou a morrer mesmo tendo perdido metade dos membros. Noel a acabou prendendo com uma Pirolice, e depois foi até ela e cravou Revenant Fang na espinha até ela parar de tremer.

Sem floreios. Sem som.

Somente peso.

Por fim, o sistema pisca na sua visão.

[Progresso do Núcleo: +1,98%]

[Total: 49,30% – Núcleo Novato]

Ele ficou parado por um momento, o peito subindo e descendo com quieta precisão.

Depois virou-se de volta para a linha das árvores, sem dizer nada.

Ele não correu.

Apenas caminhou.

O Caçador do Vazio ficou mais silencioso atrás dele.

E a noite começou a se apagar.

Ainda começava a aparecer uma luz pálida no horizonte quando Noel chegou à borda das cavernas da cidade.

Sua capa estava rasgada no ombro. Seus luvas estavam manchadas de escuro. Seu corpo doía em tantos lugares que a contagem não cabia, mas nada disso apareceu na sua expressão.

Ele avançou com o mesmo passo calmo de sempre.

Cruzou o último vão.

Fechou o ferrolho escondido atrás de si.

Nenhuma alma o viu chegar ou sair.

Escalou novamente o muro externo da academia sob as sombras finais da noite, desceu do telhado da biblioteca e pousou silencioso entre sebes que nem se moveram.

Chegou ao seu alojamento às 05:21.

Trancou a porta.

Deixou a capa cair.

Deixou os equipamentos.

Não se incomodou em tomar banho.

Limpo as mãos da pior sangue, engoliu o último quarto de uma poção e colapsou na cama.

Sem alarmes.

Fechou os olhos.

'Duas horas.'

Não precisava de mais do que isso.

Não descanso.

Apenas tempo suficiente para fazer o corpo se convencer de que sobreviveria mais um dia.

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