O Extra é um Gênio!?

Capítulo 55

O Extra é um Gênio!?

Até o sétimo dia, a cansaço deixou de esconder-se.

Noel estava sentado no seu lugar habitual, perto do fundo da sala de aula, com os cotovelos apoiados na mesa, os ombros um pouco abaixo do ideal. O ar no cômodo era pesado, carregado com o calor da manhã, resíduos de mana e o murmúrio abafado do virar das páginas.

Seus olhos permaneciam abertos, mas só no limite.

A aula—sobre sobreposição de feitiços em constructs de elemento duplo—deveria já ser algo familiar. Fácil, até. Mas, no instante em que tentou copiar o diagrama do sigilo no pergaminho, seus dedos hesitaram. A linha desviou um pouco. Sua mão parou no meio do traço.

Ele piscou.

O foco dele voltou um segundo tarde demais.

No quadro, o professor Daemar levantou uma sobrancelha e olhou na direção dele—mas não disse nada. Noel ajustou a postura, reescreveu a linha limpidamente, e fingiu que nada tinha acontecido.

Algumas cadeiras adiante, alguém tossiu.

Do outro lado do salão, um par de olhos cinza frio não o deixou de olho.

A Senhora Elyra von Estermont permaneceu sentada, postura impecável, seu rabo de cavalo preto repousando perfeitamente sobre um ombro, uniforme bem passado com detalhes em prata e o brasão vermelho do conselho estudantil.

Ela não fez careta.

Não torceu a cabeça.

Ela simplesmente observava.

Elyra fechou o caderno com precisão silenciosa.

A aula terminou sem incidentes—como todos os dias. Os estudantes saíram em ondas, conversando, esticando os braços, discutindo tarefas futuras. Noel saiu mais devagar que os demais, entrando na multidão sem olhar para ninguém.

Ela não o seguiu.

Ao contrário, Elyra se dirigiu até o professor Daemar, aguardando até que os últimos estudantes partiram.

"Professor", ela disse em voz baixa, "há alguma aula particular recente com Noel Thorne?"

Daemar olhou para cima, com as sobrancelhas ligeiramente levantadas. "Não. Nenhuma que eu saiba."

"Obrigado." Ela deu um leve aceno de cabeça.

Ela se virou e saiu da sala, sem pressa, com um controle deliberado.

Em vez de ir para o refeitório como a maioria, ela fez um desvio discreto até o segundo andar da biblioteca principal. Os pisos de mármore ecoavam sob suas botas, e o cheiro de pergaminho antigo e poeira de mana impregnava o ar.

Ela se aproximou do balcão de registros.

"Boa tarde", ela disse ao atendente atrás do balcão—um estudante júnior com postura fraca e senso de hierarquia forte. "Você poderia verificar alguma coisa para mim? Estou compilando dados para o conselho."

Cinqüenta minutos depois, ela se afastou sabendo que Noel não tinha retirado nenhum tomo avançado na última semana.

'Nenhum nova teoria, nenhum manual de elementos, nenhum diagnóstico—nada útil, nada relevante.'

Ela desceu as escadas da biblioteca lentamente, os dedos tocando levemente a madeira polida do corrimão, seus pensamentos alinhando-se a cada passo medido.

'Ele está ficando louco? Ou talvez esteja tentando fazer alguma besteira sozinho novamente?'

Seus lábios não se moveram.

Mas seus olhos estreitaram um pouco.

Ela já tinha visto estudantes desmaiar pelo excesso de esforço.

Noel não estava desmaiando.

Ele estava se destruindo, pouco a pouco, uma noite de cada vez.

O último sino ressoou pelo corredor oeste, um eco longo e monótono que marcava o fim das aulas formais do dia.

Estudantes saíram das salas em grupos dispersos, rindo, se alongando, alguns já tirando suas capas enquanto se encaminhavam para o refeitório ou os dormitórios.

Ele saiu sozinho.

Seus passos eram firmes, mas mais lentos que o normal. Seus olhos continham a mesma expressão vazia, e seu ombro direito pendia um pouco—como se seu corpo estivesse começando a trair seu controle.

Elyra encostou-se a uma coluna na arcada do pátio, com os braços cruzados, o brasão vermelho do conselho estanhamente bordado em seu uniforme.

Ela esperou até que ele estivesse a dois passos de distância.

"Correndo como um morto-vivente," ela disse casualmente, com a voz leve e medida. "Esse é um novo visual para você."

Noel parou.

Depois virou a cabeça só o suficiente para vê-la. "Quer dizer que estou com cara de cansado?"

"Quer dizer que você parece alguém que tem brigado com a coisa errada."

Ele sorriu meio de lado. Sem graça—apenas aceitando o golpe.

"Veio me dar um sermão?" ele perguntou.

"Não. Vim te oferecer uma cadeira e um pouco de silêncio."

Isso chamou sua atenção.

Ele virou-se completamente para ela. "Silêncio?"

Elyra empurrou-se para fora da coluna. "Conheço um lugar. O conselho mantém escondido. Não tem estudantes, nem ouvidos, nem professores. Só ar, livros e uma porta que tranca."

'Ele não perguntou por quê. Ótimo. Ele sabe que não estou oferecendo isso sem motivo.'

Noel a observou por um instante. Depois, assentiu com a cabeça.

"Mostre o caminho."

Ela não sorriu. Simplesmente se virou e começou a caminhar.

Ele a seguiu.

O cômodo estava silencioso.

Não era luxuoso—apenas funcional. Uma grande janela com cortinas fechadas, uma estante de livros antigos cheios de arquivos políticos e tomos de direito arcano, duas poltronas profundas e um sofá de veludo desgastado que parecia muito mais caro do que deveria.

Elyra colocou sua bolsa cuidadosamente numa mesinha de canto e sentou-se numa das cadeiras sem dizer palavra.

Noel não sentou.

Ele deu um passo e apoiou-se na parede perto da janela, esticando o ombro.

Elyra observou.

"Você anda planejando alguma coisa ou fazendo alguma besteira," ela disse. "E parece que está se esforçando demais."

"Talvez só esteja com insônia, né?" Noel respondeu com voz seca.

"Não é só aparência de cansaço," ela disse calmamente. "É exaustão mesmo."

"Não sabia que hoje a gente estava medindo metáforas."

"Pois bem, alguém tem que fazer isso. Se não fizerem."

Ela se reclinou na cadeira, com as pernas cruzadas de jeito natural.

"Não sei o que você tem feito ultimamente. Mas, se quer passar despercebido, deve começar a ouvir seu corpo e cuidar melhor dele."

Finalmente, Noel se levantou e caiu no sofá sem elegância—apenas peso mesmo.

"Agradeço a preocupação," ele disse. "Desconfiava que você se importasse com causas perdidas."

"Não me importo," ela respondeu sem hesitar. "Mas me importo que bens valiosos entrem na fogueira antes que eu possa usá-los direito."

Noel soltou uma risadinha curta e cansada.

Depois, inclinou a cabeça para trás e encarou o teto.

O silêncio instalou-se entre eles como um cobertor—fininho, mas pesado.

Elyra olhou para a cadeira que tinha acabado de abandonar, depois para o sofá onde Noel permanecia encarando o teto, imóvel.

Sem fazer comentário, ela cruzou a sala e sentou ao lado dele.

Não tão perto a ponto de sufocá-lo.

Somente perto o suficiente para compartilhar o silêncio.

Noel não reagiu.

Pelo menos, inicialmente.

"Você está anormalmente imóvel," Elyra disse, agora com a voz mais suave, mais neutra do que fria.

"Estou treinando para ser uma estátua," ele murmurou. "Tá indo bem."

"Hm."

Ela apoiou os braços no colo, cruzando uma perna sobre a outra. "Sabe, já li que cansaço faz coisas interessantes com sarcasmo."

"Pode contar."

"Ele fica mais lento. Mais sem graça. Menos afiado." Ela fez uma pausa. "Você está funcionando a uns sessenta por cento."

"Ainda mais afiado que a maioria," Noel respondeu com um leve sorriso de lado.

Porém, seus olhos não se abriram de novo depois disso.

Elyra permaneceu silenciosa.

O tempo passou.

Noel mexeu um pouco a cabeça, inclinando-a na direção do ombro dela. Percebendo a si mesmo no meio do movimento, endireitou-se. Mas, pouco tempo depois, desistiu.

Sua cabeça repousou suavemente contra a coxa dela, a respiração já mais lenta.

Elyra olhou para ele.

Sem sorriso.

Sem carranca.

Apenas uma suave inclinação da cabeça.

Ela se aproximou, quase de modo distraído, e afastou alguns fios de cabelo da testa dele.

'Exausto, imprudente, brilhante… e perigosamente cativante.'

Deixou a mão repousar levemente sobre seus fios de cabelo.

'Mas não indestrutível.'

E permaneceu ali, deixando que ele dormisse.

Por um pouco mais de tempo.

O silêncio se instalou novamente, como um cobertor fininho, porém pesado.

Fora, a última luz do dia desaparecia por trás das nuvens, formando longas sombras pelas cortinas. Dentro, o ritmo suave da respiração de Noel preenchia o silêncio, sua cabeça repousando delicadamente sobre o colo dela.

Elyra permaneceu perfeitamente imóvel, uma mão repousando no ombro dele, a outra suavemente entrelaçada em seus fios de cabelo. A postura dela era composta, mas seu olhar distante.

A mente dela não estava ali.

Estava num outro cômodo, num outro dia. Num momento que nunca esqueceu—porque tinha vindo dele.

"Aprecio você," ele disse. "Não porque seja útil. Nem perigosa. Nem brilhante—embora seja tudo isso."

"Aprecio você porque… não desvia o olhar. Não finge. Mesmo quando seria mais fácil."

"Já vi esse seu tipo antes. Pessoas que sustentam tudo por todos, que não podem se quebrar porque são as que têm que liderar."

"E sei que passou despercebida. Esquecida. Mesmo quando deveria ter sido você quem eles escolheriam."

Naquele momento, ela não respondeu. Nem deixou transparecer na expressão.

Mas agora, enquanto ele dormia vulnerável de um jeito que ninguém costumava ver, as palavras voltaram como uma lâmina suavemente arrastada por seus pensamentos.

Ela olhou para ele.

Seus olhos estavam fechados. As sobrancelhas relaxadas. A tensão habitual no queixo havia desaparecido.

'O que você quis dizer com isso?'

A ideia surgiu baixinho, sem seu consentimento.

Seus dedos se moveram novamente—quase por reflexo—e afastaram alguns fios de cabelo da testa dele.

Ela não precisava dele.

Mas, de algum modo, ele tinha começado a importar.

E isso… era um incômodo.

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