O Extra é um Gênio!?

Capítulo 68

O Extra é um Gênio!?

A sala era pequena, mas bem arrumada — situada no subsolo do mesmo corredor oriental, numa das antigas câmaras de estratégia reservadas às reuniões nobres. Cortinas de veludo grosso bloqueavam as janelas. Um sigilo de encantamento gravado na porta brilhava suavemente, indicando que nenhum som sairia dali.

Dior estava sentado na cabeceira da mesa redonda, com as mãos unidas em posição de prece.

Três outros nobres estavam com ele — jovens, perspicazes, leais.

Alric Von Valein.

Cassian Therin.

Liora de Derness.

Todos de linhagens ancestrais. Todos ansiosos por mostrar seu valor.

A atmosfera era controlada. Mas carregada de tensão.

Cassian foi o primeiro a falar.

"O discurso dela foi mais forte do que eu imaginava. Quer dizer, até eu me peguei pensando qual seria a jogada certa. Ops — desculpe, Príncipe Dior. Não quis trair a causa."

Liora assentiu rapidamente, tentando ajudar Cassian.

"Ela falou como se já acreditasse que tinha vencido."

Alric recostou na cadeira. "Tá ficando pior. Agora até os plebeus estão citando ela. Nos campos de treino."

Dior manteve o olhar fixo na chama da vela central da mesa.

"O ímpeto é uma coisa perigosa," ele falou de forma suave.

"Principalmente quando começa a descer a ladeira."

Cassian esclareceu a garganta.

"Podemos... lembrar as pessoas do que acontece quando a academia esquece sua estrutura."

Dior ficou calado.

Apenas olhou para cima.

Olhou nos olhos de Cassian.

"Houve uma pequena perturbação na biblioteca esta manhã, não foi?"

Cassian hesitou.

Depois assentiu.

"Um disparo de feitiço malfeito. Nada grave."

A voz de Dior permaneceu calma.

"E o responsável — era um estudante que apoia Seraphina, não era?"

Os olhos de Liora brilharam.

"Sim. Um dos apoiadores do primeiro ano."

Dior sorriu discretamente. Não elevou o tom de voz. Não deu ordens.

"Então seria uma pena," disse suavemente, "se as pessoas começassem a associar o movimento dela ao caos."

Os três nobres trocaram olhares.

Nada mais precisava ser dito.

A biblioteca da academia costumava ser um refúgio de silêncio.

Praças com tetos altos e prateleiras infinitas. Lampiões encantados para flutuar acima das zonas de leitura. Estudantes dispersos em cantos tranquilos, cada um mergulhado nos seus estudos ou na preparação para as provas práticas que se aproximavam.

Mas não hoje.

Perto do corredor oeste, numa passagem lateral ladeada por tomos avançados de teoria de feitiços, duas vozes começaram a se elevar.

Uma era de um nobre de segundo ano — Cassian Therin, vestido impecavelmente com o uniforme do seu Clã, com detalhes em vermelho. Calmo, educado, mas claramente condescendente.

A outra, de um garoto do primeiro ano — Rane, cabelo castanho curto, uniforme usado e um broche de prata brilhante no colarinho com o emblema de Seraphina.

Eles não estavam gritando.

Mas suas palavras eram afiadas.

"Tô dizendo, — mutreteou Rane, tentando falar baixo — talvez as pessoas estejam cansadas de deixar as famílias antigas mandarem em tudo como se fosse direito de nascimento."

Cassian deu uma risada suave, silenciosa.

"Ah. A voz do futuro iluminado."

"Me diga — quando esse futuro queimar tudo ao redor, ela vai te oferecer mais palavras ou um escudo?"

Rane deu um passo à frente.

Gelou na postura.

Cassian recuou — de brincadeira dramática — e tocou em uma pilha de livros.

Uma enciclopédia de feitiços escorregou, caindo no chão.

E pulsou.

A magia de proteção — uma matriz de defesa de emergência — ativou com um flash de luz azul.

Uma onda de choque se espalhou.

Barulhenta o suficiente para derrubar uma prateleira próxima.

Livros voaram e as páginas se espalharam.

Estudantes gritaram de surpresa e se abaixaram.

Instrutores correram do hall central, mana brilhando enquanto fechavam a área.

E, bem no meio de tudo, Cassian ficou parado, com expressão de choque.

Rane congelado — meio pulando, numa postura péssima.

Alguém já tinha levantado a mão, apontando.

"Ele fez isso! O garoto que apoia a Princesa — perdeu o controle!"

E assim —

A mentira deu seu primeiro fôlego.

Na manhã seguinte, a história já tinha mudado.

Duas vezes.

O que começou como um pequeno incidente no corredor oeste da biblioteca virou outra coisa completamente diferente.

No refeitório comum:

"Você viu? Um apoiador de Seraphina atacou um nobre com um feitiço."

Nos campos de treinamento:

"Parece que estão ficando agressivos. Primeiro os discursos, agora táticas de intimidação?"

"Sim, os nobres precisam ficar atentos."

Em uma escadaria que leva aos dormitórios do leste:

Um cartaz anônimo apareceu, simples, em papel branco, com tinta preta bem marcada.

"É essa a união que ela prometeu?"

– Classe S, Pense Antes de Votar.

Ninguém sabia quem tinha colocado, mas ninguém duvidou muito.

Essa era a essência de um boato bom.

Ele não precisava de verdade.

Só de impulso.

Noel ouviu os sussurros a caminho da aula.

Não reagiu.

Não diminuiu o passo.

Mas, na terceira vez que alguém falou sobre "o incidente na biblioteca", ele parou no ato.

Roberto chegou ao seu lado, levantando uma sobrancelha.

"Algo errado?"

A voz de Noel foi calma.

Sem emoção.

"Sim."

"Com a aula?"

"Com o cheiro."

"Que cheiro?"

"O que vem junto com besteira."

Ele virou abruptamente e seguiu por outro corredor.

Em direção às escadas do jardim dos fundos.

O corredor oeste da biblioteca voltou a estar silencioso.

Até demais.

A estante quebrada já tinha sido consertada — madeiras encantadas restauradas, livros recolocados de forma organizada. Mas o ar ainda parecia estranho, como uma sala que tinha acabado de passar por uma tempestade e fingia que não aconteceu.

Noel entrou como se fosse da casa.

Coisa que, agora, ele realmente era.

Não olhou ao redor.

Já sabia exatamente o que procurava.

Logo atrás do balcão principal, uma jovem assistente magista revisava rolos de inventário. Ela estremeceu ao ver a sombra de Noel caindo sobre ela.

"Você esteve aqui ontem," ele comentou.

Não foi uma pergunta.

A garota olhou pra cima, cautelosa.

"Y-y sim?"

"Diga exatamente o que aconteceu. Sem inventar — mentir não é uma boa ideia, né?"

Ela piscou.

"Eu — já relatei ao Instrutor Valenn —"

"Não pra ele. Pra mim."

A voz dele não aumentou.

Não precisava.

Ela caiu como uma lâmina suavemente colocada na mesa.

A assistente engoliu em seco.

E falou.

Poucos minutos depois, Noel tinha o que precisava.

Rane mal tinha se mexido. Cassian foi quem provocou. A ativação do livro não foi acidente.

Foi uma armadilha.

Simples e direta.

Quando ela terminou, Noel não disse nada.

Apenas virou-se e saiu.

Cinqüenta minutos depois, encontrou Cassian — não nos corredores, mas ali, bem na porta do pátio leste, conversando com outros dois nobres e rindo como se nada pudesse tocá-lo.

Noel se aproximou.

Nem o cumprimentou.

Parou a um metro de distância e encarou.

Cassian virou-se, sorriu de canto.

"Posso te ajudar com alguma coisa, Thorne?"

A voz de Noel foi baixa.

"Se você fizer mais uma dessa…"

Avançou um passo.

O sorriso de Cassian vacilou.

"... você não vai precisar se preocupar com a Seraphina destruindo sua campanha."

Noel inclinou-se levemente.

Olhos frios, sem emoção.

"Porque eu vou acabar com ela antes que ela comece."

A boca de Cassian se abriu.

Não esperou resposta e foi embora lentamente.

O silêncio que ficou foi mais alto do que qualquer coisa que Cassian pudesse ter dito.

Não esperava ser seguido.

Mas, ao virar a esquina do corredor leste, passos precisos, calmos e constantes se alinharam aos dele — uma presença quieta, confiável, sem pressa.

Ele olhou para trás uma última vez.

Claro.

Seraphina de Valor.

Ela vestia o uniforme padrão, sem brasão ou capa. O cabelo trançado para trás, postura tão imponente na quietude quanto era no palco.

Noel parou ao lado de uma janela estreita que dava para o pátio.

"O quê?"

Ela parou alguns passos atrás dele.

"Ouvi o que você fez."

Noel não respondeu.

"Rane me contou. E a assistente da biblioteca."

Continuava em silêncio.

Ela deu um passo à frente, mas sem quebrar a linha de tensão.

"Você não precisava se meter."

"Você tem razão," ele respondeu, com tom monótono. "Eu não precisava."

"Então por quê?"

Noel olhou para o pátio. Para o céu. Para qualquer coisa, menos ela.

Depois, falou:

"Eu não gosto de mentirosos."

Pausa.

"Principalmente os ruins."

Seraphina deixou passar um segundo.

Depois:

"Você não está tão fora do palco quanto faz parecer."

Noel deu um sorriso pequeno, sem humor.

"Bem, todo mundo faz o que precisa. Só gosto de entortar o palco quando ele inclina demais."

Ela não sorriu.

Mas também não discutiu.

Apenas concordou com um aceno de cabeça.

E foi embora.

Deixando-o lá — sozinho, mais uma vez.

Mas menos distante do que antes.

O aposento era pouco iluminado.

Um escritório silencioso abaixo da torre oeste — um dos aposentos de professores desocupados, agora ocupado por Lereus. Sem sigilos, sem livros na mesa. Apenas duas cadeiras, uma mesa simples e o silêncio.

Dior estava perto da janela, de braços cruzados, maxilar tenso.

Lereus sentava-se calmamente, mãos entrelaçadas, observando-o como quem acompanha um paciente orgulhoso demais para admitir que está doente.

"Eles encerraram," Dior murmurou. "Ele encerrou."

Lereus não disse nada.

"Toda aquela preparação. Todo aquele esforço. E agora estão falando dele em vez disso."

Mais um silêncio.

Finalmente, Dior se virou para encará-lo.

"Por que não deu certo?"

A voz de Lereus foi suave.

Controlada.

"Porque você subestimou o perigo de a apatia virar ação."

Dior franziu a testa.

"Ele é só um estudante do fundo do colégio."

"Então por que seu movimento se curva em torno dele, e não o contrário?"

Dior ficou calado.

Lereus se levantou lentamente.

Passou por Dior em direção ao centro da sala.

"Noel Thorne é uma anomalia. E anomalias, se não forem controladas, quebram os padrões."

Ele virou a cabeça levemente.

"Remova a anomalia."

Dior hesitou.

"Quer dizer… fisicamente?"

Lereus sorriu de relance.

Sem calor.

"Ainda não. Mas envie uma mensagem — uma que ele não possa ignorar."

"Ele veio ao seu encontro."

"Assegure-se de que ele lembre por que isso é um erro."

Dior ficou em silêncio.

Mas seu silêncio… foi um consentimento.

Comentários