O Extra é um Gênio!?

Capítulo 3

O Extra é um Gênio!?

A tela tinha desaparecido.

O cômodo voltou a ficar silencioso—demais silêncio.

Noel permanecia de pé, imóvel no centro daquela sala ornamentada, extraordinariamente polida. O ar ainda carregava aquele sutil zumbido de mana—algo quente, algo poderoso—mas sua atenção estava fixada em uma pergunta:

Que porra de lugar é esse?

Ele caminhou lentamente, os olhos vasculhando as paredes, a decoração, as roupas cuidadosamente dispostas sobre uma cadeira próxima. Tudo parecia impecável, intocado. Ainda não moldado por conflito ou sangue.

'Se estou em Ecos de um Mundo Rachado, então preciso descobrir onde está a história agora,' pensou, passando uma mão pelos cabelos loiros bagunçados.

O começo do romance... tudo começou com Marcus entrando na Academia Imperial.

Aquele foi o ponto em que tudo desandou em guerra, traições, magia proibida, caos político.

Então, se ele está aqui agora—vivo, neste corpo, não esquecido nem morto—

'Então isso deve ser justo antes de tudo começar.'

Ele virou-se na direção da janela.

Do lado de fora, o sol da manhã banhava o pátio distante. Carroças estavam sendo preparadas. Criadas moviam-se como sombras pelos caminhos do jardim. Algumas jovens nobres brigavam na grama com espadas de madeira—entusiasmadas, imprudentes.

Estava demais tranquilo. Como se o mundo não soubesse que já estava pegando fogo.

'Então essa é minha janela,' pensou Noel. 'Um pedacinho de tempo antes de tudo desabar.'

Ele respirou fundo lentamente, cruzando os braços.

'E eu sou Noel Thorne, ninguém—apenas uma nota de rodapé.'

Lembrou-se de reler o romance e nunca ter visto esse nome. Sem menções. Sem títulos. Nem uma cena de morte.

O que significava...

Ou o velho Noel não fez nada digno de lembrança—ou ele não deveria ser lembrado.

Isso era diferente.

Agora, ele estava aqui.

Deu uma olhada na mão. Estava firme, forte.

'Bem então. Vamos ver quanta confusão um fantasma consegue causar.'

Toc-toc.

Duas suaves batidas na porta de carvalho polido cortaram o silêncio.

Noel virou lentamente.

'Certo. Pessoas ricas não entram de supetão. Anunciam-se educadamente, antes de te apunhalar pelas costas.'

"Entre", disse, com voz firme.

A porta rangeu ao se abrir, revelando uma garota com não mais de quinze anos, vestindo um uniforme de empregada preto e branco. Ela tinha cabelo castanho-claro preso numa trança arrumada e olhos castanhos suaves, que se elevaram para encarar-no por um segundo antes de baixar novamente.

"Jovem senhor," disse ela com uma pequena reverência, "sua família aguarda na sala de jantar."

Noel a estudou por um instante a mais do que o necessário.

Ela parecia nervosa—habituada a isso. Não exatamente com medo dele... mais como se estivesse acostumada a andar sobre ovos nesta casa.

'Casa nobre tóxica. Clássico.'

"Obrigado," respondeu simplesmente.

A garota piscou, talvez surpresa por ele não ter dado uma ordem ou ignorado.

Ele passou por ela e saiu para o corredor. Ao fazê-lo, viu seu reflexo num espelho decorativo fixado na parede do corredor.

Alto, vestindo-se impecavelmente, e com uma expressão composta.

Mas por dentro?

Ele planejava, calculava, guardava tudo na memória.

'Ficar quieto, manter-se limpo, e não chamar atenção por enquanto.'

Não podia permitir começar a mudar a história antes de entender quais variáveis já estavam em movimento.

Então, por ora?

Assumiria o papel que lhe foi dado.

Noel Thorne, o extra invisível.

E como qualquer bom fantasma, assombraria o fundo—até chegar a hora de atacar.

As portas da sala de jantar eram altas, arcos gêmeos de jacarandá laqueado, gravados com o brasão dos Thorne—três estrelas sobre uma espada envolta em chamas. O mordomo posicionado do lado de fora fez uma reverência breve e as abriu sem palavra.

Noel entrou.

A sala de jantar era luxuosa, quase absurdamente. Um grande lustre flutuava sobre a longa mesa, com cristais imbuídos de mana, brilhando suavemente em tons que variavam entre dourado e marfim. Grandes janelas com arcos imensos banhavam o ambiente na luz da manhã, filtrada por vitrais que retratavam batalhas e linhagens há muito extintas.

A mesa se estendia quase por toda a extensão do cômodo, adornada com talheres de prata, louças de porcelana e guardanapos carmesim dobrados cuidadosamente em cada assento.

Já estavam sentados seis pessoas.

Todos viraram a cabeça para olhá-lo.

Ninguém sorriu.

No cabeceira da mesa, estava Lorde Albrecht Thorne, o patriarca. Meados dos cinquenta anos, olhos cinzentos afiados, cabelo puxado para trás como aço. Postura reta, expressão de pedra.

Ao seu lado, em ambos os lados, suas esposas:

Lady Mirelle Thorne—primeira esposa. Regal, com cabelos negros como o ébano, olhos gélidos como gelo, postura rígida como uma muralha.

Lady Serina Thorne—segunda esposa. Sorriso caloroso, cachos loiros-acastanhados, olhos verdes que observam como um gato à espera de algo se mexer.

De frente um para o outro, sentados como peças de xadrez, os irmãos:

Kael Thorne (21) – herdeiro aparente. Alto, charmoso, com aquele sorriso de nobre prática que nunca chega aos olhos. Cabelos negros, traços afiados—totalmente Mirelle.

Damon Thorne (18) – musculoso e egoísta, a camisa levemente esticada sugando seu peito. Parecia resolver problemas socando até alguém limpar a bagunça.

Livia Thorne (19) – composta, delicada, sua voz tão suave quanto suas ofensas. Tinha a postura de Lady Serina e nenhuma da suavidade dela.

Sylvette Thorne (17) – quieta, observando tudo com olhos divertidos. Nunca falava, a não ser para fazer cortes.

Noel se aproximou do último assento vazio no extremo oposto.

Ninguém falou uma palavra.

Ele puxou a cadeira, sentou-se, levantou seu guardanapo com calma e precisão, e começou a comer.

A comida era divina—pão folhado, ovos temperados, frutas frescas e algo como veado assado.

Mas o silêncio era mais cortante que as facas.

Finalmente, Albrecht falou, com voz firme e baixa.

"Você completou dezesseis anos recentemente. Amanhã, vai para a academia."

Noel não levantou os olhos. Cortou um pedaço de carne com perfeição tranquilizadora.

"Entendido."

"Partirá ao amanhecer. Carroça estará esperando. Sem escolta, apenas o cocheiro."

Isso era tudo.

Sem incentivos. Sem despedida. Apenas logística.

Noel repousou a faca, calmamente.

"Compreendido."

Ele sentia os olhares deles, julgando e sondando.

Mas não cruzou o olhar deles.

Não precisava.

Ele não estava ali para conquistá-los.

Estava ali para aprender.

Para esperar.

E quando chegasse a hora—

Queimar o roteiro.

O som de prata contra porcelana ecoou no silêncio.

Noel continuou comendo com a eficiência calma e meticulosa de alguém que sabe que é melhor não acelerar em território inimigo. Não falou. Não olhou nos olhos.

Mas isso não o salvou.

"Ainda vivo, irmãozinho?" A voz de Damon cortou a calma como uma pedra lançada. "Ouvi dizer que seu núcleo de mana quase desmaiou no último ano. Talvez morra na cerimônia de entrada."

Kael deu uma risadinha suave, rodando o vinho no copo com graça ensaiada.

"Não seja tão cruel, Damon," disse, sorrindo sem calor. "Talvez ele sobreviva tempo suficiente para tropeçar nas roupas e envergonhar a Casa Thorne na frente de todo mundo. Uma lembrança e tanto."

Livia soltou uma risada musical, completamente falsa.

Sylvette apenas assistia, com os olhos divertidos, como se quisesse aproveitar o espetáculo.

Noel não respondeu de imediato.

Engoliu, limpou a boca com elegância.

Depois, finalmente, levantou o olhar.

Seus olhos verdes encontraram os de Kael com a frieza cirúrgica de quem observa uma mancha menor numa parede branca.

"Uau," disse Noel, com a voz calma. "Impressionante."

Kael piscou.

Noel inclinou a cabeça, expressão neutra.

"Duas frases inteiras, e você ainda conseguiu parecer um idiota presunçoso. Está praticando no espelho ou isso vem naturalmente?"

Silêncio.

Damon se engasgou com a própria bebida. Livia congelou no meio da mordida.

Até as sobrancelhas de Sylvette levantaram-se ligeiramente.

Olhos de Mirelle se estreitaram.

Serina colocou o garfo com mais força do que o necessário.

Noel não vacilou. Não sorriu. Apenas pegou seu copo e bebeu, como se não tivesse acabado de insultar o herdeiro na frente de todos.

Kael foi o primeiro a se recuperar.

A mandíbula dele travou, mas o sorriso voltou—mais frio desta vez. "Percebo que a academia pode te ensinar alguns modos."

"Desde que você sobreviva tempo suficiente para aprendê-los."

Noel o encarou por mais um segundo, depois retornou ao prato.

"Me avise quando os seus melhorarem. Eu mando flores."

Mirelle inspirou fundo. "Albrecht—"

Lorde Thorne não elevou a voz.

Ele não precisava.

"Basta," disse, com tom absoluto. "Haverá ordem nesta mesa."

Todos ficaram imóveis.

Isso foi o fim da conversa.

Não mais risadas. Não mais provocações.

Apenas o silêncio sutil de uma faca cortando carne—e uma mudança delicada no ar.

Porque esse não era mais o mesmo Noel.

E todos sentiam isso.

O silêncio não durou.

Não aqui.

Nem nesta casa.

Serina limpou os lábios com o guardanapo, a voz leve como o ar.

"Meu senhor, com Kael assumindo suas funções nobres em breve, talvez seja hora de formalizar a sucessão. A propriedade não pode ficar sem herdeiro definido."

Kael não olhou para cima, mas a discreta elevação do queixo já dizia tudo.

Mirelle, sentada ao lado, acrescentou com suavidade: "Ele mostrou-se capaz. Sua aptidão com mana é só menor que a sua, e seu serviço na diplomacia da Casa tem sido exemplar."

Noel não olhou para nenhuma delas.

Ele foi cortando uma fruta com precisão cirúrgica.

Mas ouvidos atentos, abertos.

Lorde Albrecht pôs os talheres na mesa, juntou as mãos.

Kael endireitou-se. Damon também. Livia sentou-se um pouco mais ereta.

Sylvette parou de mexer.

Até Noel deu uma pausa, a colher na metade da boca.

Todos na mesa sabiam: aquele era um momento.

Mas os olhos do patriarca não se fixaram em Kael.

Nem em Damon.

Nem em qualquer de seus filhos.

Ele simplesmente disse, "A questão da sucessão... pode esperar."

A mandíbula de Kael se travou visivelmente.

Lady Mirelle piscou, lentamente, uma vez.

"Claro," disse ela com suavidade. "Como o senhor manda."

Serina sorriu, mas os olhos permaneciam frios.

Noel voltou a comer, indiferente.

Mas por dentro?

Seus pensamentos giravam como lâminas.

'O velho não está pronto para nomear um sucessor. E isso os irrita.'

Kael queria o assento. Damon provavelmente não liga para governar—ele só quer vencer. As irmãs são jogadoras de azar.

E Albrecht?

Ele esperava por algo.

Ou por alguém.

'Pode ser um fator externo. Ou talvez esteja nos observando e tenha algo planejado.'

De qualquer jeito—

Noel ouvia.

Quando os pratos foram retirados, Lorde Albrecht recostou-se na cadeira. A equipe movimentava-se silenciosamente ao redor, limpando os pratos com a eficiência de fantasmas.

Então, o patriarca repetiu, com voz firme.

"Noel."

O silêncio voltou à mesa.

Sete olhares se voltaram para ele.

Noel levantou os olhos, frio e indecifrável. "Sim, pai?"

"Amanhã, você parte para a Academia Imperial."

Não foi uma solicitação. Nem uma discussão.

Foi uma ordem.

Ele inclinou a cabeça levemente.

"Entendido."

Sem surpresa na voz. Sem protesto.

Kael deu um sorriso frio. Livia lançou um olhar de lado, como se avaliasse se ele iria balançar.

Ele não balançou.

Lady Mirelle clareou a garganta, claramente desinteressada. "Tem certeza de que vai enviá-lo sem escolta? É uma viagem de três dias."

Serina acrescentou suavemente, "Pelo menos, uma escolta adequada—"

Lorde Albrecht levantou uma mão.

As duas mulheres ficaram em silêncio.

"Ele irá sozinho."

O olhar dele não vacilou, fixo em Noel.

Não havia malícia. Nem calor.

Apenas cálculo.

Como se estivesse colocando uma peça no tabuleiro e esperando para ver o que ela faria.

Noel encarou-o sem piscar.

'Mensagem recebida.'

Ele não estava sendo protegido.

Estava sendo testado.

Noel voltou para o seu quarto ao pôr-do-sol, enquanto a luz quente do entardecer entrava pelas cortinas, tingindo o espaço de âmbar e fazendo as paredes de pedra parecerem quase suaves.

Ele fechou a porta e respirou fundo lentamente.

Silêncio.

Finalmente.

Caminhou até o grande armário no canto—madeira escura, bordas gravadas, puxadores dourados. Dentro, roupas de viagem perfeitamente dobradas: uniformes de alto colar, capotes escuros com detalhes em prata, luvas finas e cintos. Cada peça exalava nobreza.

Se vestiu rapidamente, com precisão. Sem cerimônia. Apenas eficiência.

E então, viu aquilo.

Meio enterrado atrás dos capotes, escondido sob um casaco reserva, havia um estojo comprido, envolto em couro preto.

Ele parou.

Sabia exatamente o que era, foi até o latch, abriu a tampa.

Dentro, repousando sobre veludo vermelho profundo, havia uma espada.

A bainha era escura como tinta, com detalhes em prata. A empunhadura era simples, quase espartana—embrulhada em couro preto desgastado—mas tenía um símbolo gravado no guarda: o brasão da Casa Thorne.

Noel levantou a espada do estojo.

Era mais pesada do que imaginava.

Mas equilibrada.

Natural.

Seus dedos se fecharam ao redor da empunhadura como se já tivesse feito isso centenas de vezes.

E ao puxá-la até a metade, o aço refletiu um brilho opaco, pálido. Não era exatamente encantada... mas também não era comum.

Então—

Um suave tingido.

Uma tela piscou na esquina de sua visão.

[Item Identificado]

Nome: Presa do Fantasma

Tipo: Arma – Espada

Grade: ??? (Ainda não despertada)

Descrição: Uma relíquia herdada na linhagem dos Thorne. Destinada a um filho esquecido. Resona com almas ligadas à segunda chance.

Status: Vinculada ao Usuário—Noel Thorne

Traço: Aumenta a clareza sob pressão de risco de vida. Evolui sob estresse extremo.

Noel olhou para a tela.

Depois para a espada.

Depois de volta novamente.

'Segundas chances, hein.'

Ele deslizou a lâmina de volta à bainha e prendeu ao cinto.

Sem destaque. Sem bravatas.

Apenas uma aceitação silenciosa.

"Vou ficar com ela," murmurou.

Depois fechou o armário, colocou a bolsa perto da porta e caminhou até a cama.

Amanhã, partiria.

Amanhã, entraria na academia como uma sombra.

Para não ser visto.

Mas o mundo não esqueceria seu nome para sempre.

Algum lugar mais fundo na casa, além da grande escadaria, atrás de uma porta raramente aberta, uma sala silenciosa brilhava com o brilho quente de arandelas iluminadas por mana.

Lady Mirelle e Lady Serina sentavam-se frente a frente numa mesa redonda de ébano. Suas expressões eram compostas, a postura perfeita, mas a tensão entre elas era afiada como uma lâmina desembainhada.

Dois copos de porcelana com chá, ainda quentes, entre elas—não tocados.

Mirelle foi a primeira a falar.

"Aquela patricinha ousa insultar o Kael na frente de todo mundo."

Sua voz era gelo envolto em seda.

Serina expirou pelo nariz, lentamente e em silêncio.

"Ele sempre foi nada. Uma sombra de fundo. Mas agora quer crescer dentes?"

Lady Mirelle revelou os lábios em uma expressão de desprezo.

"Ainda é fraco. Mal consegue formar um escudo de mana decente. Duvido que dure uma semana na academia."

Serina tomou um gole de chá sem beber, apenas como retenção. "Fraco, sim. Mas não podemos permitir que a falta de respeito floresça."

Mirelle assentiu uma vez, firme e deliberada. "Deixar passar assim envia a mensagem errada. Especialmente para a equipe. Para as crianças. Eles precisam saber quem manda acima."

Ela meteu a mão na capa e retirou um envelope negro—sem brasão, sem marcas, apenas um cheiro metálico suaves na cera.

Empurrou-o na direção da mesa.

Serina o abriu, leu o conteúdo, sem mudar a expressão.

Timing. Rota. N° de atacantes. Planos de contingência.

No rodapé, escrito com tinta rubra: The Hollow Blades.

Fantasmas na forma de homens. Treinados para matar, pagos para desaparecer.

"Amanhã," disse Mirelle. "Vale do Segundo. Sem guardas. Sem testemunhas."

Serina dobrou o papel e o guardou na manga.

"Sem sobra de peças?"

"São profissionais. Noel nunca será uma ameaça que teremos que ouvir novamente."

Serina levantou seu chá. "Bom. Que nossos filhos cresçam sem peso morto arrastando-os para baixo."

Os olhos de Mirelle brilharam.

"Para o bem da casa."

Elas bebiam em silêncio—duas nobres, envoltas em graça e veneno.

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